Do fundo do poço à luz no final do túnel: como a política brasileira vai ter que se reinventar no pós pandemia?
A pandemia de Covid-19 virou o Brasil de cabeça para baixo. Com quase trezentas mil mortes, seria possível dizer que o país virou um triplo carpado rumo ao desastre. Sem sombra de dúvidas, a razão disso se conecta diretamente com a gestão de crise desastrosa realizada pelo presidente Bolsonaro e seus asseclas. Se chegamos ao fundo do poço por causa da política, é impossível imaginar uma luz no final do túnel que não passe por ela.
A política brasileira precisa se reinventar caso queira oferecer respostas sólidas aos problemas gerados pelo coronavírus. As reformas necessárias para destravar nossa baixa produtividade - tributária, administrativa, reforma do pacto administrativo, etc. - e promover o desenvolvimento econômico precisam ser aprovadas e a seguridade social precisa ser reforçada. No entanto, para que isso aconteça, é necessária a criação de um grande consenso nacional - mas a construção desse Pacto de Moncloa tupiniquim não será fácil.
A polarização que se instalou no Brasil nos últimos anos torna a montagem desse projeto nacional uma tarefa cheia de meandros e arestas a serem aparadas. Uma crise política que começou com as Jornadas de Junho de 2013, a desmoralização das forças políticas tradicionais pelas mãos da Operação Lava Jato e a eleição de “novos nomes” sem habilidade de negociar fizeram do Brasil um país semi-ingovernável.
No entanto, sou otimista. Acredito que as forças políticas hão de se agrupar nos próximos anos no sentido de formar uma massa unificada contra o retrocesso, em defesa da democracia e a favor de uma ideia melhor de país. Nos últimos anos a experiência internacional mostrou que, frente ao avanço dos autoritários, as diferenças devem ser colocadas em stand by até que a vitória seja alcançada.
Dois exemplos recentes confirmam essa tese: o primeiro, as eleições francesas de 2017, onde o centrista Emmanuel Macron foi apoiado por um amplo espectro de forças de esquerda contra a ultradireitista Marine Le Pen. O segundo, mais comentado e recente, a união de forças socialistas, liberais e até mesmo conservadoras para levar Joe Biden à presidência dos Estados Unidos, contra o desastroso Donald Trump.
Em momentos de enfrentar o retrocesso ou promover o avanço, o Brasil também já mostrou ser capaz de criar grandes alianças nacionais. Isso ocorreu na campanha pelas Diretas Já e no movimento nacional que impulsionou a vitória do mineiro Tancredo de Almeida Neves no Colégio eleitoral. Também ocorreu a favor da Constituição Cidadã de 1988, conduzida de forma democrática pelo saudoso Dr. Ulysses Guimarães. Creio que o último grande movimento unificador do país foi contra o presidente Collor, através do apoio nacional ao seu impeachment.
A política pós pandêmica precisará de líderes com capacidade de diálogo e moderação. A polarização que vimos na década de 2010 precisa ser esquecida se quisermos ter a chance de superar o enorme baque que a COVID-19 representou para o país. Nossos políticos precisarão ter a capacidade de ouvir: sindicatos, empresários, artistas, intelectuais, movimentos sociais, enfim, toda a sociedade civil organizada. O discurso do “nós contra eles”, que imperou no debate público nacional nas últimas décadas, deverá ser enterrado.
Em todos os casos mencionados neste texto, existe uma constante: há uma liderança que torna o movimento possível, um nome que agrade a maior parte - ou desagrade a menor parte - do eleitorado. Nas eleições francesas, foi Macron. Nas americanas, o picolé-de-chuchu Joe Biden. Na redemocratização do Brasil, foram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. No Brasil de hoje, ainda falta uma liderança capaz de unir o país. Quem se habilita?
* A Gazeta Arcadas é igual à Sanfran: plural e democrática. Eis como a nossa chargista interpretou o texto acima.

