O FÓRUM

O escritório no qual Eric trabalhava nunca estava verdadeiramente claro. Sempre havia alguma penumbra nos cantos do ambiente, ainda que as janelas todas estivessem abertas e a luz solar atravessando aquelas compridas persianas cor de creme. 

Na sala em que estagiava, quatro lâmpadas fosforescentes queimavam no teto, lutando contra as inexoráveis sombras do ambiente. Ali, sozinho, digitava nervosamente contra as teclas de um pequeno computador. 

Tenho que terminar isso o quanto antes. Não posso atrasar mais ou então o Dr. Tadeu irá acabar comigo”. Pensava Eric, afundado em seus devaneios. 

De repente, estranhando estar sozinho àquela hora no trabalho, o jovem estagiário estremeceu. “Era hoje. Deus do céu. Como pude me esquecer?”. 

Apenas alguns minutos depois, Eric estava saindo apressado do escritório, sentindo o vento cortante contra seu rosto.

***

Daniela esperava em frente ao portão do Fórum, encolhida e tremendo levemente ante o frio da manhã. Estava envolta num casaco tão grande que mais parecia um pequeno cobertor. A forma como olhava constantemente para o relógio e, em seguida, mirava o ambiente ao redor, denunciava o atraso de Eric. “Onde está aquele imbecil?”.

Ofegante e com o rosto avermelhado, Eric apenas grunhiu um tímido “cheguei”.

Pelo atraso, esperava vê-lo mais elegante”, disse Daniela.

Eric olhou taciturno para as roupas que vestia. Não lhe parecia estar trajando indumentárias tão desalinhadas assim. Um pouco informal, talvez, mas nada além disso.

Importa que estou aqui”, falou enquanto erguia levemente seus braços, desanimado.

Vamos logo, quase que entram sem a gente”. 

Já próximo ao grupo de advogados e advogadas, todos em seus ternos, blazers e tailleuses, Daniela completou baixinho: “e lembre-se do que o Dr. Tadeu mencionou antes: ‘jamais se perca no Fórum”.

Eric apenas assentiu, emudecido. No entanto, quase brincado, replicou:

Tenha paciência, Dani”.

Ela apenas desviou o olhar, impacientemente.

***

O caminho para dentro do Fórum era aberto e revestido de pedras retangulares, mas bem iluminado. Ao lado, em ambas as laterais, havia um estreito jardim que seguia paralelamente até a entrada do edifício. Era um prédio amplo, reverberando uma arquitetura portentosa, transmitindo uma sensação peculiar de impotência.

Ante o comentário, Daniela retrucou que esse era justamente o objetivo: fazer com que as pessoas sentissem, em alguma medida, insignificância. 

Eric apenas engoliu em seco e seguiu em frente, acompanhando o grupo compacto de causídicos.

Ao fim do pátio, chegaram então à entrada do Fórum. Uma imensa abertura constituída por três portões de bronze, todos com pelo menos três metros de altura, sendo que apenas o do meio estava timidamente entreaberto para o grupo.

Lá na frente, Eric e Daniela mal repararam enquanto o Dr. Tadeu, o líder daquele pequeno bando, mostrava os papéis aos guardas do portão, solicitando a entrada. O par de guardas apenas assentiu e abriu passagem, numa lentidão sonolenta. 

***

Aonde está indo, Eric? Já não lhe disse que não podemos nos perder?”.

Calma, Dani. Preciso ir ao banheiro. Não vou demorar”. Como se não bastasse, Eric apenas mostrou a garrafinha de água vazia em sua mão.

Sinto muito, sinto muito mesmo, mas isso já é demais. Não vou me atrasar novamente por sua causa”, e saiu apertando o passo em encontro ao grupo, que já aos poucos se afastava. O som dos toc toc toc preenchendo o salão.

Eric deu de ombros. Seria rápido e, com sorte, mal notariam sua breve ausência.

No entanto, em meio à arquitetura labiríntica dos andares, foi apenas uma questão de minutos até o rapaz se perder. 

Não pode ser tão difícil assim encontrar um maldito banheiro por aqui”, pensava consigo mesmo. Olhou novamente para as placas que cobriam cada um dos cruzamentos entre os corredores. Já fazia quase vinte minutos desde que se separara de seu bando e ainda nada de um banheiro, tampouco alguém para pedir alguma orientação. 

Finalmente, depois de atravessar vários andares, encontrou um ansiado toilet.

Secando suas mãos, abriu a porta para se deparar com uma estranha figura. Um homem pequeno cujas feições eram um tanto atemporais, nem tão jovem e nem tão novo. Seu nariz arrebitado e postura levemente inclinada transpareciam, no mínimo, um quê de arrogância.

Pois não?”, questionou Eric ao notar que o sujeito não se movia.

Perdão?” replicou o homenzinho, impostando a voz.

Após, em vão, tentar ultrapassar o homem para sair do banheiro, acrescentou: “com licença, está bloqueando minha passagem”.

Ora, veja só. Com toda a graça hei de lhe dar passagem, assim que conferir a sua respectiva autorização, senhor…

Eric”, disse secamente.

Certo, por gentileza, mostre-me sua permissão para vaguear tão despreocupadamente pelo Fórum, senhor Eric”. O olhar afiado daquela figura de meia idade agora carregava uma acidez transbordante.

Mas… não tenho permissão alguma”. De súbito, lembrou-se da fala dita mais cedo por Daniela. Talvez não devesse ter se afastado tanto do grupo, afinal de contas. 

Era o que eu imaginava ao ver um rapaz perambulando sem qualquer propósito pelos andares deste egrégio Tribunal!”, em seguida a mais um intervalo, como que para intensificar sua posterior fala, acrescentou: “Vadio!”.

Veja, eu não tenho autorização alguma, de fato, mas isso porque estava acompanhando um grupo de advogados aqui no magnífico Fórum”, argumentou enquanto tentava ignorar o breve insulto.

Hum… e, por acaso, onde se encontra o tal grupo de advogados, senhor Eric?”, indagou.

Acabei me perdendo quando procurava um banheiro…”.

Enquanto ponderava brevemente a situação, o senhor manteve seu olhar perscrutador, apenas para concluir com a mesma expressão:

Vadio!”.

Suspirando e tentando manter a calma, o jovem continuou: “Sejamos racionais, senhor…”.

Não lhe devo satisfações, rapaz”.

Não importa mesmo, mas sejamos racionais: como eu poderia ter entrado aqui sem algum tipo de credencial ou permissão?”.

Ora, quem deve provar isso é você!”.

Mas, pense comigo, a única forma de ter entrado aqui seria acompanhando alguém com alguma autorização, não é mesmo?”, tentava desesperadamente soar convincente.

Após alguns segundos raciocinando, a figura retrucou:

Então era este seu plano, afinal, não era? Seguir sorrateiramente alguém de bem para enfiar-se clandestinamente no prédio!”.

Com um muxoxo, Eric apenas se inclinou contra a parede. Lutando contra sua frustração, tentava divisar alguma saída daquele mal entendido.

Temos então um problema, doravante ‘Senhor de Gravata Azul’. Para colher a tal autorização que o senhor requer, devo encontrar meu grupo e solicitá-la devidamente”. Um leve sorriso roçou seu rosto ao perceber como aquilo poderia se desenrolar. Finalmente estaria livre.

E com que autorização sairia daqui para encontrar esse tal suposto grupo?”.

A ansiedade de lidar com aquele homem tão inquisidor e a crescente preocupação de estar distante de qualquer conhecido aumentava mais e mais. 

Depois de uma breve pausa, tentou nova investida.

Estou acompanhando o Dr. Tadeu de Alcântara, certamente ele poderá informar pessoalmente todas as autorizações possíveis. Basta contatá-lo, já que sua visita aqui no prédio foi certamente agendada”.

Veja, senhor vadio. Se estivesse atento ao regimento interno do tribunal, saberia que todas as autorizações devem ser disponibilizadas pelos visitantes por escrito, bem como assinadas pela respectiva autoridade concedente da visita, nos termos do artigo quarenta e três, parágrafo único. Aliás, como o senhor até agora não apresentou nenhuma permissão, tampouco posso informá-lo a respeito de qualquer visitante ou servidor que aqui esteja presente”.

Pois bem, então eu mesmo irei até a presença do Dr. Tadeu e requererei a bendita permissão”.

Lamento! Também não posso deixar algum estranho perambulando pelas salas e, no mínimo, atrapalhando o trabalho dos nobres julgadores deste andar. A sua própria presença aqui é um inconveniente, senhor Eric!”. 

Entendo…”, disse enquanto fitava o chão, buscando desesperadamente alguma saída daquilo tudo.

Poderia então chamar a segurança do Fórum?”, Eric disse isso ao perceber o pequeno walkie talkie preso no cinto do homem. 

Para quê? O senhor deveria saber que todos os contatos com a segurança devem ser motivados, sob pena de desperdiçar o trabalho de cada respeitável agente deste prédio!”. Cada palavra transmitia uma nítida repulsa direcionada ao jovem rapaz.

E o que faremos?”, questionou Eric, já completamente desanimado.

Isso não cabe a você decidir”, respondeu laconicamente o homem.

Após alguns minutos refletindo, e um pouco ofegante com a ideia que se desenhava em sua mente, o jovem comentou:

Pois veja, suas falas são todas cobertas de razão, ilustre Senhor da Gravata Azul… No entanto, aproveitando minhas circunstâncias, retornarei ao banheiro rapidamente. Já volto!

Pego de surpresa por aquela menção, o homem não relutou quando Eric se virou de volta ao toilet. Apenas permaneceu ali, impassível, feito um pequeno colosso de granito. 

Depois de alguns instantes, Eric voltou com as mãos para trás, tentando transparecer despreocupação. Agiu como se fosse dizer algo trivial quando, de repente, ao se aproximar do Senhor de Gravata Azul, jogou em seu rosto um jato de água ao apertar a pequena garrafinha de plástico que trazia consigo. Em seguida, Eric pôs-se a correr rapidamente.

Maldito!”, ouvira atrás de si enquanto seguia o mais rápido possível em direção ao que parecia o hall de elevadores. 

Quando finalmente adentrou o salão, voltou-se para o único deles que estava com a porta aberta. Curiosamente, era também o único elevador diferente. Ao invés do característico prata metálico, sua cor era totalmente preta, como se feito de um ônix fosco. Entrou e apertou o primeiro botão de baixo pra cima, mal se atentando às marcações impressas no painel. Queria sair dali o quanto antes. 

Assim que as portas se fecharam, sentiu uma pontada de alívio pelo corpo inteiro. Esperaria pelo grupo no térreo. “Eles teriam que passar por ali em algum momento, certo?”.

Enquanto acompanhava os indicadores de andar no visor eletrônico acima das portas, percebeu que havia algo de errado. Os ícones desciam cada vez mais, mas não pararam no zero, continuando para marcações negativas, afundando de modo contínuo no subsolo do edifício. 

Assustado, olhou para o botão que inicialmente havia selecionado. Ficou pasmo ante a visão do andar “-20”, brilhando na cor rubi.

Quando as portas enfim se abriram, um longo corredor estendia-se em sua frente, igual a todos os demais andares que percorrera antes. Mas algo estranho parecia preencher o espaço todo. Uma atmosfera carregada. Sentia a presença de um ruído contínuo, entremeado por vibrações que, ao fundo, lembravam gritos sufocados. Imediatamente foi tomado por uma tontura, tendo dificuldade de manter o equilíbrio. Seguiu cambaleando, debalde. Por fim, caiu de encontro ao chão acarpetado.

***

Dr. Tadeu! Dr. Tadeu! Finalmente ele acordou!”. Daniela estava ao seu lado e sua voz buscava esconder uma expressão de indizível desprezo. 

“Ora, Eric. Já era ora, hein!”.

O que… houve?”, notou sua voz estranhamente arrastada.

O Dr. Tadeu apenas soltou um leve grunhido de jocosidade, rapidamente seguido pelo restante do grupo, e arrematou: “Não lhe disse para jamais se perder no Fórum?“.

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