A VERGONHA DA BANDEIRA

Como os símbolos nacionais, sobretudo a bandeira nacional brasileira, estão sendo cooptados pelos “patriotas de verdade”

O Dia 19 de Novembro (Dia da Bandeira) serve para lembrar que a bandeira nacional é uma destacada marca que deveria servir de preposto para todos os membros do Estado. Essa temática vem sendo discutida por diversos autores, entre eles renomados estudiosos como Oliver Stuenkel. Sob sua ótica, a utilização de símbolos nacionais não deve representar uma parte da população, mas sim a toda comunidade que ela engloba. Entretanto, quando você se dá conta que é melhor não sair com uma camisa da seleção brasileira porque pode acabar sendo confundido com um grupo determinado da população, percebe que isso não se concretiza na atualidade.

Para Stuenkel, que é professor e pesquisador de relações internacionais, “em várias democracias ao redor do mundo radicais têm se apropriado de bandeiras nacionais para poder chamar vozes discordantes de inimigos da pátria”.  Porém, via de regra, os cidadãos médios não só veem esse cooptação ocorrer, como também aceitam e até estimulam isso indiretamente. De fato, torna-se contraproducente simplesmente aceitar essa caracterização. Além disso, é perceptível o quão raso encontra-se o conhecimento do cidadão brasileiro médio a respeito da importância dos símbolos nacionais.[1]

O alavancar de grandes impérios e nações foi alicerceado por diversos fatores em conjunto. Contudo, apenas a crença em uma entidade abstrata superior a todos enquanto indivíduo, tal como um deus ou um grupo de homens com ligações e crenças basilares únicas, foi capaz de romper a barreira da comunidade familiar rumo a uma verdadeira civilização. E nada melhor que símbolos nacionais para representar essas unidades. Nada senão uma questão de identidade.

A respeito disso, primeiramente, não é certo por quem ou quando foi criada a primeira bandeira propriamente dita. Possível é que tenha sido nos arredores do subcontinente indiano pelo fundador da Dinastia Zhou na China (1046–256 a.C). Mas as razões para o seu surgimento não são tão obscuras. Segundo apontam pesquisas da Encyclopaedia Britannica, “Originalmente, bandeiras foram usadas principalmente em guerras, e algumas permaneceram como insígnia de liderança, servindo de identificação entre amigos e inimigos e como forma de união” (Encyclopaedia Britannica, 2019, tradução nossa)[2].

Ou seja, um dos fundamentos da bandeira nacional, originalmente, é fazer distinção de quem é seu parceiro de batalha e quem não é. Essa concepção pode não ser integralmente igual a de hoje.Apesar disso, o âmago inerente a ela ainda pode ser entendido: símbolos agrupam. Consequentemente, se deixadas adotar por uma camada específica, passam a segregar a outra parcela. E essa segregação, por muitas vezes, hoje, interrompe não só o diálogo, mas o próprio processo democrático.

Assim dizendo, os símbolos, quando empregados dessa forma, impõem rótulos muito extremos a ambas as partes. Como se o fato de você usar uma camisa da seleção pudesse te definir como “fascista”.

Além disso, a bandeira é carregada de história. O símbolo como conhecemos hoje surgiu pelas mãos de dois marcados filósofos ligados a corrente positivista:  Raimundo Teixeira Mendes e Miguel. E a data comemorativa em sua homenagem [19 de novembro] se deve ao dia em que foi oficialmente adotada pela primeira vez, por meio de um decreto promovido por Benjamin Constant, quatro dias após a proclamação da república, e mais tarde referendado pelo presidente Marechal Deodoro.

Ao contrário do pensamento ordinário, suas cores não se referem aos elementos naturais do país. Apesar disso, têm significado cordial, sentimental e familiar para o povo brasileiro. representam as famílias de Dom Pedro I (Bragança, o verde) e sua esposa, a Rainha Leopoldina (Habsburgo, o amarelo), além das heranças portuguesas representadas pela cor azul e branca. Isso é, muito mais profundo e antigo do que representar uma parcela específica de nós, é de todos, para todos e carrega a história do Brasil per se.

Não à toa, conforme estabelecido pela Lei 5.700 de 1º de setembro de 1971, para todos os símbolos nacionais brasileiros (art. 1º), a saber: a Bandeira Nacional; o Hino Nacional; as Armas Nacionais e Selo Nacional, “é igualmente proibido que se apresente ou se trata com desrespeito” (art. 23)[3]. Além, disso, ao longo do texto, são vedados utilizações e manuseios ofensivos à sua imagem, como uso para vestimenta, por exemplo.

É preciso destacar, ainda na tentativa de pormenorizar a questão, o pano de fundo desse movimento contemporâneo.Em outras palavras, compreender esse movimento sob uma ótica mundial. Para Jan-Werner Müller, filósofo, historiador e pesquisador na Universidade de Princeton, hoje, não só observamos um movimento antiglobalização forte em diversos países, mas o emergir de uma variante do nacionalismo extremamente poderosa: o nacionalismo populista. Uma variante única que muito possivelmente veio para ficar.

Nesse sentido, é visto que a apropriação de símbolos nacionais, mormente a bandeira, e o destaque para o contexto dos “verdadeiros” nacionais, bem como ser leniente com uma espécie de figura messiânica, fazem parte do que Müller chamou de populist playbook dessa nova categoria: uma espécie de manual de governança da arte populista. As bandeiras são cooptadas e atribuídas aos “nacionalistas” quase sem resistência.

Dessa forma, o autor entende que nacional-populismo já pode ser visto com grande destaque no Brasil, nos EUA, na Índia e na Alemanha. Nesse último, o partido AfD (Alternative für Deutschland) e outros na mesma toada nacional-populista tentam dominar quase hegemonicamente a representação da bandeira alemã e a oposição aceita sem grandes dificuldades.

Por sinal, não faz muito tempo – era dia de jogo da seleção brasileira– que eu mesmo andava pela rua vestido de CBF a caminho da padaria, quando escuto do outro lado da rua: “FASCISTA!”. Cara, que aperto. Afinal, esse símbolo deveria expor coletividade, não segregar. Ainda mais quando tratamos de um símbolo nacional esportivo tão grande no Brasil como é o Futebol. Mas bem, até mesmo isso se tornou política.

E você, tem vergonha da bandeira?

Referências Bibliográficas

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/12/opinion/1560348817_282472.html

[2] https://www.britannica.com/topic/flag-heraldry

[3] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5443impressao.htm

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