Cenas de um quarto

Solidão, bem só

não amor, hoje é só pó.

Tanto tempo trancado,

sobrevivendo, isolado.


Entre as minhas quatro paredes,

imaginando grandes campos verdes.

Nem Sartre previu tamanha crise existencial,

absurdismo da nova-vida totalmente virtual.


E por onde anda o amor?

E todo o resto do lirismo do mundo?

Não se pode escrever poemas após o Holocausto…

Não se pode escrever versos após tanta guerra e morte…

No entanto, permaneço aqui estático, tentando.

Preso na mente do meu quarto.

Onde foi parar toda a subjetividade?

A poesia é um ato revolucionário.

Amar é um ato revolucionário.


O que aconteceu comigo nesses meses!

Uma nova vida, em outro lugar,

longe desse atormentado quarto.

Tão longe assim? Ou longe subjetivamente?

Ainda é cedo, ou é tarde demais para sair?

Perdi muitos contatos, mas ganhei tantos novos,

sem remorsos ou expectativas, apenas a esperança:

será que finalmente posso me comunicar sem um meio eletrônico?

Nesse atormentado mundo, desesperado mundo: mundo biônico.

Tantas perguntas… ainda faltam mais incertezas para me atormentar.


E mergulhar no amor novamente?

Talvez dessa vez com olhos de poeta,

porém, não sei mais escrever: roubaram-me a poesia.

No curso dessa água viva, de felicidade, razão ou sinceridade,

escrevo como quem, bruscamente, busca não rimar: liberdade.

E nos tempos de caos, esvaziados de sentido,

o que nos falta é um pouco de paz.

Fora do quarto, fora das quatro paredes,

ao vivo e em cores, mesmo preto e branco,

nada interrompe o colorido de minha mente.

É mergulhar no amor novamente.


Solidão, que nada!

Coloco o pé na estrada!

Conectar com pessoas dissonantes,

oh, dessa vez, nada será como antes!


Chega de naufrágios fora do mar,

o universo me telefona e me deixa sonhar!

Agora, não se incomode de deixar a porta do quarto aberta,

por mais distante que isso pareça, não hesito, aceito a oferta.

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