Um bebê órfão vive dentro de um receptáculo que emula o ventre materno. Ele espreita o líquido amniótico em busca de imagens do mundo exterior. Desolação, chuva ácida que envelhece tudo que toca e criaturas mortais e misteriosas, invisíveis aos olhos da maioria, são vistas com nitidez por ele. Ele dá o alerta como pode: um choro lancinante que corta qualquer calmaria.
Death Stranding (デス・ストランディング) é um jogo eletrônico desenvolvido pela Kojima Productions, produtora do aclamado desenvolvedor de jogos Hideo Kojima, e publicado pela Sony Interactive Entertainment. Lançado no dia 8 de novembro de 2019 para PlayStation 4, o jogo teve sua versão para desktop Windows em 14 de julho de 2020. Seu elenco conta com atores de peso como Norman Reedus, Troy Baker, Mads Mikkelsen, Léa Seydoux e Lindsay Wagner, além da aparição especial de Guillermo del Toro.
A essa altura, existem milhões de reviews sobre o jogo, e pode-se dizer que a crítica especializada o recebeu de maneira mista, ódio e amor, lixo e vanguardismo, etc.. Eu me limito a transcrever minhas impressões e reflexões pessoais que tive enquanto jogava, sem qualquer análise técnica, até porque minha relação com jogos eletrônicos é bastante pontual e, em grande medida, casual. Esse texto, portanto, será um review de um jogo eletrônico feito por alguém que não joga jogos eletrônicos com afinco desde a infância.


Somos introduzidos em Death Stranding a um mundo pós-apocalíptico onde as cidades restantes estão em isolamento. Um cataclisma mal explicado pela ciência e pelo supernatural devastou imensas áreas dos EUA. Os entregadores são os responsáveis pelo transporte de suprimentos entre as cidades e estes enfrentam toda sorte de desafio: saqueadores, obstáculos geográficos, gestão dos suprimentos de viagem, chuvas temporais (chuva ácida que envelhece tudo que toca) e criaturas fantasmagóricas, que só podem ser detectadas com a ajuda de um BB, literalmente um bebê alojado em seu peito dentro de um útero artificial. Seu objetivo é viajar pelos EUA conectando as cidades restantes para que o sonho americano seja reconstruído.
O jogo tem uma série de elementos estéticos interessantíssimos, que servem para dar substância à história, mas que ao mesmo tempo não conseguem performar essa função. O desenvolvimento da história é bastante truncado com interseções entre passado, presente e futuro, que não são bem delimitadas. Esse foi um jeito um tanto elaborado de dizer que eu não entendi muita coisa do enredo do jogo, mas me conectei com ele profundamente até poucos meses atrás.


Venho jogando o jogo há bastante tempo, um pouco de cada vez, tenho 47.4h de gameplay segundo a Steam. Para alguém com TOC, é uma experiência bastante interessante. Há certos mandamentos que urgem serem seguidos: as mercadorias devem estar empilhadas nas suas costas de uma determinada maneira; você deve obter 5 estrelas em todos os pontos de entrega para seguir em frente com a história; você deve parar sempre que vê uma mercadoria perdida e deve entregá-la no local mais próximo; a carga não pode ser danificada; só se admite nota “S” ao final de cada entrega; é preciso reconstruir todas as estradas do mapa o quanto antes, etc. O jogo se torna infindável, não há grandes dificuldades e seu maior ônus ao jogar é o tempo dispensado.
O jogo passou a ser um ambiente extremamente organizado dentro da minha existência caótica. A rotina monótona da quarentena era transfigurada em uma gameplay monótona de um jogo extremamente monótono. Não se tratava de um divertimento, era mais como se fosse um dever jogar e realizar as entregas, eu não prestava atenção no enredo, ou na beleza das paisagens, eu apenas entregava mecanicamente…


O nome do jogo faz referência ao termo da Biologia destinado a nomear o fenômeno em que os animais marinhos encalham nas praias, o arrojamento (stranding). Os arrojamentos podem ter origem tanto no devir natural quanto em causas antropogênicas, e resultam na confusão, debilitação e, em último caso, na morte dos animais. Entre as causas naturais podemos citar: as doenças infecciosas e parasitárias, falta de alimento, intoxicação associada à biotoxinas produzidas por algas, condições climáticas adversas, fenômenos oceanográficos específicos e comportamento individual atípico. Entre as causas antropogênicas podemos elencar: a exposição a poluição química, sonora, a ingestão de lixo e o contato direto com embarcações, isto é, colisões ou pescaria.
Não é de todo errado assumir que eu mesmo me encontrei arrojado enquanto jogava Death Stranding. Não sei dizer se isso torna o jogo bom ou ruim, mas acredito que a História o terá como um dos jogos mais influentes desta geração. Acho que essa obra foi a que melhor representou minha saúde mental debilitada pela pandemia da COVID-19. Não sei se um dia terminarei o jogo, mas ele definitivamente garantiu um lugar especial no meu arcabouço pessoal de jogos eletrônicos.
As imagens que ilustram este artigo foram retiradas do trabalho “Baleias em circulação: Uso de imagens na produção e transferência de conhecimentos de história natural marinha em Portugal do Século XVI”, de Cristina Brito e Lese Costa (2016). O texto integral encontra-se disponível no site do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo: https://www.revistas.usp.br/azmz/article/view/99825

