The Rocky Horror Picture Show, peça musical que foi transformada em filme em 1975, é um marco da cultura LGBTQI+ e do teatro musical como um todo. Com uma proposta ousada, não tem escolha melhor de filme para o Halloween 2021. Num mundo onde forças retrógradas cada dia avançam mais, essa sátira musical é um lembrete constante da potencialidade da arte em criar fenômenos atemporais, que atravessam gerações de “alienígenas” de forma crítica e revolucionária.
The Rocky Horror Picture Show, dirigido por Jim Sharman e lançado em 1975, é uma obra tão marcante que, mesmo que você nunca tenha visto, com certeza conhece algum elemento: esse fenômeno do século passado é exaustivamente referenciado na cultura pop. Além do remake de 2016, estrelando Laverne Cox, Victoria Justice e Ryan McCartan, séries como Glee (2009) e That 70’s Show (1998), e filmes como As Vantagens de Ser Invisível (2012) e Fame! (1980) prestam homenagem ao longa em algum momento. Sem mais delongas, o que é TRHPS?


Inicialmente, o roteiro, escrito por Richard O’Brien, foi lançado para os teatros musicais londrinos em 1973. No entanto, foi só após a produção do filme, em 1975, e seu lançamento nos Estados Unidos, que milhares de pessoas tomaram conhecimento da obra. O longa, considerado transgressivo e ofensor da moral e dos bons costumes do país da década de 70, era exibido nas famosas sessões de meia-noite. Essas sessões, como o nome denota, aconteciam às meias-noites de sexta-feira e sábado; não era incomum que aqueles que fossem assistir ao filme fossem repreendidos e, no caso dos adolescentes, punidos.
Dessa forma, o público-alvo foi definido: apenas os subversivos o suficiente para “matar a curiosidade” de madrugada acompanhavam as sessões. Mesmo assim, milhares de salas de cinema estadunidenses lotaram por semanas seguidas. Tal audiência era um reflexo direto dos acontecimentos recentes: a contracultura da década de 60 ainda deixava seus frutos, assim como a Revolução Sexual e o crescimento de pautas feministas de LGBTQI+. O conservadorismo e o retrocesso estavam ficando para trás, abrindo espaço para a libertinagem e para o questionamento dos papéis sociais, especialmente de gênero. The Rocky Horror Picture Show era, obviamente, o filme perfeito para esse momento social e cultural.
O enredo do filme é, à primeira vista, simples: um jovem casal do meio-oeste dos Estados Unidos decide se casar. Assim, decidem comunicar a notícia a um antigo professor do colegial, fazendo uma viagem; essa viagem, entretanto, é interrompida quando, no auge da noite, o carro do casal quebra em meio a uma tempestade. Sem opções, o casal dirige-se a um estranho castelo, onde se deparam com um grupo de indivíduos extremamente peculiares, liderados por uma médica transsexual, Dra. Frank ‘n’ Furter (interpretada por Tim Curry). Essa médica, extremamente sensual e errática, tem um plano para criar Rocky, um homem “com cabelos loiros e bronzeado/que é bom para aliviar minha tensão”. Presos, Brad e Janet, o casal principal, passam uma noite inesquecível “na casa do Frankenstein”.
Vale lembrar que, no filme, os pronomes da Dra. Frank ‘n’ Furter são ele/dele. No entanto, como a personagem é uma travesti, estamos utilizando os pronomes ela/dela em respeito às identidades transfemininas. É importante ressaltar que o filme, apesar de ser revolucionário e marco LGBTQI+, ainda é um filme dos anos 70 com os problemáticas próprias da época.
O filme é uma clara sátira a diversos gêneros da sétima arte: primeiramente, as canções e coreografias possuem um papel claro de parodiar os musicais hollywoodianos dos anos 50, com seus números espalhafatosos e totalmente alheios ao enredo dos respectivos filmes. Mais especificamente, a composição das músicas é uma óbvia referência ao rock dos anos 50, especialmente se pensarmos em números como “Hot Patootie (Bless My Soul)” ou em personagens como Eddie, o motoqueiro.


Entretanto, o ponto alto da ironia e da paródia reside nas diversas referências aos gêneros de terror e sci-fi, totalmente afastados do gênero musical. O cenário, a direção de arte e diversos momentos do enredo referenciam clichês do terror, mas, desta vez, apimentados com a vitalidade do teatro musical e com a sensualidade, quiçá vulgaridade, de todos os outros elementos que tornam a estética do filme icônica. O longa transita entre a comédia, o terror e a ficção científica de maneira com maestria, leveza e bom-humor.
Não é à toa que o filme causou um “fenômeno de culto” em sua época. Basicamente, o fenômeno de culto no cinema consiste no fato de que os telespectadores de uma determinada obra enxergam-a de uma maneira praticamente religiosa, comparecendo, sem falta, a todas as sessões, decorando as falas e, muitas vezes, vestindo-se como os personagens para performar os números em frente ao telão. Tal atividade se tornou tão frequente que, além de ainda acontecer até hoje, integrou-se à experiência do filme de forma simbiótica.
Para além do valor cultural, The Rocky Horror Picture Show possui um profundo valor social. O arco de Brad e Janet é um símbolo da contestação dos papéis de gênero: o descobrimento sexual por meio da nova relação do casal com Frank ‘n’ Furter não é sentido da mesma forma pelas duas partes. Brad, o típico estereótipo de homem cis branco protetivo, é o primeiro que, na realidade, não consegue lidar com as novas descobertas, sendo levado pelos sentimentos de medo e vergonha. Janet, por sua vez, o típico estereótipo de mulher cis branca indefesa, é a personagem com o maior desenvolvimento da trama: ganha sua independência, abraça seus desejos e liberta sua sensualidade e sua compreensão de sexualidade. Esse resultado é simbólico, pois os anos 70 são reconhecidos como a década das conquistas de independência sexual e reprodutiva das mulheres, assim como de profundo questionamento da heteronormatividade e do conservadorismo.
Uma mensagem como essa é indispensável em tempos tão sombrios quanto os atuais. Num mundo que lentamente se recupera de um isolamento social, mas que está longe de se recuperar do obscurantismo, um filme dos anos 70 tem muito a nos ensinar acerca das capacidades humanas de se reinventar e, por meio do renascimento como indivíduo, libertar-se como pessoa. Sexo, identidade de gênero, sexualidade, desejo: temas que até hoje são tabus permeiam constantemente uma trama repleta de reviravoltas, humor e suspense, narrada, ironicamente, por um narrador extremamente sóbrio.
Com certeza vale a pena colocar esse terror/suspense/comédia/musical/sci-fi na sua maratona de filmes desse Halloween de 2021. Dizem que os filmes de terror são reflexos das ansiedades e medo de uma época, mas, nesse caso, TRHPS é mais um reflexo do interior reprimido e da energia armazenada de uma geração que não teve tempo a perder. Assim como o 11 de setembro, por exemplo, trouxe o subgênero de home invasion (invasão domiciliar) pras telonas, o eterno autodescobrimento e desejo do ser humano sempre vai fazer com que The Rocky Horror Picture Show seja um clássico, em qualquer tempo, planeta, galáxia ou dimensão, LET’S DO THE TIME WARP AGAIN!!

