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Como todos os dias, às 7 da manhã, Francisco abriu seus olhos. Envolvido por seus lençóis cor de creme, rodava sozinho em sua cama king size. Aquela que há muito tempo parecia pequena demais para acolher toda a sua família, nessa manhã, parecia ser infinita. Com medo de que o peso de seus frágeis dedos fossem capazes desfazer a leve depressão que se encontrava no lado direito do seu colchão, vagarosamente, passava a mão pelo espaço vazio na esperança de se agarrar as lembranças que tanto lhes eram caras. Num breve momento de fraqueza, fechou seus olhos novamente ao sentir uma pequena lágrima sair de seu olho esquerdo, atravessando suas largas bochechas e alojando-se na fronha do travesseiro.

Com dificuldade, tentava esticar seus braços ao máximo para assim pegar a bengala que havia caído da cabeceira de sua cama enquanto dormia. Ao levantar, olhava meticulosamente cada canto do quarto, era inevitável que se sentisse pequeno em meio às grandes paredes de cimento queimado. Infelizmente, sua mente e seu corpo não eram os mesmos, fato que as dores em suas articulações faziam questão de lembrá-lo constantemente. Em seguida, abriu a cortina verde musgo do quarto e, lentamente, dirigiu-se à varanda, onde pôde sentir o sol tímido iluminar sua pele pálida e enrugada, assim, por um instante, lembrava-se do mar e das férias que passava com sua família no Rio de Janeiro. Naquele momento, só conseguia repetir para si mesmo: “Saudade dos bons anos”.

A chuva da noite passada havia deixado um delicioso aroma de grama molhada, além de tornar ainda mais vividas as diversas cores do belo quintal que se encontrava em sua frente. Imerso no doce canto dos beija-flores, sentia-se em paz. Enquanto entregava-se a serenidade da natureza, teve seus pensamentos bruscamente interrompidos pelo cheiro intenso de lavanda que agora preenchia todo o ambiente e encontrava-se encravado em sua mente, involuntariamente, puxou o ar e suspirou com saudades: “Teodora”.

Teodora foi o grande amor de sua vida, juntos por 55 anos, ainda lembrava-se claramente de cada momento especial que passaram juntos, guardava com carinho em sua mente cada gargalhada, cada aventura e até as discussões homéricas sobre a maldita cortina verde musgo. Teodora tinha grades olhos de jabuticaba e cabelo cor de mel, chamava atenção pelo tom suave e pelo lenço de seda lilás que sempre amarrava em volta de sua cabeça. Para mais, ela era forte e persistente, características que Francisco muito invejava, por mais que não admitisse. Ela era apaixonada por flores, na verdade, antes de se conhecerem, ela era dona de uma pequena floricultura num bairro agitado da grande São Paulo. Assim, mesmo sendo um fracasso para negócios (o que explica o fechamento quase imediato de seu estabelecimento), carregava em si um sonho, o qual Francisco a ajudaria a realizar alguns anos depois.

Já faziam exatos 7 anos que Teodora havia falecido vítima de um câncer de mama. Lentamente, Francisco viu o amor de sua vida ser tomada por aquele maldito tumor, até que um dia, não sobrou mais nada. Dias, semanas, meses se passaram e lá estava ele, sempre ao seu lado. As longas sessões de quimioterapia, o frio quarto do hospital e o barulho alto e irritante do monitor já faziam parte de sua nova realidade, antes colorida com as mais belas flores da estação. Como parte de uma promessa que a tinha feito quando primeiro foi diagnosticada, todos os dias, Francisco colhia as mais belas flores de seu quintal e levavam-nas para Teodora, quem, com o maior sorriso no rosto, fazia os mais graciosos arranjos e distribuíam-nos pelo hospital. Em menos de 2 meses, aquele ambiente repleto de luto e dor, enchia-se de amor. As poucos, começava a se sentir em casa. Entre as diversas espécies de flores, era justamente a lavanda que ela havia escolhido para ficar do lado de sua cama.

Até hoje, tudo lhe lembrava Sophia, desde a grande estufa até a pequena mancha de vinho tinto no tapete da sala. Seu jardim, um dia pequeno, transformava-se em uma grande atração. Turistas de todos os cantos queriam conhecer seu belo quintal e a linda história de amor que o inspirara. Afinal, essa foi a forma encontrada por Francisco de trazer sua mulher de volta à vida e homenageá-la da forma que sempre sonhara.

Depois de um dia cansativo de trabalho, Francisco seguia sua rotina, escolhia seu melhor pijama, penteava seu ralo cabelo grisalho e passava seu perfume favorito. Queria estar impecável! Ao se acomodar em sua cama, levantava delicadamente o travesseiro do lado esquerdo e não se sentia mais sozinho e muito menos pequeno, pois atrás do objeto estava seu mais precioso pertence. Ali se escondia um pequeno bilhete que Teodora havia lhe dado em seus últimos dias, o qual lia e relia até que finalmente caísse no sono.

Sempre que fechar seus olhos, Estarei contigo.

Para sempre, Sua Teodora

Assim, como todos os dias, às 10 da noite, Francisco fechou seus olhos.

Envolvido por seus lençóis cor de creme, entregava-se mais uma vez aos braços de Morfeu na esperança de que, por pelo menos um segundo, pudesse encontrar de novo sua doce Teodora.

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