Brasil
Brasil, você tirou tudo de todos, agora o povo não tem nada
Brasil, você me ama, ou apenas finge?
Eu que já me canso de escrever para você e sobre você todo o tempo
Você que está sempre na minha mente, sempre nos noticiários
Brasil, você já entendeu quem manda no seu jogo? Ou quer que eu desenhe?
Brasil, por que seus museus não param de pegar fogo?
Brasil que matou Cláudio Manuel da Costa e se matou e mandou embora os outros poetas,
e de Portugal se fez sozinho.
Brasil que insiste em negar o passado, em reinventar o passado e continuar o descaso.
Que assassinou Zumbi, que mantém negros e indígenas acorrentados,
Que em 1850 negou o acesso à terra,
Que se entregou à Inglaterra
Brasil Colônia, Brasil Império, Brasil República.
Quando que você muda? Quando você fica igual?
Você que era tão lindo quando eu era moço,
Você que era herói: D. Pedro e Deodoro,
que era Getúlio e JK, na minha cabeça infantil.
Você que era tão imponente, com seu hino cantando semanalmente na escola,
Continua a pátria mãe gentil?
É verdade, não nego que nunca quis servir o Exército, mas e daí?
Quem fez mais o dever cívico? Eu ou você?
Já te traí várias vezes, aos seus olhos sou um detrator (porém, nunca rasguei a Constituição)
Brasil que insiste em se dizer aberto e inclusivo,
receptivo, caloroso e festivo,
que recebeu os ancestrais: portugueses, italianos, espanhóis, alemães…
Mas que humilha diariamente os haitianos, bolivianos e venezuelanos.
Brasil, sem você eu desapareço, e sem mim você nem liga, só mais um peão nesse jogo.
Brasil, eu detesto sua ideia de mídia, a invenção do Cidadão Chateaubriand!
Brasil, eu adoro sua mídia golpista, o nosso último refúgio contra a realidade fantasiosa das
[fake news
Brasil, estou obcecado na sua vida política, nas suas articulações e maneirismos
Você não sabe quanto eu daria para estar no seu lugar hoje, para tirar do poder quem te
[governa
Brasil, ainda assim eu te desprezo e eu te amo, e eu não sei o que você pensa de mim.
Brasil, você prendeu Caetano Veloso e Gilberto Gil, por ofensa aos “bons costumes”,
Brasil, você não pediu desculpas pelo que você fez antes de 1979.
Você tem muitos cadáveres desenterrados (e muito “passado pela frente”).
Brasil, você odeia tanto o “comunismo”, que nem sequer existiu! Quando eles vão te pegar?
Desde 1937 tratando dessa psicose, paranoia, delírio absurdo.
Você nunca quis se tratar. Você não se importa com saúde mental,
você não se importa com saúde, at all.
A pandemia já entrou na sua história. A pandemia é parte da minha história.
Brasil, a pandemia é seu Vietnã, seu Afeganistão, sua tumba, mas você não está morto!
Brasil, não esqueça de ameaçar a China e pedir desculpas depois.
Cuidado com o 5G e os chips instalados por causa da vacina.
Brasil, você é mais “Venezuela” do que jamais imaginou.
Brasil, você tem muitos recursos naturais: ferro em solo contaminado, petróleo leiloado,
[Amazônia em chamas e rios poluídos
Eu tenho muitos recursos naturais: um caderno, uma caneta, algumas ideias e loucuras.
Brasil, você já alimentou o mundo todo? Com sua cana, café e soja?
Brasil que acha que o “agro é pop”, que o agro é o sustentáculo do país.
Brasil, você é que tem “vocação agrícola”, não é mesmo?
Escrito de outra forma, é vocação para o subdesenvolvimento e concentração de renda.
Você é uma república que odeia a democracia e adora populismo.
Você já agradeceu ao papai Estados Unidos essa noite? E à mamãe Inglaterra?
Brasil, eu continuo te fazendo perguntas sérias, só que você nunca me levou a sério.
Você nunca se levou a sério! Você nunca se importou em ser sério…
Agora estão todos sérios. Eu te levaria a sério, se eu pudesse.
Glauber Rocha e Kleber Mendonça te levaram a sério, te levaram para Cannes.
Contudo, você não gosta deles, você não liga para a cultura, você é que deixou a Cinemateca
[arder!
Eu tento descobrir do que você gosta, se é de Iê-Iê-Iê, de poesia, de artes plásticas ou de nada.
Brasil, você despreza a educação, especialmente dos mais pobres.
“Que horror, um pobre na mesma universidade do meu filho?”
Brasil, você é a cara da sua elite careta.
E como se você não se cansasse de ser assim, você continua, não é?
E não se cansa de continuar destruindo as minorias.
Brasil, você não sabe o que é dívida. Muito menos dívida histórica.
Brasil, você consegue dormir de noite, sabendo que seu país está com fome?
Você consegue tolerar o intolerável, os mandos e desmandos do seu governo corrupto?
Me diga se você tem coragem de olhar na minha cara e dizer “eu errei”?
Brasil, você já errou muito, e eu errei muito e eu errei com você,
mas você nunca foi tão errado quanto agora!
Brasil, olha o estrago que você fez!
Os seus fantasmas continuam te assombrando, e sua cova é rasa.
Brasil, nem Ginsberg, nem Dylan escreveram sobre você, eu o fiz
Brasil que me deu Grande Sertão: Veredas, mas que nunca se viu no espelho da literatura.
Brasil, já fizeram seu diagnóstico, mas você parece continuar querendo ficar doente.
Eu tento me controlar, e às vezes canso de ser tão insistente.
Brasil, eu continuaria escrevendo, se eu pudesse,
Brasil eu te amaria e te celebraria, se eu pudesse
Por hora, lembro-me apenas das “Marias e Clarices”, que choram, choram e choram…
Brasil, 07/09/2021

