Horizontes obscuros

No dia 19 de agosto, o município de São Paulo foi palco de um fenômeno no mínimo intrigante, para não dizer assustador. O céu da capital paulista escureceu de uma hora para outra no meio da tarde, levando várias pessoas a acharem que um temporal estava por vir – o que não ocorreu. No entanto, um dia depois, foi noticiado pelos jornais que o fenômeno foi consequência de uma série de incêndios que vinham destruindo áreas da Amazônia, principalmente.

Foto: Edu Garcia/R7

Fiquei boquiaberto com essas notícias e, no mesmo dia, ao usar minhas redes sociais, me deparei com uma matéria que, em seu título, dava a entender que o céu preto em São Paulo foi causado por queimadas na Amazônia incentivadas por Bolsonaro. Achei o título um pouco exagerado e com ar de sensacionalismo, pois, mesmo me opondo imensamente a esse governo, era difícil acreditar que todas aquelas queimadas guardavam relação com o que Bolsonaro pensa, pelo menos diretamente.

Ao contrário do que costuma fazer o atual presidente, fui pesquisar sobre o ocorrido para não ser alvo de possíveis fake news, e, não é que, por incrível que pareça, existia sim relação entre as falas de Bolsonaro e a escuridão na maior cidade do país?! De acordo com um jornal da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará, fazendeiros marcaram o dia dez de agosto para atear fogo em áreas de pasto e de floresta, que ficou conhecido como o “Dia do fogo”. A atitude seria uma maneira de chamar a atenção do governo que, segundo produtores entrevistados anonimamente, não estava dando o devido apoio à categoria.

Reprodução: Daniel Beltra / Greenpeace

O jornal local Folha do Progresso publicou os relatos e, de acordo com sua matéria, os produtores teriam afirmado: “Precisamos mostrar para o presidente que queremos trabalhar e único jeito é derrubando. E para formar e limpar nossas pastagens, é com fogo”. Em outra matéria publicada pelo mesmo veículo, há a afirmação de que muitos produtores da região acreditam que “o presidente vai encontrar uma saída para aliviar a dor das multas” e “incentivar a produção nas terras produtivas da Amazônia”.

Como confirmação dessas ações, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou uma escalada de focos de queimadas na área, principalmente ao longo da BR-163. No município de Novo Progresso, onde o “Dia do fogo” teve início, o monitoramento do Programa de Queimadas registrou um aumento de 300% no índice de focos de incêndio, com 124 registros no sábado (10) e saltando para 203 no domingo (11). Altamira, outro município da região, registrou um número de 194 focos no sábado (um aumento de 743%) e 237 no domingo.

Foto: André Penner - AP

O curioso é que os fatos tiveram início poucos dias depois do presidente Jair Bolsonaro ter questionado os dados sobre o desmatamento do INPE, com a consequente exoneração do então diretor do instituto, Ricardo Galvão. Bolsonaro não compreende a importância do assunto, pois, na mesma época, após Alemanha e Noruega terem bloqueado suas contribuições para o Fundo da Amazônia (um fundo do qual a maior parte do dinheiro provém da Noruega e da Alemanha e é destinado à preservação da floresta), o presidente comentou “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, se referindo à chanceler alemã. O Fundo deixou de receber 133 milhões de reais apenas da Alemanha.

O que começou como uma crise interna cresceu e tomou proporções mundiais. Na semana passada houve protestos em defesa da Floresta Amazônica em várias cidades do mundo, como Belo Horizonte, São Paulo, Londres, Barcelona e Amsterdã. Os manifestantes carregavam em seus cartazes os dizeres #PrayForAmazonia e frases como “ Deixe a Amazônia em paz”. Em resposta a essa comoção mundial, o presidente brasileiro se pronunciou em um vídeo, no qual informou que seu governo se preocupa em combater a criminalidade, inclusive a ambiental. Além disso, tentou amenizar a situação alegando que “Estamos numa estação tradicionalmente quente”, e que os ventos e a seca influenciaram o aumento das queimadas. Porém, estamos em agosto, no inverno, estação tradicionalmente mais fria…

Foto retirada de https://www.pexels.com/pt-br/foto/278553/

O fato é que estamos à beira de uma crise ambiental, não só na Amazônia, e as propostas e atitudes do atual governo pouco convencem a população brasileira e os outros países. O tom com que o presidente tem tratado o assunto e suas respostas às alegações dos líderes mundiais não colaboram em nada para amenizar a situação, servindo apenas para aquecer ainda mais o clima. O pavio da Amazônia está queimando. É preciso que o presidente e seus ministros entendam a gravidade do assunto, se abram ao diálogo e entendam que suas palavras influenciam seus eleitores, causando consequências gravíssimas para o país.

Fontes: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/24/politica/1566602482_083017.html

https://oglobo.globo.com/sociedade/mpf-investiga-promocao-do-dia-do-fogo-na-amazonia-23895877

http://www.folhadoprogresso.com.br/numero-de-focos-de-incendio-em-novo-progresso-marcou-dia-do-fogo/

http://www.folhadoprogresso.com.br/dia-do-fogo-produtores-planejam-data-para-queimada-na-regiao/

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/19/politica/1566248656_245830.html

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/em-dia-do-fogo-sul-do-pa-registra-disparo-no-numero-de-queimadas.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/governo-alemao-rebate-bolsonaro-sobre-verba-para-a-amazonia.shtml

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/15/politica/1565898219_277747.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/28/politica/1558997566_211503.html

https://noticias.r7.com/sao-paulo/ceu-encoberto-faz-dia-virar-noite-e-temperatura-cair-em-sao-paulo-19082019

https://www.brasildefato.com.br/2019/08/24/via-campesina-queimar-a-amazonia-e-crime-contra-a-humanidade/

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