A ESTRATÉGIA DE ARACNE

Aracne, vítima mais sofrida do lado obscuro de Atena, era uma moça como qualquer outra
jovem. Pobre, bonita e alegre, mas tinha em si algo de especial. Muitos diziam que era um dom, uma dádiva dos deuses, uma dádiva da poderosa Palas Atena. Aracne, muito consciente de seu lugar e do perigo de sua atitude, recusava com convicção a hipótese do presente divino.


Aracne bordava como ninguém, tecia peças lindas com cenas maravilhosas, que
encantavam os olhos de todos. Bordava tão bem, que suas amigas diziam que ela só podia ser queridinha de Atena, a deusa da tecelagem. Aracne ficava possessa, dizia que o que ela fazia era por ela mesma, não recebera nenhum presente divino nem era predileta de alguém do Olimpo. Ela afirmava ser boa por si mesma e tem mais: “Se Atena achar ruim a minha negação, que venha ela mesma tirar satisfação comigo”.


Nada disso adiantava, enquanto Aracne cardava a lã, todos a comparavam com Atena, o
que só fazia a moça rechaçar com mais violência o suposto presente da deusa. “Dádiva bosta nenhuma. Eu sou boa por mim mesma, sem nenhuma ajuda daquela lá, que do Olimpo julga confortavelmente as escolhas humanas”. As provocações à deusa se tornaram cada vez mais agressivas, a ponto das amigas alertarem: “Aracne, reconhece teu limite, não ceda à hybris, menina tola. Provocas a fúria de uma deusa, aguente as consequências”.


Atena, do alto do Olimpo, logo ouviu as severas provocações da jovem, mas antes de tomar
qualquer atitude, decidiu primeiro examinar as obras da garota. Espantada com tamanha beleza, a deusa logo percebeu que de duas, uma: ou fazia a garota aceitar a condição de ser querida dela e, assim, a submetia a posição de portadora de um dom, ou, se não a punisse severamente, sua fama como deusa da tecelagem se desgastaria frente a tão habilidosa bordadeira humana.


Ah Aracne! Devias ter escutado aquela velhinha!


Pois bem, um dia, a deusa se disfarça de uma velha senhora e vai encontrar Aracne e diz:
“Garota, tuas peças são lindas, verdadeiras obras de arte. Realmente tens o dom da tecelagem, és a mais habilidosa com o tear do mundo humano, mas não afrontes uma deusa! Tu sabes que ela pode mais e que se és tão boa tecendo é pela vontade dela”. Aracne, que já não aguentava mais as pessoas tentando sujeitá-la à Atena, logo respondeu com grosseria à velha: “Tu não passas de uma velha! Voltes para tua casa e vá dar conselhos para tuas filhas e mulheres de teus filhos, pois eu sei o que sou e o porquê sou. Não temo essa deusa, se ela quiser, que venha pessoalmente me confrontar”.


Atena percebeu que não podia domá-la e se revelou, com toda a sua grandeza, à jovem.
Aracne, quando viu a deusa, ruborizou-se de leve, pois encarava de frente o seu destino; mas ela já sabia disso, sabia que o caminho que escolhera traçar era aquele: duro, penoso, mas o único que lhe daria a vitória, que lhe permitiria bordar lindamente sem se submeter a deusa. A moça encarou a deusa e propôs um torneio: cada uma teceria uma peça, aquela que fosse a mais bonita venceria.


Atena providenciou dois ótimos teares e as duas se puseram a tecer. Horas se passaram e
os espectadores só aumentavam, ansiosos para ver as belezas que as duas produziriam. Muitos diziam que, pela primeira vez na história, uma mortal dobraria uma deusa, pois nunca viram alguém tecer tão bem quanto Aracne; outros, mais conservadores e talvez desconfiados dos ouvidos atentos de Atena, falavam que a moça bordava bem, mas uma deusa é uma deusa. O grito sincronizado das duas dizendo que terminaram deu fim ao murmúrio dos espectadores.


Atena mostrou sua peça primeiro. Uma beleza de se ver. Uma tapeçaria esplendorosa em
que a deusa representou a cidade de Atenas e os deuses, do Olimpo, sentados em seus tronos protegendo a cidade da oliveira. Além disso, na tentativa de provocar Aracne, bordou em cada canto uma cena daqueles que foram punidos por ofenderem os deuses.


Aracne nem liga para a provocação e não se comove com a beleza da peça de sua rival. Ela
não sabe o que é provocação de verdade, pensava ela. A tapeçaria da jovem era magnífica, todos, involuntariamente, bateram palmas para a obra da garota que contava a história de todos os amores de Zeus. Ali víamos: a ninfa Europa sendo raptada pelo magnífico boi; Leda sendo seduzida pelo cisne; a nossa querida e sortuda Alcmena delirando com o falso Anfitrião; Dânae aproveitando a chuva de ouro; e tantos outros casos do poderoso Zeus.


Ah Aracne, tua sina sempre foi vista como castigo, mal sabem eles que era exatamente o
que planejava.


Atena logo entendeu a mensagem de Aracne, a disputa não era pela forma mais bela, mas
pelo conteúdo. Aracne fez com que Atena relembrasse tudo aquilo que seu pai é e ela não queria que fosse. Atena, caindo sem perceber no plano da jovem e se achando superior, enfureceu-se, não esperou julgamento nenhum, não ouve proclamação de uma vencedora. A deusa levantou seu tear e bateu três vezes com ele na cabeça de Aracne.


Nesse momento, a jovem se sentia vencedora. Foi capaz de fazer uma deusa perder a linha.
Em bom português, foi capaz de fazer Palas Atena descer do salto. A deusa, com tanta fúria e irracionalidade, era quem agora cometia a hybris, passava do limite do aceitável e do esperado para uma deusa classuda como Atena. Com sua vitória conquistada, a jovem não queria mais apanhar. Com um pedaço de sua tapeçaria – que já tinha sido rasgada pela deusa – fez um laço, enrolou no galho de uma árvore e foi se enforcar.


A corda já lhe pressionava o pescoço quando Atena ergueu o peso do corpo e disse: “Vive.
Tu vais viver. Sim vai viver, mas vai te arrepender disso. Garota perversa, teu castigo vai passar para todos os seus descendentes”. Borrifou sobre a moça uma droga misteriosa, que através de uma transformação dolorosa fez seus cabelos caírem, o nariz e as orelhas secarem até caírem, as pernas e os braços murcharem e se dividirem em oito finíssimos dedos, e o tronco inchar formando um grande abdômen. Estava feito o castigo da deusa, Aracne era agora uma aranha e ela daria nome a todos os seus descendentes, os aracnídeos.


A deusa voltou para o Olimpo e se deu por vingada. Aracne, já aranha, por outro lado, deu-se por vitoriosa, o plano era só fazer a deusa surtar de raiva, mas Atena, aquela burra, lhe dera um presente melhor: agora ela poderia bordar, tecer sua teia eternamente sem ninguém lhe comparar com a deusa. Aracne, agora, era livre, era bordadeira habilidosa e talentosa que não aceitou a posição de querida de Atena, tão pouco se sujeitou à redução de portadora de uma dádiva divina. Aracne afirmou seu próprio talento. Aracne venceu, não por bordar melhor que Atena, mas por ser mais ardilosa que a deusa da estratégia.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap