COMBUSTÃO

Que somos senão química? Carbonos e hidrogênios ligados, entre tantos outros átomos, formam um ser humano. O oxigênio nos faz viver e nos mata. Combustível, comburente. Todas as pessoas no metrô tem alma ou sou, eu, o fantasma? Sinto-as, encostando em mim, mas existo de fato? Todas as pessoas no metrô tem uma vida ou são personagens na minha?

Segunda-feira. Absorta em pensamentos, a pessoa vai ao trabalho. O trajeto longo e apertado é o único momento do dia que pensa, de fato. Quando abrem-se as portas na estação que deve descer, completo vazio. Sobe as escadas, passa as catracas, faz uma breve caminhada e chega no seu destino. Bom dia, fulano. Bom dia, ciclano. Trabalho. Tédio. Almoço. Repete. A manhã estava linda? Não notei… Saí no ônibus, pro trem, pro metrô, pro prédio.

Que somos, senão, química? A rotina dessa pessoa, tão confortável, começou, naquela tarde, a ser atormentada por uma queimação no estômago que não passava. Foi algo que comeu? Não importava. O que importava é que teve de sair do prédio para a farmácia. Ninguém vence na vida sem um pouco de estresse, diz a si mesma enquanto se automedica com um remédio para gastrite que o farmacêutico lhe vendera.

Metrô, trem, ônibus. A ida à farmácia fez com que chegasse em casa enquanto já escurecia. A pessoa segura a chave com força na mão, do ponto de ônibus até sua casa. Perto de casa, tudo é mais leve, familiar… Família. A quanto tempo não passo um tempo com minha família? Nem uma troca de mensagens, sequer… mas não há tempo. Devo estudar, trabalhar, meditar me exercitar escrever comer ler Não é lindo? A tarde se tornando noite num piscar de olhos. A pessoa respira fundo - dor. A pontada no estômago tira seu ar. A caminhada até em casa a deixa sem fôlego.

Estudou, meditou, se exercitou, escreveu - dor de cabeça. Toma um analgésico, mais um antiácido. Ignore e continue. Comeu, leu… Que somos, senão, química? O oxigênio queimava seus pulmões naquela noite. Resolveu dormir.

Terça-feira. Ouvindo música e tentando ignorar as dores, a pessoa vai ao trabalho. O trajeto longo e apertado é sufocante. Deveria voltar, ir ao médico… mas e as contas pra pagar? Sobe as escadas, passa as catracas, faz uma breve caminhada e chega no seu destino. Bom dia, fulano. Bom dia, ciclano. Pálida? Só tomei café essa manhã, deve ser por isso. A gastrite está me matando… Mas ninguém vence na vida sem um pouco de estresse.

O Centro tem cheiro de poluição e fumaça. Naquela terça, o cheiro estava impregnado dentro do prédio. Trabalho. Dor. Tédio. A pessoa tenta ler um email, mas sua visão embaça no meio do parágrafo e tem que reler. Esfrega os olhos, limpa os óculos. Os pensamentos aceleram na sua cabeça, distraindo-a do email. Uma súbita pressão nas têmporas, seguida da queimação intensa, tomou conta de seu corpo. O oxigênio queima e o ar está pesado, pois o Centro tem cheiro de poluição e fumaça. Levanta da cadeira. De repente, tudo fica preto.

Que somos nós além de pura química? Nosso corpo vive sem nossa alma, mas nossa alma, sem nosso corpo, vai embora tão depressa… A pessoa abre os olhos lentamente. Está em uma sala branca, com algo em seu braço - era soro. Seus colegas do trabalho se mobilizaram para levá-la pro hospital pois desmaiou subitamente, assustando a todos. Ela se desculpa pelo incômodo e, assim que o soro termina, pede uma carona aos seus colegas para o metrô. Sabia que esperar para passar no médico demoraria uma eternidade. É mais simples, mais rápido e mais produtivo ignorar a doença.

Metrô, trem, ônibus. Tudo tá tão vazio. Voltar para casa mais cedo é estranho, não é rotineiro. Que fazer a tarde toda? Chegou em casa, sentou no sofá. O vazio a solidão o tédio sufocavam mais que o cheiro de fumaça que a seguiu do trabalho para casa. Rotina é tudo. A rotina é importante pois segura a pessoa no presente. Sem rotina, ela volta ao passado numa máquina do tempo mental. O tempo é relativo. A pessoa não aguenta mais viajar no tempo, toma um ou dois comprimidos de Dramin e dorme.

O passado não está morto, nem sequer passou, pois o tempo é relativo. Quarta-Feira e Quinta-Feira fundiram-se num só. Ônibus, trem, metrô, catracas, caminhada. Bom dia. Responde e-mails. Escreve um texto. Caminhada, catracas, metrô, trem, ônibus. Casa. A pessoa finalmente volta a si, encarando a si mesma no espelho do próprio banheiro, sem ter certeza de quem a encarava de volta. Sua garganta queima como se estivesse tossindo a dias sem parar. Olha pra pia e vê uma sujeira preta. Estou tossindo sangue? Não… não parece sangue. Parece fuligem. A pessoa toma um ou dois comprimidos de Dramin mas não dorme. Deita na cama, vira pra um lado, vira pro outro, mas não consegue se sentir confortável de jeito nenhum. Tudo dói. Mas ignora.

Parece ser a primeira vez que sente algo de fato em muito tempo. Não há remédio, drogas, pessoas, trabalho, tarefas, nada para distrair e anestesiar, pois é madrugada. O silêncio senta no seu peito, pressionando-o. No silêncio nada resta além dos pensamentos que se acendem como faísca em seu cérebro. O esforço que faz para suprimi-los faz queimar seu estômago. Olha o horário no celular; parece que fazem horas que são 2h50. O tempo é relativo. Fazem 10 graus em São Paulo? Como? Está morrendo de calor, suando, desconfortável.

Basta de angústia. 2h51, a pessoa sai de sua casa. Todos os nervos de seu corpo queimam de dor. Precisa andar, precisa espairecer, o seu quarto a sufocava. Estar em movimento parece ajudar com as dores e, enfim, se distrai. Poderia a brisa fria da madrugada apagar seus pensamentos? O Centro tem cheiro de poluição e fumaça, mas não está no Centro. Por que o cheiro a persegue? 

A tosse seca volta e a pessoa cospe mais fuligem. Subitamente, seu fôlego acaba como se alguém tivesse sugado todo o ar de seus pulmões de uma vez só, forçando-a a parar de caminhar. Sem forças, desaba no meio fio. Não sabe quanto tempo andou e em que rua está. Encosta no poste, tentando recuperar o fôlego para ligar para alguém, admitindo, enfim, que necessita de ajuda. Sente todas as dores de uma vez; o estômago, os pulmões, as têmporas, as angústias, inseguranças, traumas, e deixa a consumirem por completo. Alívio. 

Que somos nós, senão pura e tão somente química? Comburente, combustível, combustão. Observa a própria trêmula sombra no asfalto produzida pela luz do poste. Assiste em primeira pessoa a própria sombra desaparecer enquanto uma luz mais forte iluminava a Rua Vazia da Madrugada Silenciosa. Quando se deu conta que ela própria era o foco de luz, já era tarde. Tentou gritar, mas nenhum som saiu de sua garganta carbonizada. Tentou ignorar, mas já não era possível. A agonia, enfim, tornou-se paz. Nosso corpo vive sem a alma, mas nossa alma sem o corpo… são 3 horas da manhã. Tão subitamente quanto se acendeu, a luz se apagou.

Uma família normal faz um churrasco numa tarde de domingo. Nele, duas irmãs conversam:

  • E a pessoa? sabe dela? a gente não vê ela a tanto tempo…
  • Sabe como é, se ela não tá trabalhando, tá estudando. Tão dedicada, a pessoa. Vai ter um futuro brilhante.

Ninguém se deu conta de que ela estava longe, bem longe. O vento havia levado suas cinzas até seu lugar favorito: a praia. Hoje, a pessoa realiza seu maior desejo, que nunca nem cogitou colocar em prática por conta da dura rotina. Diluída no Oceano, a pessoa viaja ao redor do mundo.

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