Devil’s Candy: demônios, guitarras e o mal

O véu crepuscular engolfa uma casa de campo espaçosa, que flutua estável sobre a grama do interior do Texas. Uma voz lúgubre entoa palavras enigmáticas no pé do ouvido de Ray Smilie. O homem corpulento vestindo um conjunto de roupa laranja e branco levanta-se de seu leito de descanso, pega sua guitarra modelo Gibson Flying-V e toca repetidas vezes o mesmo power chord em frente a um crucifixo pendurado na parede. O som subjuga o silêncio da noite e acorda a preocupada mãe de Ray. Ela indaga seu filho adulto a respeito do barulho e ele responde que tocando alto o suficiente não se escuta “Ele”. “Faça suas malas, você vai voltar para o hospital! Vou ligar para o ‘papai’ e ele vai te levar de volta!”. A voz continua. Golpe em slow motion com a guitarra. Crucifixo vira de ponta cabeça.

A casa de campo agora vazia ostenta a história macabra de uma mulher que caiu “acidentalmente” das escadas e do marido que, despido de toda sua força vital, cometeu suicídio ao chegar em casa e ver a cena. Os corretores imobiliários têm um nome para casas assim: uma pechincha. Jesse, sua esposa Astrid e sua filha Zooey mesmo assim acham que a casa é um excelente lugar para se chamar de lar, mas logo vão descobrir que o ex-morador quer mais do que simplesmente resgatar a memorabilia da família. Essa é a trama básica do filme Devil’s Candy, de 2015.

Ao meditarmos sobre a natureza do mal, em uma sociedade majoritariamente cristã, é provável que o associemos a figura do Diabo, com seu tridente, chifres, cavanhaque e rabinho de seta. Mas e se essa não for a Grande Mentira. A mentira na qual acreditamos cegamente. Na cultura pop, a imagem do Diabo aparece de muitas formas, uma criança no Halloween fantasiada de capetinha ou o Senhor das Trevas daquele filme A Lenda. Mas e se o Diabo não tiver forma? E se ele for um deus tão antigo que pode se perder na nossa própria realidade subjetiva. E se ele vive através de nós, vide Charles Manson ou o nazismo. E se nós formos seus peões, seus demônios na Terra.

O filme gira em torno do tema da possessão, mas não se vê nele pessoas flutuando com os olhos negros como os de um tubarão, cabeças girando ou pessoas falando aramaico com voz grossa. Ao invés disso, todas as ações malignas têm as potencialidades do ser humano como limitadoras, todo o mal praticado no filme é inequivocamente humano e contido na natureza humana. Aí mora um estilo de terror sobrenatural, mas natural que torna essa obra tão assustadora. O mal está em nós, não em fantasmas arrastando correntes ou bonecas malignas. Para os fãs da estética e som do heavy metal o filme promete tratá-lo com o carinho e respeito que seu cabelo comprido e ensebado merece.

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