As coisas de verdade

No escritório, mais cedo, pedimos que a nova estagiária saísse um pouco da sala de reunião e fosse pegar um café, para falarmos de um caso difícil de ouvir. Pensei “coitada de Clarinha… e que sorte de Clarinha”. Quando bate o cansaço, às vezes acho que gostaria de ser poupada também de algumas coisas. Bobagem! porque gosto mesmo é de ter tudo nas minhas mãos, apesar do peso das coisas de verdade.

Para ter tudo, Clarinha, é preciso que não queiram te proteger do mundo. O segredo é não reagir muito, não sair do lugar quando a onda bate forte no peito, não piscar quando o sal da espuma entra nos olhos – e assim te darão tudo: passado e futuro, segredos e mentiras, confissões e súplicas no seu colo. Teremos eles, suas histórias, e o apreço que ganharemos apenas por ouvi-las. Aguentar tudo é, coitada, um processo de enrijecer.

A luz da sala de reunião era artificial e branca como a de um hospital ou de um shopping, para que não se percebesse o tempo passando. Na sua ausência discutimos, planejamos, ponderamos sobre as coisas de verdade (que não te convinham). Após a discussão, o prazo final do relatório ficou marcado para depois de amanhã:

– Qual é? Não me olhem assim! todo mundo tem problemas, e esse é o nosso a partir de agora.

– Se todo mundo tivesse problemas, Paulo, eu não teria tantos…

Todos riram pois era verdade. Apesar disso, ninguém ali escolheria outra coisa que não os problemas.

Mas sorte a sua, Clarinha; porque, se ao menos a minha voz tremesse, ou se meu rosto franzisse… se pelo menos eu não soubesse o que dizer, também me poupariam. Ainda que existisse em meu corpo algo disposto a me salvar – algo que involuntariamente pedisse socorro –, com quem mais contariam, se não comigo? Não, não! E hoje me pergunto se para ter algum valor é preciso aguentar tudo. Se para viver o mundo de forma completa é preciso estar nele como uma rocha rasgando o mar.

Mais tarde, você voltou para o escritório com o café já frio, porque fechamos a porta. Abriu, singela, e viu as nossas faces tensas e exaustas… – quer mesmo saber? Clarinha, eu sequer me preocupo em me proteger. Estou me munindo com tudo aquilo que, exposta, me revelam. Quer mesmo saber? Nunca mais amará da mesma maneira quando souber, nunca mais será amada da mesma forma depois que descobrirem que você pode aguentar tudo. Quer mesmo? Falar das coisas de verdade?

– Clara? Feche a porta, por favor.

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