As questões do cotidiano dos jornalistas brasileiros que propiciam o desenvolvimento de doenças relacionadas à saúde mental, principalmente no trabalho durante a pandemia da Covid-19.
“Jornalista é um bicho ansioso por natureza. A nossa profissão é uma profissão muito estressante e muito difícil. Se a gente não se cuidar, a gente cai e, quando a gente cai, o tombo é feio”. Esse é o relato de Phelipe Siani, jornalista da CNN Brasil, a respeito da saúde mental dos jornalistas em entrevista coletiva aos alunos da Cásper Líbero.
Eles são conhecidos por serem profissionais inabaláveis e que não se deixam envolver pelo que estão noticiando, como aqueles que não choram na frente das câmeras. No entanto, jornalistas também são pessoas que, em especial, vivenciam cotidianos que propiciam o desenvolvimento de distúrbios relacionados à saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout.
Carolina Cotrim, psicóloga com experiência no atendimento a profissionais da comunicação, considera a transformação da profissão do jornalismo como uma das preocupações dos trabalhadores da área. “Hoje, tem uma concorrência – que os jornalistas comentam muito durante as sessões – que é as mídias sociais. Por isso, o profissional do jornalismo se sente constantemente em alerta e fica com medo em relação à sua profissão”.
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Com a crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19, a dificuldade de manutenção econômica das organizações de mídia e de informação coloca ainda mais em risco a sustentabilidade da profissão do jornalista, segundo pesquisa do International Center For Journalists. Dessa maneira, 65% dos jornalistas entrevistados pela pesquisa relataram que se sentem menos seguros em relação à estabilidade de seus cargos por conta da pandemia.
Phelipe Siani, por sua vez, conta que, para ele, o alto fluxo de informação e a aparente necessidade de se manter informado foi um dos fatores que levaram à debilitação de sua saúde mental. “A gente tem tanta informação hoje e sempre temos a impressão de que estamos perdendo alguma coisa. Então eu sofro muito com isso, o que me levou a um quadro de ansiedade tão grande que eu parei de fazer coisas que eu sempre gostei muito de fazer”.
Para a psicóloga, a profissão pode potencializar sintomas ansiosos e de outros distúrbios mentais em indivíduos que já são predispostos a essas condições. Segundo ela, “O jornalista trabalha em ambientes mais informais, alguns trabalham bastante para fazer reportagem e, se é uma pessoa que não consegue estipular limites [ao exercício da profissão], é um fator de risco para a pessoa se doar demais para a profissão e esquecer de outros papéis que ela exerce”.
Antes mesmo do início da pandemia, o Brasil já era considerado o país mais ansioso do mundo pela OMS, com aproximadamente 16 milhões de brasileiros (7,5% da população) sofrendo de ansiedade. Se espelhando nessa realidade, Siani reforça a necessidade de se falar sobre o assunto de doenças mentais a partir de sua experiência especial com esses distúrbios, a qual ele conta em um vídeo sobre ansiedade publicado em seu canal do Youtube.
“Eu tive uma depressão muito forte durante um tempo, até por questões pessoais, antes de conhecer a Mari e tal e, acho que tudo bem. Eu acho que beleza, todo mundo tem problemas. Hoje passou, hoje está tudo bem. A gente precisa aceitar quando a gente tem alguma dificuldade. (…) É só a gente pedir ajuda, é só a se tratar e tudo vai dar certo. A gente precisa ter calma, a gente precisa respirar”.
Phelipe Siani
Para a psicoterapeuta Carolina Cotrim, é importante para o profissional do jornalismo estabelecer limites para focar também em outras áreas da sua vida que não a profissional. No caso da necessidade de intervenção de um profissional nesse processo, o caminho é trabalhar na organização interna do paciente, entendendo a sua relação com a carreira e com os outros papéis de sua vida para, assim, focar nas demandas de cada paciente. Siani, tratando de seu processo para lidar com a ansiedade e a depressão, comentou sobre a importância de priorizar na rotina o que cada um gosta de fazer.
“Quando eu sento para jogar videogame, na minha cabeça é alguma coisa que não está sendo importante ou de aprendizado, que não está me rendendo de fruto e coisa do tipo. Até que a minha psicóloga sentou e falou: você vai jogar videogame, estou te receitando aqui para você jogar pelo menos cinco a seis horas de videogame por semana. Então são coisas assim que você para e fala: verdade, eu preciso me divertir um pouco, eu preciso desopilar um pouco”.

