A televisão brasileira completa 70 anos em 2020. No dia 1º de Junho, Assis Chateaubriand realizou a primeira transmissão da TV Tupi. Sete décadas depois, o que a origem desta mídia ainda pode nos ensinar, e como ela continua transformando nossa cultura?

Logomarca da TV Tupi, utilizada entre 1950 e 1972.
Fonte: https://observatoriodatv.uol.com.br/noticias/ha-67-anos-a-tv-brasileira-nascia-com-a-estreia
A chegada da TV foi a culminância de um processo de desenvolvimento tecnológico, que remete à lógica de modernização característica do período da Segunda Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX. Isso é bastante associado aos princípios que regem o capitalismo industrial: o lucro, a padronização, o controle e a eficiência.
Nesse processo, deu-se um grande desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, ambos bastante impulsionados pelo domínio da eletricidade. A começar pela ferrovia, e logo após pelos navios e pelos automóveis, os meios de transporte catapultaram o alcance dos correios, possibilitando a troca de informações a longas distâncias, que foi aprofundada pela criação do telégrafo, da telefonia e do rádio.
Ao redor dessas invenções, ocorre um processo de domesticação da tecnologia, que cristaliza as conquistas da revolução industrial em objetos de fruição privada: os eletrodomésticos, categoria à qual alguns desses meios de comunicação são convertidos, com destaque para o rádio, cuja Era de Ouro nos anos 1930 fincou suas bases na cultura do entretenimento. Visando o lucro, a indústria cultural adiou o surgimento da televisão e, mesmo que sua tecnologia já estivesse disponível nessa época, ela só foi efetivamente estabelecida no mercado após a Segunda Guerra Mundial, atingindo forte disseminação mundial na década de 1950.
No Brasil, a transmissão inaugural feita em 1º de Junho de 1950 foi de finalidade experimental, e ficou restrita a apenas alguns aparelhos que mostravam imagens do saguão do prédio dos Diários Associados, em São Paulo, que pertencia a Chateaubriand. Ele mesmo, o Chatô, que ficou conhecido como um dos mais bem-sucedidos empresários da comunicação no Brasil, foi quem reuniu os recursos tecnológicos necessários para estabelecer a TV Tupi de São Paulo, PRF-3, em 18 de Setembro daquele mesmo ano - cujo sinal só podia ser recebido por 200 aparelhos, em posse da elite econômica paulista, e chegados ao território brasileiro por meio de contrabando. É assim mesmo.

Assis Chateaubriand durante a inaguração da TV Tupi (Setembro — 1950) l Fonte: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/em-1980-governo-nao-renovou-concessoes-da-rede-tupi-e-emissora-saiu-do-ar-30594
De qualquer maneira, o pioneirismo e a inventividade da TV Tupi esteviveram presentes em diversos elementos da sua história. A começar pelo “índio com antenas” de seu logotipo (uma síntese do “originalmente brasileiro” potencializado pela tecnologia), a emissora foi responsável por apresentar ao público brasileiro clássicos como o Repórter Esso (“testemunha ocular da história”), o Rancho Alegre de Mazzaropi, a teledramaturgia do Grande Teatro Tupi, além de ter sido a escola de grandes diretores e atores como Lima Duarte, Laura Cardoso e Antônio Abujamra, entre tantos outros.
A inauguração de Brasília, em 1960, foi transmitida ao vivo pela TV Tupi - marcando seu reinado absoluto no mercado durante a primeira década. Os anos 60, diferentemente, seriam caracterizados pela intensa concorrência da TV Excelsior e da Rede Manchete - o que serviu de mola propulsora para uma série de inovações estéticas na televisão nacional.
Um destes exemplos é Beto Rockefeller, de 1968, que foi a primeira telenovela brasileira a apresentar uma temática cotidiana, trazendo como cenário o dia-a-dia de uma metrópole nacional (São Paulo), com personagens que pertenciam à classe média e de caráter mais esférico (fora da simples chave protagonista bom/antagonista mau), além de empregar a linguagem coloquial em seus diálogos e a utilizar música popular em sua trilha sonora.
Antes de sua exibição, o cenário da telenovela brasileira era marcado por grandes narrativas melodramáticas capitaneadas pelos trabalhos da roteirista Glória Magadan (tendo como exemplo “O Sheik de Agadir”, de 1967), que importavam o modelo latino da novela épica ou do drama doméstico, filmado em cenários fixos, frequentemente em estúdios, com personagens mais planos (alinhados a padrões de comportamento) e trilhas sonoras compostas principalmente por música de orquestra. Depois de Beto Rockfeller, que pode ser considerada uma versão modernizada do melodrama, a telenovela brasileira adquiriu um caráter um pouco mais naturalista, buscando temáticas mais próximas da realidade que da fantasia, apresentando cenários urbanos, personagens que visavam a identificação com o público, e trilhas sonoras que passaram a ser parte do evento cultural da telenovela, compostas principalmente por sucessos populares nacionais e internacionais.
Muito além da TV Tupi, não há como pensar no desenvolvimento da TV no Brasil sem falar na Rede Globo. Seu estabelecimento, em si, é uma história cheia de contradições, e a constituição da emissora ao longo dos anos é um tema que gera bastante controvérsia e opiniões muito divergentes até hoje - que vão desde críticas ferrenhas a seu caráter sociopolítico (um projeto governamental de unificação do Brasil dentro do contexto socioeconômico da Ditadura Militar), até elogios exacerbados à qualidade de sua programação. Ainda que isto não caiba nas dimensões deste artigo, a importância de estudar a Globo para compreender a economia criativa do Brasil é inegável.
Assim como o advento da TV foi o resultado de um processo de desenvolvimento tecnológico e cultural, seu desenvolvimento encontra-se atualmente marcado pela convergência. Deve-se entendê-la como um processo complexo, no qual as grandes empresas estão buscando novas formas de administrar sua audiência através da Internet, uma vez que essa nova articulação exige mais do que as estratégias clássicas de produção de conteúdo, ao mesmo tempo que os usuários das novas mídias aprendem formas de utilizá-las para seu empoderamento tecnológico e cognitivo.
É curioso que, nesta terceira década do século XXI, os discursos críticos que antes denunciavam a televisão como um “instrumento de manipulação das massas” parecem estar se concentrando nos problemas sociais característicos de outras mídias (fake news, desinformação, privacidade, etc.). Algo compreensível, nestes tempos em que governos autoritários veem a TV como inimiga, e não como aliada. Longe dos holofotes, a televisão tenta se reinventar, em termos de formatos, e ainda exerce uma influência relevante enquanto dispositivo organizador do lazer e do consumo - e é preciso prestar atenção nela.
Enfim, assim como o cinema se consolidou a mídia majoritariamente aceita como a grande matriz narrativa do século XX, e a televisão se impôs como uma força de impacto cotidiano. Ela amadureceu e criou muitos formatos sólidos de jornalismo e entretenimento - no Brasil, se tornou um agente determinante do ecossistema político. Seu legado é visto num imenso repertório de convenções e gêneros que se espalhou por todos os meios. E a História da TV ensina que a comunicação gratuita é muito poderosa - mas, para que seja democrática, ela não deve formar somente consumidores, mas principalmente cidadãos.
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Bibliografia
BURKE, Peter; BRIGGS, ASA. História Social da Mídia. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
GEORGINO, Érica. Rede Tupi: Nasce a TV Brasileira. Aventuras na História, São Paulo, 19 de Setembro de 2018.
JENKINS, Henry. A Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2016.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart; SACRAMENTO, Igor. A Renovação Estética da TV In.: História da Televisão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

