No dia 19 de agosto, o município de São Paulo foi palco de um fenômeno no mínimo intrigante, para não dizer assustador. O céu da capital paulista escureceu de uma hora para outra no meio da tarde, levando várias pessoas a acharem que um temporal estava por vir – o que não ocorreu. No entanto, um dia depois, foi noticiado pelos jornais que o fenômeno foi consequência de uma série de incêndios que vinham destruindo áreas da Amazônia, principalmente.


Fiquei boquiaberto com essas notícias e, no mesmo dia, ao usar minhas redes sociais, me deparei com uma matéria que, em seu título, dava a entender que o céu preto em São Paulo foi causado por queimadas na Amazônia incentivadas por Bolsonaro. Achei o título um pouco exagerado e com ar de sensacionalismo, pois, mesmo me opondo imensamente a esse governo, era difícil acreditar que todas aquelas queimadas guardavam relação com o que Bolsonaro pensa, pelo menos diretamente.
Ao contrário do que costuma fazer o atual presidente, fui pesquisar sobre o ocorrido para não ser alvo de possíveis fake news, e, não é que, por incrível que pareça, existia sim relação entre as falas de Bolsonaro e a escuridão na maior cidade do país?! De acordo com um jornal da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará, fazendeiros marcaram o dia dez de agosto para atear fogo em áreas de pasto e de floresta, que ficou conhecido como o “Dia do fogo”. A atitude seria uma maneira de chamar a atenção do governo que, segundo produtores entrevistados anonimamente, não estava dando o devido apoio à categoria.

O jornal local Folha do Progresso publicou os relatos e, de acordo com sua matéria, os produtores teriam afirmado: “Precisamos mostrar para o presidente que queremos trabalhar e único jeito é derrubando. E para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo”. Em outra matéria publicada pelo mesmo veículo, há a afirmação de que muitos produtores da região acreditam que “o presidente vai encontrar uma saída para aliviar a dor das multas” e “incentivar a produção nas terras produtivas da Amazônia”.
Como confirmação dessas ações, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou uma escalada de focos de queimadas na área, principalmente ao longo da BR-163. No município de Novo Progresso, onde o “Dia do fogo” teve início, o monitoramento do Programa de Queimadas registrou um aumento de 300% no índice de focos de incêndio, com 124 registros no sábado (10) e saltando para 203 no domingo (11). Altamira, outro município da região, registrou um número de 194 focos no sábado (um aumento de 743%) e 237 no domingo.

O curioso é que os fatos tiveram início poucos dias depois do presidente Jair Bolsonaro ter questionado os dados sobre o desmatamento do INPE, com a consequente exoneração do então diretor do instituto, Ricardo Galvão. Bolsonaro não compreende a importância do assunto, pois, na mesma época, após Alemanha e Noruega terem bloqueado suas contribuições para o Fundo da Amazônia (um fundo do qual a maior parte do dinheiro provém da Noruega e da Alemanha e é destinado à preservação da floresta), o presidente comentou “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, se referindo à chanceler alemã. O Fundo deixou de receber 133 milhões de reais apenas da Alemanha.
O que começou como uma crise interna cresceu e tomou proporções mundiais. Na semana passada houve protestos em defesa da Floresta Amazônica em várias cidades do mundo, como Belo Horizonte, São Paulo, Londres, Barcelona e Amsterdã. Os manifestantes carregavam em seus cartazes os dizeres #PrayForAmazonia e frases como “ Deixe a Amazônia em paz”. Em resposta a essa comoção mundial, o presidente brasileiro se pronunciou em um vídeo, no qual informou que seu governo se preocupa em combater a criminalidade, inclusive a ambiental. Além disso, tentou amenizar a situação alegando que “Estamos numa estação tradicionalmente quente”, e que os ventos e a seca influenciaram o aumento das queimadas. Porém, estamos em agosto, no inverno, estação tradicionalmente mais fria…

O fato é que estamos à beira de uma crise ambiental, não só na Amazônia, e as propostas e atitudes do atual governo pouco convencem a população brasileira e os outros países. O tom com que o presidente tem tratado o assunto e suas respostas às alegações dos líderes mundiais não colaboram em nada para amenizar a situação, servindo apenas para aquecer ainda mais o clima. O pavio da Amazônia está queimando. É preciso que o presidente e seus ministros entendam a gravidade do assunto, se abram ao diálogo e entendam que suas palavras influenciam seus eleitores, causando consequências gravíssimas para o país.
Fontes: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/24/politica/1566602482_083017.html
https://oglobo.globo.com/sociedade/mpf-investiga-promocao-do-dia-do-fogo-na-amazonia-23895877
http://www.folhadoprogresso.com.br/numero-de-focos-de-incendio-em-novo-progresso-marcou-dia-do-fogo/
http://www.folhadoprogresso.com.br/dia-do-fogo-produtores-planejam-data-para-queimada-na-regiao/
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/19/politica/1566248656_245830.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/15/politica/1565898219_277747.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/28/politica/1558997566_211503.html
https://noticias.r7.com/sao-paulo/ceu-encoberto-faz-dia-virar-noite-e-temperatura-cair-em-sao-paulo-19082019
