A mais recente adaptação de Morte no Nilo evidencia que a dificuldade de traduzir a genialidade de Agatha Christie para as telas continua
Qualquer pessoa que se diga fã de mistérios policiais ou histórias de detetive com certeza já teve em suas mãos um exemplar de Agatha Christie. Nascida em 1890, a escritora inglesa recebeu o apelido de “Rainha do Crime”: foram quase oitenta romances policiais que cultivaram o interesse de milhões de pessoas mundo afora. Quase cinquenta anos depois de sua morte, seus livros continuam sendo amplamente consumidos - introduzindo muitos jovens, inclusive, ao gosto pela leitura.
Dentre seus maiores sucessos, destacam-se os livros protagonizados por Hercule Poirot - foram trinta e nove títulos que trouxeram o detetive como personagem principal. Trata-se de uma figura excêntrica: um homem belga, baixinho e rechonchudo, caracterizado por portar um notável bigode e ser o mais perspicaz detetive de todo o Reino Unido (um paralelo com outro grande detetive Sherlock Holmes ). Alguns dos livros mais famosos de Agatha Christie tomaram lugar na realidade de Poirot, como Assassinato no Expresso do Oriente, Os Crimes ABC, Morte no Nilo e Cai o Pano.
Como é de se esperar, diversos diretores se esforçaram para tentar transportar essa realidade literária para as telonas. No entanto, poucos foram os filmes considerados “sucessos” - tanto pela opinião do público quanto pela crítica. Isso porque existe uma dificuldade enorme de realizar a transposição da escrita genial da autora para os filmes - uma vez que um dos pontos mais cativantes das obras da mesma reside, justamente, em sua capacidade de usar as palavras para guiar (e muitas vezes enganar) o leitor quanto a resolução dos mistérios propostos.
A mais recente adaptação de uma das obras de Agatha Christie foi “Morte no Nilo” - a qual, inclusive, não surpreendeu, tendo uma recepção fria por parte da crítica e público. O filme toma por base o enredo do livro, apesar de tomar a liberdade de fazer mudanças significativas (as quais descontentaram muitos dos fãs da obra original, inclusive esta jornalista). Entre elas, a título de exemplo, foi feita a retirada e a adição de personagens que não existiam na trama original, foi acrescentado um panorama fictício acerca da vida pessoal do detetive e houve a criação de relacionamentos que sequer existem no livro.
A história inicia-se com a explicitação de um triângulo amoroso muito importante para o enredo da obra: a rica herdeira Linnet Ridgeway (Gal Gadot) decidiu casar-se com o jovem Simon Doyle (Armie Hammer), o qual estava, anteriormente, noivo de sua melhor amiga - Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey). Enquanto os recém-casados faziam sua lua de mel em um cruzeiro pelo Rio Nilo, Linnet é brutalmente assassinada com um tiro na cabeça. Assim, cabe a Hercule Poirot decifrar o mistério por trás da morte da moça - principalmente em virtude dos numerosos interesses ou melhor, interessados, na fortuna da mulher.
Produzido em 2019 e lançado em fevereiro de 2022 por conta da pandemia de Covid-19, o filme foi dirigido por Kenneth Branagh - o qual também protagoniza a obra, dando vida ao detetive Poirot. Apesar de ser um profissional muito competente, como diretor, ator ou roteirista (papel que ele não ocupou, contudo, em “Morte no Nilo”), Branagh, em associação com o roteirista Michael Green, deixou a desejar em um ponto ao longo do filme - seu personalismo.
São evidentes as tentativas do mesmo de amplificar seu tempo na tela, mesmo com a presença de um elenco hollywoodiano de peso. A própria tentativa de atribuir a Poirot, um personagem engraçado e alegre, um passado dramático, no qual ele teria sido um soldado que ficou com o rosto deformado na guerra e que perdeu sua amada em um bombardeio, é desnecessário para o desenvolvimento da história e se expressa de forma clara como uma tentativa de ganhar minutos a mais na tela.
Por fim, não podemos nos esquecer de criticar uma das cenas mais aterrorizantes e tenebrosas de todo o filme, que recae sobre esse aspecto personalista do diretor: o momento em que Poirot decide fazer a barba e tirar seu tradicional bigode, expondo cicatrizes de guerra que, em primeiro lugar, não deveriam nem existir.
O simples fato de o detetive estar voluntariamente retirando seu bigode, o aspecto mais fundamental e característico de sua aparência, representa um desrespeito enorme ao personagem elaborado por Agatha Christie. A dramatização desse momento específico do filme não tem outra função senão aumentar ainda mais a presença de um Poirot dramático - e, diga-se de passagem, inexistente nos livros - nas salas de cinema.
Esse aspecto do diretor já tinha ficado perceptível em sua primeira adaptação de uma obra de Agatha Christie, o longa metragem “Assassinato no Expresso do Oriente” - baseado em livro homônimo. Assim como “Morte no Nilo”, o filme destacou-se por um elenco de atores talentosos e famosos e um roteiro que tomou a liberdade de fazer algumas modificações.
No primeiro filme, Kenneth Branagh (do excelente Belfast, que concorreu ao Oscar 2002) já havia sido criticado por tomar muito tempo das telonas - ofuscando, de certa forma, atores como Johnny Depp, Michelle Pfeiffer e Daisy Ridley. Assim, essa característica do diretor aprofundou-se ainda mais na “continuação” da saga de Poirot - tomando dimensão, inclusive, ainda mais exagerada.
Ainda sobre “Morte no Nilo”, muitas controvérsias foram levantadas quanto ao elenco escolhido para dar vida aos personagens. Apesar de nomes fortes, como Emma Mackey (estrela da série Sex Education, sucesso da Netflix), Jennifer Saunders e Sophie Okonedo, os dois maiores destaques do grupo de atores do filme foram os mais envolvidos em polêmicas.
A atriz convocada para interpretar Linnet Ridgeway foi a israelense Gal Gadot, conhecida por papéis como Mulher-Maravilha e Gisele Harabo (na saga Velozes e Furiosos). Ela foi muito criticada por ter tomado a posição de seu país de origem diante do conflito com a Palestina em 2020, acusada por muitos internautas, inclusive, de defender uma limpeza étnica contra o povo palestino.
No que diz respeito à escolha de quem traria Simon Doyle à realidade, o ator Armie Hammer foi o eleito. Estrela de filmes como “Me Chame Pelo Seu Nome” (indicado ao Oscar 2018), “Rebecca” e “A Rede Social”, o ator foi alvo de uma enorme polêmica em 2020. Inicialmente, ele foi acusado de ter fantasias canibalistas, apresentando tendências antropofágicas - algo trazido à tona por uma de suas ex-namoradas.
Essas denúncias viralizaram, de forma que outras mulheres se sentiram encorajadas a contar suas histórias - muitas das quais envolviam abuso de álcool e violências sexuais por parte de Hammer. Assim, o filme foi lançado com suas duas maiores estrelas (além do próprio Kenneth Branagh) em maus lençóis - algo que acabou, inclusive, prejudicando a estreia da produção nos cinemas.
Apesar de falhas catastróficas já apresentadas, é preciso tirar o chapéu para certos aspectos técnicos do filme, como sua fotografia em tons quentes e seus efeitos visuais que dão para “o gasto”. Apesar de as gravações terem se passado no Reino Unido, muitas das cenas trouxeram imagens estonteantes capturadas no Egito - uma vez que a equipe cinematográfica viajou para o país para a filmagem de cenários como o Rio Nilo e as Pirâmides de Gizé. Essas imagens, por sua vez, foram muito bem editadas - de modo que a junção entre os dois polos de gravação foi bastante natural.
Por fim, pesando os pontos altos e baixos da produção, o resultado total do filme continuou profundamente negativo: entrei no cinema bastante entusiasmada com a perspectiva de assistir uma adaptação legal do livro que tanto amo e saí de lá bastante irritada por ter gastado cinquenta reais com a experiência.
Apesar de ter ido assistir “Morte no Nilo” naquela tarde chuvosa, acabei vivenciando uma morte silenciosa e triste no cinema ao presenciar um filme que tinha absolutamente todos os meios para dar certo gastar todo seu potencial (e, de quebra, dilacerar o bigode mais famoso de toda a literatura policial).
Por isso, depois de mais uma expectativa frustrada quanto a uma adaptação de Agatha Christie para os cinemas, resta a triste dúvida: quando as produções cinematográficas finalmente conseguirão traduzir a genialidade da autora para as telas?
Titulo: Morte no Nilo
Direção: Kennneth Branagh
Gênero: Policial, suspense
Roteiro: adaptado por Kenneth Branagh e Michael Green da obra de Agatha Christie
Estréia: Fevereiro de 2022

