Alcântara Machado: o diretor da Revolução Franciscana

O ex-vereador, então diretor da Faculdade de Direito de São Paulo, fervilhava politicamente e incendiou os ânimos da elite paulista e dos estudantes durante aquela Revolução Constitucionalista. Naquele XI de agosto, durante o celebrado dia das carreiras jurídicas e fundação da Sanfran, o Dr. José de Alcântara Machado de Oliveira passou por meio das ondas de rádio uma mensagem para os franciscanos revolucionários. Mensagem essa que ficou marcada no espírito dos que passavam pelo Largo. Mas, espere! Primeiro conheçamos a história franciscana do homem que projetou o prédio localizado no coração de São Paulo como o conhecemos hoje:

Nascido em Piracicaba, ingressou no estudo das Leis aos 15 anos, formando-se bacharel em 1893 (aos 18 anos de idade!) e recebendo o grau de doutor apenas dois anos depois pelas Arcadas, faculdade onde seu pai lecionou. Já professor de Medicina Legal e Higiene Pública na Sanfran, foi o representante franciscano co-fundador da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de São Paulo. Porém, Alcântara Machado não parou por aí, no início do século XX elegeu-se vereador pela capital paulista e integrou a Comissão de Justiça e Polícia, este por conta de sua experiência com Direito e como Professor na Faculdade de Direito.

Contudo, mesmo com toda a sua carreira de vereador, senador e integrante da Academia Brasileira de Letras, o que nos detém aqui são suas atividades em nossa querida instituição arcada. Mais que isso, devemos focar em seus últimos anos enquanto professor catedrático de Medicina Pública, o tempo sendo vice-diretor e seu período como diretor da Sanfran (de 1925 a 1935). Foi nessa época que São Paulo protagonizou seu primeiro momento revolucionário no século XX. Foi em pleno Largo São Francisco que os estudantes franciscanos organizaram, em 10 de julho de 1932, o alistamento militar voluntário para o Batalhão Universitário, que futuramente lutou na fronteira do Paraná contra o exército varguista (batalhão que, inclusive, recebeu o alistamento do professor Goffredo já apresentado em matéria anterior do Gazeta).

A história de luta e revolução da Sanfran não acaba por aí. Mais tarde - em agosto do mesmo ano - a faculdade foi a primeira sede da organização revolucionária MMDC, principal promotora da revolução e articuladora militar. Criada a partir da violenta repressão do exército varguista a uma manifestação na Praça da Sé, que culminou na morte de quatro estudantes (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, o que levou às siglas do movimento), a organização promovia reuniões entre revolucionários paulistas e treinamento militar para os que quisessem se alistar. Durante o ápice da revolução, no início dos anos 30, é que Alcântara Machado dirigia as arcadas. No momento em que os estudantes paulistanos lutavam pela outorga de uma nova Carta Magna, o piracicabano encontrava-se como diretor do principal centro intelectual e militar da revolução. Mais que somente diretor, encontrava-se como motivador: “Literatos, jornalistas, estudantes e mestres das escolas superiores: é contra eles que o ditador está enviando as suas metralhadoras”, como Lira Neto cita uma das falas do professor Alcântara em Getúlio Vargas (1930-1945), do governo provisório à ditadura do Estado Novo.

Finalmente poderemos continuar o primeiro capítulo. Você, caro(a) leitor(a) estudante da Sanfran, provavelmente já passou várias e várias vezes pelo monumento “Aos acadêmicos de Direito mortos por S. Paulo em 1932”, encontrado em um dos lados do Pátio das Arcadas. Esse monumento representa também o respeito e apoio do diretor franciscano aos estudantes, revolucionários e ao MMDC como um todo durante os meses de revolução. Foi com esse espírito que em XI de agosto de 1932, durante o momento mais caloroso dos conflitos, Alcântara Machado foi ao rádio exaltar os que lutavam pela nova constituição e contra a ditadura varguista: “Saudação aos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo que nas linhas de frente estão restituindo aos brasileiros o Brasil”, abriu o discurso. Adiante, o professor rende-se à influência política da luta, e decide que seus estudantes já são dignos do título de mestres: “Discípulos? Não. Porque a vossa atitude em 23 de maio e 9 de julho inverteu os valores e destituiu de seus cargos todos os mestres. Os únicos professores são vós e os vossos companheiros de armas. A trincheira é a vossa cátedra. E o Brasil inteiro está aprendendo convosco” (trechos retirados de O imortal quatrocentão, de Rodrigo Garcia).

Como sabemos hoje, quase 100 anos depois, a revolução como um todo acabou sendo, com êxito, reprimida pela armada de Vargas. Contudo, essa não foi a derrota da Sanfran, dos estudantes revolucionários ou do prof. Alcântara Machado; antes de seu falecimento em 1941, o eterno diretor do Largo São Francisco pôde ver a Assembleia Nacional Constituinte ser convocada por Vargas ainda em 1932, sendo instalada em 1933. Reflexos da revolução. Além disso, o professor teve papel fundamental na fundação da Universidade de São Paulo (1934), posto que já era à época sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Faculdade Paulista de Filosofia e Letras e da Escola de Sociologia e Política (instituições atualmente integradas à USP), além de diretor da Faculdade de Direito de São Paulo. O Dr. José de Alcântara Machado de Oliveira não foi apenas um franciscano, foi um marco na história do Direito, da Sanfran, da USP, de São Paulo e do Brasil; sendo uma das pessoas com maior influência sobre a comunidade da Faculdade de Direito, seja pela arquitetura das arcadas ou pelo espírito franciscano constitucionalista que permeia até os dias atuais pelo Largo.

Referências:

Bibliografia online de José de Alcântara Machado D’Oliveira. Portal da Faculdade de Direito da USP: Diretores. 2016. Disponível em: <http://www.direito.usp.br/faculdade/diretores/index_faculdade_diretor_17.php>. Acesso em 07 abr. 2021.

Perfil online de José de Alcântara Machado D’Oliveira. PILLA, Lucia. Portal Geni: people. 2018. Disponível em: <https://www.geni.com/people/Alc%C3%A2ntara-Machado/6000000016382814146>. Acesso em 07 abr. 2021.

“O imortal quatrocentão”. GARCIA, Rodrigo. Revista Apartes, 16ª edição. 2015. Disponível em: <https://www.saopaulo.sp.leg.br/apartes-anteriores/revista-apartes/numero-16/o-imortal-quatrocentao/>. Acesso em 07 abr. 2021.

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