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Após um dos processos eleitorais mais polarizados da história, com a confirmação dos estados em disputa, Joe Biden se tornou o 46º Presidente dos Estados Unidos da América. Este resultado, no entanto, representa muito mais do que uma vitória dos Democratas sobre Republicanos: é uma vitória da democracia liberal contra o populismo autoritário. Pode soar clichê, mas a conquista de Biden representa o primeiro sinal de que os ventos que elegeram os populistas de direita podem estar soprando, lentamente, para outras direções.

O Brasil vive, no momento, uma espécie de trumpismo terceiromundista. Bolsonaro é um líder populista de direita, com tendências golpistas e que incorpora, atualmente, as características de caudilho latino-americano. Em 2022, ao que tudo indica, tentará reeleição com uma base considerável de apoio popular. Se quisermos ter alguma chance de vencer o bolsonarismo, será necessário copiar a manobra feita pelos Democratas nos EUA: abrir mão das candidaturas radicais em nome de um presidenciável que promova a pacificação nacional.

Sei o que você deve estar pensando: uma candidatura anti-polarização, encampada por um candidato tradicional com forte apoio do mundo político, já foi testada em 2018 e falhou miseravelmente. Na última eleição presidencial, Geraldo Alckmin fez apenas 4% dos votos, o pior resultado da história do PSDB. Em uma eleição marcada pelo desejo de renovação, sua retórica moderada e nada outsider não conquistou os eleitores.

Ainda assim, até 2022, o sentimento que elegeu Bolsonaro deve mostrar sinais de desgaste. A saída do ministro Sérgio Moro do governo, juntamente com seu alinhamento ao “Centrão” e sua guinada a uma política econômica desenvolvimentista foi encarada como uma “traição” por boa parte da classe média urbana que levou o presidente ao Planalto em 2018.

A eleição de 2022 pode se tornar um grande plebiscito sobre o governo Bolsonaro. Da mesma forma que o Bolsonaro polarizou a eleição de 2018 sobre o PT, um centro moderado e pragmático pode fazer o mesmo sobre o bolsonarismo. É preciso identificar, portanto, quais nomes seriam os mais próximos de uma candidatura à la Joe Biden no Brasil. Ao meu ver, três características serão fundamentais para esse candidato.

Em primeiro lugar, o Biden brasileiro deve ser conhecido. Considerando que enfrentará um presidente em exercício, um outsider não teria tempo de consolidar sua imagem política perante os eleitores. Vale lembrar que Biden, antes de ser candidato a presidência, já tinha mais de quarenta anos de carreira política, como senador e como vice-presidente de Barack Obama.

Em segundo lugar, o candidato a Biden tupiniquim precisa ter uma rejeição baixa. Isso significa que, mais importante que ser querido, ele não pode ser odiado. Essa foi a lógica da escolha de Joe Biden em vez de Bernie Sanders. Embora o senador de Vermont seja muito mais carismático do que o ex-vice presidente, ele possuía uma alta rejeição entre as classes médias suburbanas, o que facilitaria a reeleição de Donald Trump. A escolha de um “picolé-de-chuchu”, portanto, faz todo sentido: um presidenciável que não desperte paixões é a melhor opção para unificar o país em torno de seu nome.

Por último, mas não menos importante, o Biden brasileiro precisa contar com uma ampla coalizão nacional. Para isso acontecer, é essencial que seja um candidato moderado. Se for de esquerda demais, a centro-direita não o apoiará, e vice-versa. E, sem uma aliança de “Frente Ampla” de partidos de centro-esquerda, centro e centro-direita, muito dificilmente o candidato chegaria ao segundo turno, pois os votos seriam pulverizados, favorecendo Bolsonaro.

Hoje, no meu entendimento, há apenas um candidato capaz de se cacifar como esse bastião do centro pragmático: o ex ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Por ter sido responsável pela gestão da pandemia no auge do destaque midiático sobre o tema, o eleitorado teve contato com a imagem do ministro, que mostrou força e capacidade de gestão aparecendo diariamente nos Jornais mais importantes do país. Além disso, a aprovação de Mandetta é altíssima (consequentemente, com baixa rejeição): ao ser demitido pelo presidente Bolsonaro, o Mandetta contava com a aprovação de 76% dos brasileiros. Por fim, é um candidato moderado. Conservador, de centro-direita e religioso, também é a favor do Sistema Público de Saúde e da legalização do aborto medicinal, pontos onde conseguiria manter um diálogo com a esquerda moderada.

As primárias dos Democratas duraram dois anos. Se quisermos construir uma candidatura de centro nos moldes da de Joe Biden, a hora é agora. E para derrubar o bolsonarismo, cada segundo conta.

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