Uma invasão alienígena leva a humanidade a fugir por buracos de minhoca, ou um vírus escapa de um laboratório e transforma toda a população do planeta em zumbi. Na ficção científica, o fim do mundo é um tema previsível. Na vida real, no entanto, o apocalipse se constrói paulatinamente. Ele é impreciso e obscuro, e deixa dúvidas sobre em que momento se poderá dizer que vivemos em uma sociedade perdida.
As tentativas de transposição de criações da ficção científica para a realidade tecnológica vêm progressivamente ganhando espaço. Recentemente, Mark Zuckerberg abraçou a premissa de Matrix de que podemos nos conectar a um grande computador e persistir como reles corpos enquanto a realidade decai ao nosso redor. Primeiro, foi publicado um anúncio chamativo no The Verge, em que o CEO do Facebook afirmava que a empresa mudaria o foco das mídias sociais para “o metaverso.” Depois, a empresa lançou uma parceria com a Ray-Ban[1] para vender seus óculos de realidade aumentada. Em seguida, veio a notícia de que o Facebook estava contratando 10.000 pessoas[2] na Europa para trabalhar na construção do metaverso. Então, finalmente, veio à tona que o Facebook faria um rebranding[3] com um nome que reflete suas novas aspirações. Esse nome, agora se sabe, é Meta, empresa que gastou 10 bilhões de dólares em projetos do metaverso apenas este ano[4].
O rebranding do Facebook é ambicioso e potencialmente prematuro, tendo em vista que o metaverso está a anos – provavelmente, a décadas – de distância. De qualquer forma, vale ressaltar, a mudança de foco tem o benefício de desviar a atenção da má reputação da empresa, que vem sendo pisoteada por um desfile de relatórios condenatórios, audiências do Congresso e, agora, pelos Facebook Papers[5].
Neal Stephenson, autor da obra de ficção científica Snow Crash, de 1992, cunhou o termo “metaverso” como uma releitura do cyberespaço de William Gibson[6]. Snow Crash trata de um entregador de pizzas durante o dia, super-herói em um universo digital tridimensional à noite. Esse universo é o metaverso, acessível por meio de um par de óculos utilizado pelo personagem principal. O livro arquiteta o metaverso como um espaço que combina o real e o projetado; como o mundo físico potencializado por construções e sensações virtuais.
Zuckerberg, por sua vez, definiu o metaverso como uma “internet encorpada”, em que é possível inserir-se no conteúdo, em vez de apenas visualizá-lo[7]. Em todo caso, em sentido estrito, o metaverso é concebido a partir de óculos de realidade virtual. Nesse ponto, o Facebook – agora “Meta” – possui há sete anos uma empresa, denominada Oculus, que constrói óculos de realidade aumentada. Essa empresa também anunciou que o nome será aposentado e que ela agora operará sob a marca Meta.
Desde que adquiriu a Oculus, os investimentos em realidade virtual vêm correspondendo a 20% da força de trabalho do Facebook. No entanto, apesar dos muitos anos, bilhões de dólares gastos e pandemias de quase dois anos – que intensificaram a demanda por entretenimento virtual –, os resultados até agora têm sido bastante escassos.[8]
Por trás dessa iniciativa em busca de uma realidade onírica, está o desejo de Zuckerberg de dar um passo em escala bilionária rumo ao desconhecido, à la Jeff Bezos ou Elon Musk. Isso pode, efetivamente, produzir frutos no futuro – mesmo porque um feed de mídia social recheado de anúncios não é mais o ideal de amanhã. Agora, tornar-se um super-herói no metaverso alimenta as ambições de Zuck tal qual aspirar a viagens espaciais alimenta Bezos e Musk. E não é só o Facebook que se lançou nessa empreitada, evidentemente. A Apple, a Microsoft e outras empresas estão investindo enormes recursos na tecnologia e infraestrutura de realidade virtual necessária para o metaverso[9]. Se todas essas ambições relativas à realidade virtual se concretizarem, pedir comida, ir trabalhar, fazer reuniões e remexer prateleiras de lojas passarão a ser atividades feitas por detrás de um par de óculos montado na cabeça. Chamar isso de metaverso certamente soa melhor.
O “metaverso”, então, é como um cubo social futuro, uma evolução de The Sims que conecta a realidade banal da atenção tecnologizada a um delírio de fuga de ficção científica. Se a internet é bidimensional – composta por textos e imagens em uma tela plana –, o metaverso deve ser imaginado como tridimensional e multissensorial – com, inclusive, sensibilidade ao toque. Um tipo de universo virtual tão fértil à imaginação quanto um Minecraft e tão funcional quanto um Google Docs. Além disso, ainda que o metaverso fique aquém das visões fantásticas postuladas por autores de ficção científica, é provável que produza trilhões em valor como uma nova plataforma de computação ou meio de conteúdo.
O delírio é intenso. Big Techs sabem que a vida real ainda se infiltra pelas brechas dos computadores. Nenhuma empresa, por maior que seja, é capaz de concentrar em si a totalidade da experiência existencial. Todavia, há um caminho inexplorado: se ao menos o público pudesse ser persuadido a abdicar do material pelo simbólico; lentamente, fortuitamente, o mundo real veria sua derrocada. Emergiria em seu lugar apenas o intocado – mas monetizável – virtual. Em outras palavras, o metaverso revolucionaria não apenas a camada de infraestrutura do mundo digital, mas também grande parte do mundo real, bem como todos os serviços e plataformas que funcionam na materialidade.
Dito isso, evidentemente, interessa a muitas empresas estar por trás da construção do metaverso, já que o arco dessa nova expressão da realidade virtual é tão longo e imprevisível quanto o seu produto final é lucrativo. O valor de estar na posição de um participante-chave, senão do piloto, da criação de tal sistema é incontestável. A título de exemplo, atualmente, não há “dono” da Internet, mas quase todas as principais empresas de tecnologia estão entre as 10 mais valiosas do mundo. Se o metaverso, de fato, servir como um sucessor funcional da Internet — desta vez, com alcance potencializado e maior atividade comercial —, é presumível que haja ainda mais vantagem financeira.
No mais, é provável que a viabilidade técnica da quase-substituição do mundo real por um universo onírico de realidade alternativa seja pequena; isso, no entanto, não cria um empecilho aos investimentos das Big Techs. Para elas, o que, de fato, importa é a ambição que representa para os magnatas que já capturaram grande parte da atenção da população global[10].
Com o metaverso, a corrida pela realidade virtual, provavelmente, não vai desacelerar tão cedo. Os bilhões em investimentos em pesquisa e desenvolvimento se prolongarão. A tecnologia de realidade virtual continuará a ser julgada em face do seu pedigree, em vez do seu desempenho real. Todas as projeções perdidas[11] serão tratadas como evidência de que a visão do futuro tecnológico está correta – o caminho, no entanto, está errado.
É por isso que as tecnologias de realidade virtual, como o metaverso, têm sido tratadas como a rich white kid da tecnologia – continuamente falhando e ainda recebendo oportunidades. A tecnologia está sempre prestesa virar a esquina, prestesa ultrapassar a fronteira de uma tela, prestesa revolucionar campos como Direito e Medicina. O futuro de toda a sociedade está sempre à beira de uma enorme transformação digital. Mas, até agora, os principais frutos da realidade virtual se concentraram em alguns joguinhos mais extravagantes. O projeto de construção de cidades inteligentes faliu[12]; o sonho do Big Data morreu[13]; e mesmo assim ainda se caça algo como um metaverso – uma nova fronteira da internet pronta para ser explorada – para derramar capital.
[1] https://www.theverge.com/2021/9/9/22662809/facebook-ray-ban-stories-camera-smart-glasses-hands-on
[2] https://www.npr.org/2021/10/18/1047033994/facebook-metaverse-10-000-workers-europe-virtual-reality
[3] https://www.theverge.com/2021/10/19/22735612/facebook-change-company-name-metaverse
[4] https://www.protocol.com/bulletins/facebook-metaverse-10-billion-dollars
[5] https://www.businessinsider.com/facebook-metaverse-new-name-change-could-save-it-2021-10
[6] https://www.thestreet.com/phildavis/news/what-is-the-metaverse-2-media-and-information-experts-explain
[7] https://www.youtube.com/watch?v=SAL2JZxpoGY
[8] https://www.wired.com/story/virtual-reality-rich-white-kid-of-technology/
[9] https://www.cnet.com/tech/computing/facebook-goes-meta-what-is-the-metaverse-and-why-is-big-tech-obsessed
[10] https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2021/10/facebook-metaverse-mark-zuckerberg/620538/
[11] https://techcrunch.com/2020/04/22/magic-leap-announces-layoffs-amid-covid-19-slowdown/
[12] https://www.theguardian.com/technology/2020/may/07/google-sidewalk-labs-toronto-smart-city-abandoned
[13] https://venturebeat.com/2013/02/22/big-data-is-dead-whats-next/

