Como entregar provas com atraso: um episódio de audácia franciscana

Últimos minutos de prova. Quase todos já saíram da sala. “Finalizando”, dizem os aplicadores. Você olha para sua folha de respostas e tenta freneticamente escrever aquilo que falta. Tudo o que mais queria nesse momento é um tempinho extra para conseguir terminar. Mas será que isso é possível? 

A resposta é: talvez. Certamente, existem diversos caminhos razoáveis – ou nem tanto – a se tomar em uma situação como essa. Mas poucos são tão inovadores ou requerem tanta ousadia quanto o método testado por um corajoso franciscano, em algum dia das últimas décadas, para tentar resolver seu atraso frente a um antigo professor da casa com um histórico de muita rigidez em relação aos prazos de entrega. 

O docente em questão era conhecido por fazer provas difíceis e seguir um procedimento muito particular na aplicação. Suas avaliações funcionavam da seguinte maneira: ele chegava na sala, escrevia na lousa o enunciado - sempre complicado, segundo os estudantes da época - e se retirava, deixando em sala somente os alunos e a questão. Já as regras eram muito simples: todos tinham quatro horas para terminar a resposta e entregá-la nas mãos do professor, que ficava esperando em sua sala, no Departamento de Direito Comercial. E atrasos não eram tolerados. Se tivesse passado um minuto que fosse do tempo estipulado, ele simplesmente não receberia a prova e a pessoa ficaria com nota zero.

Fora isso, todos podiam se valer dos métodos que quisessem para responder à pergunta. Nenhum monitor ou aplicador permanecia na sala. Por isso, os estudantes tentavam de tudo: consultavam livros, manuais, cadernos e todo tipo de material imaginável, se reuniam em grupos de discussão, chamavam veteranos da faculdade, os estagiários até mesmo ligavam para os escritórios na esperança de que algum superior pudesse ajudar… mas, muitas vezes, nada disso era suficiente.  

Foi em uma dessas aplicações de prova que um aluno em especial apareceu no DCO e se encaminhou para a sala desse professor, com sua prova em mãos, quando o relógio mostrava 12:15, ou seja, 15 minutos depois do prazo máximo colocado. Encontrou o magistrado com uma pilha de provas em cima de sua mesa, já trabalhando na correção delas, uma vez que ele tinha também o costume de atribuir as notas ainda no mesmo dia da avaliação. Por conta do horário, ele mal levantou os olhos quando o estudante disse que estava lá para entregar a sua resposta. Como era esperado, o professor respondeu que não aceitaria o recebimento atrasado e que a nota seria zerada. 

O aluno tentou explicar o porquê de seu atraso: ele alegou ter se envolvido em um acidente de trânsito naquela manhã, o que fez com que ele chegasse muito atrasado na faculdade - mais de meia hora - e que, por isso, tinha perdido o início da prova. Falou, inclusive, que tinha tido menos do que as quatro horas estipuladas para a prova, uma vez que a estava entregando somente com 15 minutos de atraso. O professor não se mostrou convencido pela história contada e manteve sua posição. Mesmo depois de diversas tentativas e muita insistência, nada mudava. Como recurso desesperado, o aluno chegou a implorar para que sua prova fosse aceita, o que tampouco surtiu efeitos. 

Porém, nem tudo estava perdido. O bom franciscano não desistiu com tanta facilidade. Teve uma ideia. Em poucos segundos, ele elaborou e já colocou em ação seu incrível plano. Com uma expressão séria no rosto, proferiu a seguinte frase: “Professor, o senhor sabe com quem está falando?” 

O silêncio tomou conta da sala por um breve momento. O estudante já não sabia mais se sua estratégia era brilhante ou simplesmente ridícula. Sabia apenas que daria muito certo ou muito errado, nada no meio disso. De qualquer maneira, foi suficiente para conseguir a atenção do magistrado, que parou o que estava fazendo e direcionou sua atenção para o aluno, sem dizer nada. Afinal, seria isso uma tentativa de carteirada? Talvez um suborno seria o próximo passo? Finalmente, respondeu, severo, que não sabia. 

O estudante seguiu o plano e fez aquilo que tinha que ser feito. Respirou fundo, abriu um leve sorriso e disse: “Pois então o senhor vai corrigir sim”. Rápida e habilidosamente, ele abriu a pilha de provas que estava na mesa e colocou a sua em algum lugar no meio das dezenas de folhas, fechando logo em seguida. Para finalizar, saiu da sala correndo, sem olhar para trás. 

Assim, nosso misterioso e corajoso franciscano demonstrou que, com um pouco de sorte somado a muita ousadia e sangue frio, é possível fazer dos prazos uma mera formalidade e entregar suas provas a qualquer momento – ou, pelo menos, tentar. Por isso, a menos que você seja alguma figura muito conhecida pelo corpo docente da São Francisco, já sabe o que fazer quando precisar de alguns minutinhos a mais para terminar uma resposta ou avaliação. Como bem pensou nosso herói, dará muito certo ou muito errado, nada no meio disso.

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