Poucos artistas emergentes podem ter seus primeiros trabalhos qualificados como eventos que marcam um ano. No turbilhão de informações que vivemos há algumas décadas, é muito comum que alguns agentes criativos, na busca cada vez mais acirrada por atenção no espaço virtual, despendam esforços sobrehumanos em um grande volume de lançamentos. Mais comum ainda, infelizmente, é que se confunda quantidade com qualidade nesse processo. Para a alegria dos nossos ouvidos, esse não é o caso da banda brasileira de synthpop Bedhead Badhead, que acaba de lançar seu quarto fonograma: “The Sound of Pleasure (I Can’t Kill)”.
Desde 2018, o conjunto formado no distrito de Barão Geraldo, em Campinas (SP), vem trabalhando sua carreira através de singles precisamente calculados, lançados um por ano. Uma escolha incomum para uma banda nova, mas que permitiu ao grupo dar uma atenção muito maior a cada detalhe envolvido nestes lançamentos: das letras às artes da capa, dos timbres de sintetizador à estética por trás de cada canção. Desde o princípio, isso entrega ao ouvinte a experiência de conhecer curtas canções com uma imensa paisagem por detrás.
A começar por “Daydreams” (2018), a primeira da série, que poderia facilmente soar nos auto-falantes do carro do protagonista de “Drive”, filme de 2011 que pavimentou o caminho do synthpop no imaginário sonoro da última década. Ali já se notava que a banda teria os elementos necessários para romper a principal barreira da música independente: fazer música audível e interessante, inclusive para aqueles que não conhecem pessoalmente nenhum dos seus integrantes. Os algoritmos do Spotify também perceberam isso, e hoje a faixa conta com mais de 47 mil reproduções na plataforma.
Em seguida, “Pink” chegou ao público em 2019, já apresentando um Bedhead mais experiente, com uma química desenvolvida no palco, e testando fórmulas de canções mais pop e mais radiofônicas. Progressivamente, os vocais de Giovanna Bergamaschi vão se soltando das camadas de teclados e reverb que o encobriam, e saltando para a frente dos instrumentos. A letra tem sais românticos, como um bom poema de William Blake ou uma aquarela de William Turner, e é quase desenhada num inglês pouco usual, que a vocalista e o bandman Jay Whitaker dominam perfeitamente. Destaque também para a performance dos dois baixistas, Gabriel Silva (fixo do grupo) e Emanuel Souza, que eterniza seu cameo com o Badhead em momentos preciosos dessa faixa, que define a cor do som da banda.
Gestada no ano apocalíptico de 2020, “Sick Sad World” não poderia ter saído em um momento mais simbólico na história. Música mais calma e melancólica do grupo até então, ela lança sentidos introspectivos à obra da banda, e flutua reflexiva como um corpo na piscina de uma festa que acabou. Homenageando um slogan da animação Daria, pérola pessimista da MTV dos anos 1990, é uma canção cheia de micromomentos (o solo de guitarra ao final, a sintonização de rádio FM no começo, versos como “which country do you think you’re gonna save?”), perfeitamente rimados com os vídeos que Giovanna e o baterista Henrique Soldatti produzem para o canal que leva o nome da faixa.
Com isso, chegamos a “The Sound of Pleasure”, canção que levava o nome de palco de “I Can’t Kill”, e que alcança o público em 2021. Para um ano que começou difícil, mas busca um horizonte mais otimista, é uma trilha sonora bastante adequada. Faixa mais longa da banda até então, “Pleasure” é agitada e se aproxima da marca dos 6 minutos (visando, talvez, a reprodução em futuras pistas de dança, que isso voltar a fazer parte da vida). É um som cristalino, que alcança um nível de clareza ao qual quase nenhum bedroom producer seria capaz de chegar.
Na verdade, não deve nada às masterizações multimilionárias de sucessos como The Weeknd, Dua Lipa e outros astros neo-ointentistas. Isso cria condições perfeitas para que os vocais de Bergamaschi e o baixo de Silva, por exemplo, brilhem como nunca antes, protagonizando uma mixagem em que os sintetizadores de Whitaker e de Pablo de Morais já ocupam um espaço plasmático. Há muito de Red Hot Chilli Peppers, por menos óbvio que pareça, na cozinha e nas guitarras fuzzísticas que se esgueiram ao longo da música. E tem até um quarteto de cordas, que acrescenta um toque lírico de sofisticação ao final da canção.
A nsfw thread to the lost art of blank VHS tape covers, por @AustinTByrd. Fonte: https://twitter.com/AustinTByrd/status/1360454486863450115
Finalmente, deve-se dar um destaque ao poder de síntese da arte da capa. Como o Bedhead Badhead sempre foi muito atento à dimensão visual da sua obra, era de se esperar que algo interessante surgisse daí. Assinada por Eduardo Soldatti, designer por trás da identidade visual de canais como o Ciência Todo Dia, a capa do single presta uma homenagem (talvez sem querer) às poderosas capas de VHS em branco da década de 80-90. E isso não deixa de ser uma metáfora significativa para o momento da banda: uma nova fita, com cheiro de plástico quente, acaba de ser inserida no gravador, para que nela se inscrevam os sons e as imagens de uma nova história. E a primeira faixa está aí, chamada “The Sound of Pleasure (I Can’t Kill)”.
Fica aqui o meu apelo para que os organizadores de festivais de música deem a chance desse repertório minucioso, cultivado ano após ano, ganhar vida nos maiores palcos do Brasil. E os meus parabéns aos músicos, por nos darem motivo para sentir nostalgia no futuro. Vida longa ao Bedhead Badhead!
