Encontros de Annes: o ontem é hoje

Laura Ruescas

Polainas, cores gritantes e… neonazismo? Louis Chedid oferece uma releitura da década de 1980 enquanto luta pelo direito à memória

Após o lançamento da quarta temporada da série Stranger Things, tornou-se visível que os anos 80 estão vivos. Desde a persistência de tensões entre o bloco da OTAN e a Rússia, até Top Gun e “Running up that hill” da Kate Bush voltando de seus túmulos e de volta nas paradas de sucesso, parece que 1980 e 2020 fundiram-se, e isso vai sem mencionar as crises econômicas (a década perdida e a economia pós-pandemia) e sanitárias (AIDS e covid) que atravessaram ambas as épocas. 

Apesar de não ser abordado nos momentos nostalgia, outro aspecto da década do spandex e dos cabelos volumosos que ainda está presente na atualidade é a ascensão do neonazismo. Infelizmente, esse crescimento da extrema direita traduz-se em candidatos políticos fascistas sendo eleitos e grupos nazistas ganhando maior visibilidade. 

Diante desse cenário alarmante, o ar é intoxicado por um gosto amargo de impotência. Perguntamo-nos o que podemos fazer a respeito disso e até questionamos se somos capazes de reagir. Frente a essas preocupações, a resposta deve ser sempre a mesma: devemos fazer arte. Ademais, é importante lembrar-nos que criações artísticas necessitam de olhares para trás, ou seja, precisamos rever o trabalho de gigantes anteriores a nós, os quais também denunciaram os males de suas épocas. Assim, é necessário o diálogo artístico para criar-se algo novo, mas capaz de ser imortal.

Em consonância com essa proposição de arte combativa, a letra e o videoclipe da canção “Anne, ma sœur Anne” (Anne, minha irmã Anne) de Louis Chedid constituem ótimos exemplos de como denunciar a tortuosidade da sociedade, enquanto retoma obras antigas para avançar sua ideia. 

O título da música, “Anne, minha irmã Anne”, é repetido ao longo da canção, cimentando na nossa mente o lamento de Chedid. No entanto, antes de entender completamente o impacto dessa expressão, primeiro, é necessário saber de onde ela vem. Na verdade, o compositor a “emprestou”do conto “Barba Azul” do livro Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault, que, por sua vez, formulou essa frase a partir dos lamentos da rainha de Cartago, Dido, para a sua irmã, Anna, a respeito de suas visões, na obra A Eneida, de Virgílio. Quanto à história de Perrault, ela discorre sobre o cruel Barba Azul, o qual assassinava suas mulheres. Após descobrir esse fato, sob ameaça, a esposa atual dele foge para o alto de uma torre para rezar. Lá, ela pergunta repetidamente para a sua irmã, Anne, se ela consegue ver se os seus irmãos estão chegando para impedir que ela seja executada pelo esposo. É então a partir desse apelo, o qual tornou-se uma frase popular na cultura francesa, que Chedid trata de perigos, tão comuns quanto a frase de Perrault, mas que muitos preferem ignorar. De fato, quando ele repete “Anne, minha irmã Anne”, embora ele retome as palavras da personagem do conto, ele está dialogando com outra Anne trágica: Anne Frank, pequena mártir, vítima do holocausto. De modo semelhante à Anne de Perrault, o cantor também anuncia o que vê. Por isso, ele diz desolado para Frank sobre o que está vindo: não são irmãos, símbolos de esperança de salvação, mas sim os mesmos monstros que a perseguiam. O cantor faz o ouvinte sentir seu pesar, compartilhando sua perplexidade: embora pareça inacreditável que os genocidas voltem à proeminência, eles não só estão saindo confiantemente das sombras, mas também estão sendo tolerados, como se as atrocidades que cometeram estivessem sendo esquecidas. Louis Chedid enfatiza então a importância de não se manter neutro, ou indiferente quando os direitos humanos são ameaçados. Aliás, é interessante pontuar que Chedid insiste em tratar o nazismo não como algo humano, digno de respeito (como alguns o pretendem até hoje em alguns podcasts…), mas como algo bestial, cujos latidos, em formato de discursos, disseminam ódio e violência. Consequentemente, quando se escuta a música, não é só o ritmo contagiante que fica na cabeça, mas também uma forte angústia, sobretudo quando absorvemos a letra e o apelo de Chedid, o qual é vinculado à figura corajosa de Frank. Sentimos que estamos paralisados diante dos absurdos atuais e que decepcionamos aqueles que resistiram. Esse é o valor da arte: a canção não só é esteticamente agradável aos ouvidos, mas também move o seu receptor à tomada de ação.

Ademais, a originalidade da música também está em promover esse encontro de Annes, de épocas diferentes, mas que se encontram igualmente em universos infantis corroídos. Mesmo o conto de Perrault sendo destinado a crianças, seu lado fúnebre o afasta da pureza frequentemente associada a histórias de crianças e o finca na injusta realidade, ao abordar feminicídio e violência doméstica. Já em relação a Frank, por meio de seu diário, descobrimos como a sua infância é destruída pelo anti-semitismo e por políticas fascistas. Esse roubo de do direito à ingenuidade cria mais indignação no ouvinte, cada vez que escuta “Anne, minha irmã Anne”.


Anne, ma soeur Anne - Louis Chedid - Youtube (UMG (em nome de Universal Records); Sony Music Publishing, SODRAC e 3 associações de direitos musicais)

Quanto ao videoclipe oficial, por ser em preto e branco, ele se mostra sóbrio e sério, com certos ares melancólicos, ao contrário de seus contemporâneos, marcados por cores apelativas. Nesse sentido, não há interesse no visual da canção transmitir apelo comercial. Ele quer abordar honestamente um assunto duro. Esse ar lânguido não pertence apenas ao tema da canção, mas também se reflete no protagonista do vídeo: um velho senhor, o qual leva uma vida monótona e solitária. À medida que as cenas do cotidiano do homem mais velho vão desfilando, entre eventuais cenas de Chedid cantando com uma banda, o espectador é induzido a criar simpatia por esse idoso tristonho, deslocado do seu entorno. Entretanto, no final do vídeo, as últimas imagens revelam genialmente o alerta de Chedid. Por isso, faço um pequeno adendo: recomendo que o leitor do jornal pause a leitura do artigo e assista ao vídeo, para evitar spoilers, os quais, nesse caso, prejudicam a experiência surpreendente proposta pelo clipe. Retornando ao final do vídeo, nas últimas cenas, vemos o senhor abrindo o armário, vestindo-se com um uniforme, o qual vamos pouco a pouco associando ao traje militar característico da Alemanha nazista. Enfim, a medida que compreendemos a situação e o choque é dissipado, toda suspeita é confirmada: o idoso não só se admira com o uniforme, mas também se imagina jovem de novo, como se estivesse revivendo com regozijo a época em que ajudou no genocidio de minorias sociais e da população judia. Após sabermos desse fato, nossa percepção das interações do idoso com os outros muda completamente: começamos a entender o porquê dele sempre se manter isolado na sua casa, vemos com novos olhos como ele tratava com certa distância o carteiro negro e o casal judeu que apareceram na sua rotina. Afinal, como a letra o expõe, temos a impressão de que esses horrores históricos ficaram no passado, mas esquecemos que eles continuam vivos e, pior ainda, que estão ganhando força. 

       Em síntese, mesmo se continuamos amando blockbusters “heterotops” e cantoras pop dramáticas, não podemos deixar anseios consumistas e escapistas nos fazerem esquecer da importância de identificar movimentos de extrema direita e de formar resistência contra eles. O combate pode ser por diversos caminhos e Louis Chedid com sua música demonstra como a arte é um desses meios, por ser capaz de criar, a partir do passado, obras refletindo o presente e que estejam preocupadas com eventos futuros. 

Portanto, é alarmante que a crítica de 40 anos atrás ainda seja válida. Por isso, com sua melodia sedutora, a música deve nos impelir a refletir e a combater o neonazismo, o qual ainda ronda as nossas urnas e as mentes dos cidadãos. Afinal de contas, não queremos esse tipo de comeback! Que seja só o da Kate Bush então!

Ficha Técnica: 

Música: Anne, ma soeur Anne

Artista: Louis Chedid

Álbum: Anne, ma soeur Anne

Data de lançamento da música: 1985

Data de lançamento do vídeoclipe: 1994

Diretor do vídeoclipe: Didier Le Pêcheur

Gravadora: Virgin Records

Gênero: pop

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