A crise da Evergrande: uma oportunidade à China e um desafio ao Brasil

REUTERS / Aly Song

Os noticiários financeiros globais vêm dando um imenso destaque à potencial falência do Evergrande Group, uma holding chinesa que possui protagonismo no setor imobiliário global, mas que atua em diversos fins, desde a instalação de uma planta de projeto e fabricação de carros elétricos até a gestão do clube de futebol Guangzhou Evergrande, considerado o maior time do futebol chinês. 

Isto ocorre, pois, a empresa, considerada a segunda maior incorporadora do país – que possui 30% do PIB concentrado no setor de construção –, declarou-se incapaz de solver suas dívidas no montante de US$ 300 bilhões, com juros rolando acima da capacidade de pagamento. O elevado índice de alavancagem, estratégia comum no setor, fora colocado em xeque quando a empresa declarou, na última semana, que seria incapaz de cumprir com suas obrigações. O resultado: queda abrupta do valor de mercado da empresa e pânico generalizado nas principais bolsas de valores do mundo.

O crescimento exponencial da empresa, criada em 1996, é diretamente proporcional à urbanização chinesa que, de acordo com o Banco Mundial, passou de 32% para 61,4% ao longo do período. Seu modelo de gestão, como apontado, está pautado na contração de dívidas – alavancagem – por meio da obtenção de empréstimos e venda de títulos à investidores privados. Ponto relevante é que boa parte dos seus projetos é negociada pelo mecanismo de pré-venda. Isto é, vende-se antes de construir, o que, embora gere caixa à empresa, passa a ser um passivo na medida em que este capital angariado é utilizado, muitas vezes, para a contração de novas dívidas. Uma diminuição da demanda, associada à uma gestão de endividamento irresponsável formam a condição perfeita para a falência de uma empresa construída nestes pilares.

Neste ponto, é fundamental indicar que o governo chinês já vinha monitorando e buscando soluções à questão da alavancagem imobiliária ao menos desde 2020. Neste sentido, o Partido Comunista Chinês lançou o programa Três Linhas Vermelhas. O intuito era o de justamente reduzir a alavancagem no setor imobiliário. Para tanto, limitou-a a 70%, o endividamento à 100% do patrimônio líquido e definiu que as operadoras devem possuir liquidez às obrigações de curto prazo[1]. Outro indicativo de instabilidade foi a divulgação recente da perda de lucratividades, no final do ano passado, o que já apontava para uma total fragilidade da empresa no setor.

Assim, pode-se dizer que a crise enfrentada pela empresa surge por conta do seu modelo de gestão que veio a ser diretamente afetado por questões conjunturais associadas à diminuição da demanda. Pode-se dizer, também, que os novos marcos de desenvolvimento chinês, que almejam controlar a especulação imobiliária e reduzir a dependência da economia chinesa da atividade da construção civil, vieram a atingir em cheio as empresas do setor.

Pois bem. A questão é de elevada complexidade, ao menos em seus efeitos deletérios à mão de obra, dado que a classe trabalhadora chinesa possui empregabilidade elevada no setor, além do profundo colapso do financiamento das províncias. Isto, pois, desde a reforma imobiliária de 1998, que possibilitou a venda do direito de uso de terras, boa parte do financiamento das províncias chinesas advém destas vendas, além de servirem como garantia à obtenção de crédito obtido junto aos bancos públicos chineses.

Nestes termos, chegamos às seguintes questões: No que esta crise atinge o modelo de desenvolvimento socialista chinês? Quais medidas imediatas e mediatas estão sendo elaboradas pelo Partido Comunista Chinês? Qual o real impacto desta crise nas cadeias financeiras globais?

Ao governo chinês abre-se uma grande janela de oportunidade. Será por meio do reforço do planejamento econômico que a China conseguirá sair ilesa e, talvez, melhor deste processo. Há um inegável fato de que o modelo de crescimento que tem como um de seus pilares fundamentais a construção civil apresenta um esgotamento, tanto pela demanda quando pelos efeitos deletérios da privatização, concentrados sobretudo na especulação imobiliária[2]. Logo, um rebalanceamento setorial passa a ser fundamental, ainda mais neste período de transição econômica, no qual a China busca, atualmente, obter crescimento, majoritariamente, pelo seu mercado interno. Da mesma forma, surge como inegociável a retomada de um setor imobiliário público que afaste pressões especulativas.

Para tanto, o sistema financeiro estatal e a destruição criativa dos legisladores chineses jogam a seu favor. Neste cenário, torna-se fundamental, por exemplo, uma redefinição dos métodos de financiamento das províncias, que possuem relevância econômica fundamental aos chineses e que possuem seu orçamento fortemente concentrado na renda advinda do setor imobiliário. Não à toa, o último plano quinquenal chinês já trouxe a atribuição tributária às empresas do setor, que passaram a pagar tributos relevantes à estas províncias. Ainda é pouco e novidades devem surgir em breve.

Quanto às medidas que estão sendo tomadas para a contenção da crise centrada na Evergrande, pode-se mencionar que existem proposições de curto e longo prazo. Está sendo esperado, inclusive pelo mercado ocidental, que as autoridades chinesas atuem fortemente na contenção desta crise. Em um primeiro momento, garantindo o pagamento das dívidas imediatas da empresa, com prazo de vencimento para 2021.

Todavia, o que está no radar é algo de maiores proporções: o governo chinês almeja a estatização completa da empresa. Este plano, ainda não explicitamente divulgado, buscará repartir a empresa em outras três, contando com o apoio das demais empresas estatais para, além de garantir o pagamento das dívidas e manter os empregos, dar uma nova configuração ao setor imobiliário chinês, sobretudo controlando a especulação financeira[3]. Em outras palavras, a China utilizará esta oportunidade para radicalizar o seu programa de prosperidade comum, internalizando as contradições no seio do seu Partido Comunista.

Nestes termos, o que se prevê é que esta crise, embora possua valores vultuosos e imbricações financeiras relevantes, não terá as mesmas proporções das crises de 1929 e 2008. Para tanto, embora parte das dívidas da Evergrande seja creditada, de fato, à investidores estrangeiros, o grosso destas está, sim, em moeda chinesa. E isto é especialmente decisivo para entendermos o futuro desta crise. Como o sistema financeiro chinês é estatal, e o país possui a conta de capitais fechada, o risco sistêmico desta crise é residual, e tende a estar limitado a variações momentâneas no índice de ações pelo mundo, sem maiores complicações futuras.

Para nós, brasileiros, porém, as atenções devem ser redobradas. Neste texto trago uma ousada, mas possível tese: esta crise produzirá mais efeitos negativos ao Brasil do que à China.

A China é a principal parceira econômica do Brasil. Dentro deste fluxo comercial, parte considerável das vendas está concentrada na negociação do minério de ferro, insumo fundamental do setor da construção civil. Ou seja, esta crise e futura modificação da importância do setor, na China, representa, ao Brasil, uma perigosa queda comercial no setor das comodities. Parte disso se refletiu, na última semana, com a abrupta queda das ações da Vale (VALE3), que não possuíram força de mercado mesmo após a divulgação do pagamento de vultuosa quantidade de dividendos.

Nestes termos, torna-se cada vez mais claro que a reprimarização da economia brasileira[4] representa o mais arriscado percurso de sustentabilidade de um país desenvolvido, soberano e estável. Por outro lado, torna-se cada vez mais equivocada qualquer posição que aposte contra as medidas adotadas pelo Partido Comunista Chinês, no desenvolvimento do socialismo com características chinesas e as superações de suas contradições.


[1] Pequim aperta os parafusos no setor imobiliário da China. Disponível em: https://www.ft.com/content/4c866dc3-e3c4-41f8-99a8-d256e7923bd1

[2] Evergrande e o fim do modelo chinês de “construir, construir e construir”. Disponível em: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/09/24/evergrande-poe-fim-ao-modelo-chines-de-construir-e-construir.ghtml

[3] Imminent China Evergrande deal will see CCP take control. Disponível em: https://asiamarkets.com/imminent-china-evergrande-deal-will-see-ccp-take-control/

[4] Reprimarização no Território Brasileiro. Disponível em: https://journals.openedition.org/espacoeconomia/15957

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