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Continuando a série “Live…ando Roupa”, neste episódio Marleide aborda as invisibilidades que permeiam muitos de nós no dia-a-dia e que são, por muitas vezes, ignoradas. No relato de hoje temos dois personagens principais: Marleide e seu vestido, há alguns anos atrás.

Nessa época, Marleide ainda trabalhava junto à Prefeitura do Município de São Paulo, no serviço de acolhimento social. Os serviços sociais no município são ligados a três órgãos: Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), Supervisões de Assistência Social (SAS) e Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).

Ao final de cada ano, são realizadas festividades nos referidos órgãos, para comemorar as ações concretizadas ao longo do período. Em uma dessas festividades, Marleide iria fazer um discurso, no Centro Educacional Unificado de Guarapiranga (CEU Guarapiranga). Utilizando a expressão popularizada por Mano Brown, Marleide estaria “da ponte pra cá”, pois aquele CEU está muito ligado à cultura da periferia, não só pela sua localização, mas também pelas atividades ali desenvolvidas.

Quando o dia do evento chegou, Marleide escolheu um belo vestido e se dirigiu ao local, utilizando uma “viatura” da secretaria em que trabalhava. Durante o percurso, ficava pensando no que ia falar, mas já começava a se sentir desconfortável, sem saber o motivo. Ao chegar ao local, sentou-se próxima ao palco… e seu desconforto continuava. Ela percebeu que a iluminação do palco era fundamental para a visão do discurso, por causa da disposição do palco.

Ao chegar sua vez de falar, subiu ao palco, mas a luzes do palco se apagaram e não voltavam. Após um certo momento de hesitação, Marleide começou a discursar com as luzes apagadas, percebendo que estava invisível, tanto ela como seu vestido. Após terminar seu discurso, finalmente percebeu o motivo de seu desconforto: na realidade, Marleide estava “da ponte pra lá”.

Apesar de estar em um local “da ponte pra cá”, ocupava um espaço que ainda não é familiar para minorias, tanto para negros como para mulheres. Desde o percurso na viatura, até ser o centro das atenções no palco, estava em um ambiente hostil, que drenava sua essência. Isso se reflete até na escolha de seu vestido.

O vestido escolhido era de uma coleção inspirada no livro “O Grande Gatsby”, que também trata de certas mazelas da sociedade norte-americana. Mas Marleide se questiona o porquê de não ter escolhido um vestido de uma estilista negra, por exemplo. Novamente, percebe que estava num espaço hostil, que drenava sua essência.

Marleide termina a história de hoje com uma frase de Chico César: “Deve ser legal ser negão no Senegal”. Essa frase, segundo Marleide, é muito significativa, pois se ela consegue ser nordestina no Nordeste, também conseguiria ser negra na África. Mas não é suficiente, a luta contra invisibilidades diárias vai muito além disso, pois o grande desafio é ser Nordestino no Sudeste ou no Sul, e negro fora da África.

Em diversos ambientes, por mais que teoricamente ela esteja “Da ponte pra cá”, na realidade está “Da ponte pra lá”.

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