O Abacateiro resistia fortemente aos ventos frios, carregados da chuva fina vinda do sul. As folhas do Abacateiro sacolejavam e se encontravam, chocando-se uma com a outra; se fossem sinos ressoariam sons melodiosos, que ornariam com o som das gotas caindo sobre a terra. Era uma chuva de verão, que molhava as flores do Abacateiro em meados de dezembro, para que se colhesse o fruto – já seco – em fevereiro.
O abacateiro era muito querido de seu dono. Ele o plantara há 27 anos, na época era só uma criança recém mudada da mãe, já o plantador contava 63 anos. O plantador não esperava ver a árvore dar frutos por mais duas décadas – ou melhor, quase três –, em verdade, achava que já estaria morto há tempo.
Hoje, no dia da chuva, somava 90 anos. O Abacateiro – como não sabia contar – não tinha noção da idade numérica de seu plantador e cuidador, mas sabia ver sinais. A vida do velho estava se exaurindo. Já não colhia seus frutos com tanto vigor como antes. Já não arava a terra ao seu redor, deseja poder fazê-lo, mas não conseguia. Quantas vezes o Abacateiro vira o velho pedir aos netos ou aos filhos que fizessem trabalhos que outrora faria com tanto gosto.
O Abacateiro via sinais da velhice carcomer o corpo que lhe dera tanto cuidado e tantos anos de vida. A árvore – não em um sinal de egoísmo, mas pura autopreservação – temia que o fim da vida do velho correspondesse ao fim dos cuidados que necessitava. O pior de tudo era que não iria morrer junto com o velho; certamente resistiria alguns anos, porém, se fosse mal cuidado, seriam anos sombrios.
Na manhã seguinte, uma daquelas em que o sol parece estar com sono e luta para sair da cama, fazendo com que a luz da manhã brilhe opacamente por entre os travesseiros solares – que nós, humanos, chamamos nuvens –, o Abacateiro via pela janela o seu plantador tomar um café frugal. Um copo americano meio cheio de café e duas rosquinhas caseiras, que o homem fizera na noite anterior, iriam se aconchegar no ácido do sistema digestório do velho. A árvore, por óbvio, não tinha noção de sistema digestório ou coisas afins, mas achava engraçado aquele buraco no meio da fronte dos humanos. Achava o buraco mágico, já ingeria matérias que, provavelmente, davam energia a eles e, ao mesmo tempo, era capaz de produzir sons agradáveis.
O Abacateiro sabia que os humanos chamavam os sons de “voz” e cada pedaço desse som se chamava “palavra”. O velho era doce com a palavra. Na época em o plantara, já proferia sons melodiosos para agradar ao jovem Abacateiro. Entretanto, naquele tempo, a árvore era nova demais para compreender o dialeto humano, nada que não fosse resolvido com o passar dos anos convivendo com os sons doces que saia da boca – era assim que os humanos chamavam o buraco – do velho.
Terminado o café, o velho foi ver o Abacateiro, disse algumas palavras carinhosas contadas, que saiam com uma dificuldade quase teatral de sua boca. Como se lhe restasse apenas um pouco da energia vital e cada palavra a diminuía ainda mais. O Abacateiro percebeu a fraqueza na voz. Lembrou do tempo em que sons que saiam velho ressoavam fortes como trovões, mas sem perder a sutileza chuva fina. Hoje, os sons pareciam mais com um sopro que, no máximo, viraria uma página de um livro do que com um trovão.
Naquele dia, o velho estava sozinho. Em verdade, passava a maioria dos dias assim, sem ninguém. Entretanto, no glorioso passado, o velho era acompanhado de sua companheira; passavam os dias corriqueiramente, em alguns discutiam, em outros se amavam, e em outros discutiam e se amavam. Contudo, a morte a alcançou primeiro e lançou sobre o velho a maldição da solidão – a mesma com que a Abacateiro temia sofrer se o velho se fosse… quando o velho se fosse. Aos domingos, os filhos vinham o visitar, mas visitas são como páginas de um livro, se é bom terminam em um piscar de olhos, mas se for chato, duram uma eternidade. Independentemente de achar o livro bom ou ruim, o velho, invariavelmente, retornaria à pavorosa solidão.
Sozinho, o velho passava o tempo com o Abacateiro. Lia embaixo de sua sombra. Por vezes, almoçava por lá mesmo. Cochilava ali, aconchegado em uma cadeira escorada em seu tronco. Assim, monotonamente, os dias passavam.
Mas naquele dia, por desejo de mudar, o velho quis arrastar a cadeira para mais longe do tronco. O Abacateiro percebeu a tragédia antecipadamente, sabia que os braços trêmulos pela idade não conseguiriam fazer a tarefa, porém, não imaginou que disso derivaria um acidente.
O velho nem chegou a tentar arrastar a cadeira para provar ao Abacateiro que conseguiria. Foi mais infeliz. Tropeçou em pequeno galho que a árvore deixara cair na noite anterior. Caiu de bunda na terra, ainda um pouco úmida pela chuva do dia anterior. O Abacateiro ouvia sons de dor, que o velho não costumava emitir. Sons nada dóceis, como os comuns. O Abacateiro preocupou-se, mas não podia fazer nada, nem mesmo emitir sons para acalmar o seu plantador.
Aquele dia era sábado, no dia seguinte os filhos chegariam para a visita, porém, para a árvore, não havia diferença entre uma segunda e uma sexta ou qualquer outro dia da semana; só percebia a diferença quando de fato acontecia. O sofrimento foi grande, para o velho, que gritava de dor, e para o Abacateiro, que era incapaz de fazer algo e não sabia quando os filhos chegariam para ajudar.
O velho passou o resto do dia e da noite ali. Por alguns momentos cansava-se de gritar e limitava-se a chorar. Por outros, chegou a cochilar, mas o sono era interrompido por pontadas de dor. O Abacateiro, ao contrário, não dormiria, não gritaria, não choraria, era limitado a assistir aquela desgraça passivamente. Para o velho e para o Abacateiro o dia demorou passar, mas o pior foi a noite, pois a chuva fina e o vento gelado cortavam ainda mais as forças do plantador.
Finalmente, o domingo chegou, o Abacateiro viu os filhos chegarem desesperados e aflitos. Eles perguntavam ao homem o que tinha acontecido, mas, apesar de estar acordado, o velho parecia estar preso em um pensamento distante dentro da própria cabeça. Pegaram o velho e o colocaram no carro, o Abacateiro, desesperado, lembra-se apenas de ter ouvido palavras como “hospital”, “médico”, “bateu a cabeça” etc.
O velho nunca mais voltou para ver a árvore. O Abacateiro contorcia-se de preocupação. Temia não ter mais notícias do velho. Temia não ter mais alguém para cuidar dele. Temia que o velho tivesse morrido. Os dias do Abacateiro podiam se resumir a medo.
Certa manhã, um dos filhos chegou à chácara junto com um homem estranho. O Abacateiro ouviu atentamente cada palavra na esperança de poder dissipar o seu medo com alguma informação.
O Abacateiro ouvia palavras como “venda”, “motivo”, “preço bom” etc. Mas uma resposta ele conseguiu compreender por inteiro: “A chácara era do meu pai. Ele gostava muito daqui, não queria ir embora por nada, mas um dia, a gente veio visitar e ele tava caído. Desde então ele não foi mais o mesmo. Ele tá vivo, mas não fala mais, a gente nem sabe se ele reconhece alguém. Ninguém sabe o que aconteceu, mas ele tá muito mal, o médico diz que ele tem pouco tempo. Daí ele tá morando com minha irmã e nós decidimos vender a chácara pra dar um conforto melhor pra ele no fim”.
Ele nunca mais viu o velho, porém, em compensação passou a ver o homem estranho todos os dias. A árvore não gostava dele, não porque ele não cuidasse dela – o estranho a tratava tão bem quanto o velho –, mas porque não permita gostar de outro e correr o risco de vê-lo partir.
O Abacateiro viveu bem, sem amor, mas viveu bem. Sempre se lembrava do velho com saudade e carinho. Lembrava da voz de trovão e da voz de sopro. Quando tinha o velho ao seu lado, gostava mais do trovão, porém, hoje, sente saudade do sopro. Saudade do sopro, porque era muito mais difícil emitir um sopro quando velho do que um trovão quando novo. O Abacateiro, que passou a sentir os pesos dos anos pesar-lhe o tronco, compreendeu que era difícil fazer qualquer coisa que antes era habitual. Compreendeu que só se faria por esforço e por amor. Compreendeu que um sopro de um velho é uma prova de amor muito maior do que um trovão de um jovem.
