CODA e O limbo entre a Sessão da tarde e o drama

Coda - No Ritmo do Coração
Laura Ruescas

Quando soube que o filme No ritmo do Coração - cujo título em inglês é CODA, um acrônimo para Child Of Deaf Parents, filho de pais surdos - fora indicado ao Oscar, fiquei um pouco intrigada.

Quando soube que o filme No ritmo do Coração - cujo título em inglês é CODA, um acrônimo para Child Of Deaf Parents, filho de pais surdos - fora indicado ao Oscar, fiquei um pouco intrigada. Antes de tudo, já quero esclarecer que não considero essa premiação o messias do verdadeiro bom gosto cinematográfico, mas devo admitir que os seus indicados, geralmente, conseguem se destacar entre muitos filmes seja pela originalidade de suas histórias, pelas sinopses cativantes, por boa publicidade (cof, cof, cof)… Por isso, não imaginei que a Academia agraciasse essa adaptação estadunidense visto que, número uno, quase não se viu propaganda do filme e, número dos, a versão original, A Família Bélier (La Famille Bélier), nunca demonstrou presunções de ser um concorrente ao Oscar. Ela se contentava como um “besteirol” francês, digno de aparecer na Sessão da Tarde, em um domingo preguiçoso, mas gostosinho. Desse modo, querendo saber como um remake de um filme “passa-tempo” pode se tornar um indicado ao Oscar, decidi assistir à versão recente de 2021, para poder tirar minhas próprias conclusões.

Porém, antes de começar a crítica, gostaria de apontar aspectos positivos da versão da terra do Tio Sam. Primeiramente, o envolvimento da atriz Marlee Matlin, que interpreta Jackie Rossi, a mãe da protagonista, Ruby Rossi, é de se parabenizar. Matlin enfrentou o preconceito de alguns produtores, ao ameaçar sair do filme, caso outros atores surdos não fossem chamados para representar, justamente, personagens surdos. Aliás, esse “bom senso” da atriz faltou na equipe na versão francesa, que escolheu um elenco inteiro composto por atores ouvintes, exceto pelo pai, cuja atuação é verdadeiramente o destaque de A Família Bélier.

Além disso, outro acerto surpreendente de No Ritmo do Coração foi o desenvolvimento psicológico dos personagens da mãe e do irmão, os quais se tornaram mais comoventes do que os da versão francesa. A própria personagem de Marlee Matlin passou por um aprofundamento que a permitiu revelar cores novas e mais magnéticas do que na versão original francesa. Ela mostrou uma face complexa da maternidade, a qual é expressa na cena em que Jackie confessa que, no começo, ela queria que Ruby fosse surda porque ela temia que se ela não o fosse, essa diferença as separaria, tal como afastou ela e a sua mãe, a qual era ouvinte. Essa conversa foi um acréscimo incrível do roteiro estadunidense, capaz de fazer o espectador sair do cinema e pensar apenas “Uau”. 

Ademais, ao optar fazer o irmão da protagonista mais velho que ela, e não mais novo como na versão francesa, a adaptação estadunidense fez com que o personagem se tornasse mais profundo, não sendo só um adolescente, cujo único foco na vida parecia ser “copular” com a melhor amiga da sua irmã. Assim, no remake, temos um irmão mais velho que se sente envergonhado por precisar da sua irmã mais nova para se comunicar com aqueles que não são surdos. Essa angústia do personagem acrescenta complexidade a ele e o torna alguém mais humano e, cá entre nós, um personagem excelente para um grande drama, muito além da Sessão da Tarde. 

Também é de se aplaudir a dedicação da diretora Sian Helder ao querer aprender “ASL”, a língua de sinais americana e por querer descobrir mais sobre as dificuldades enfrentadas pelos pesqueiros da região de Massachusetts. Essa curiosidade de Helder é brilhantemente traduzida no filme, quando aborda a união dos trabalhadores em uma iniciativa coletiva, para não ter que se submeter à exploração do conselho local. 

Na versão francesa também existe essa ideia de se revoltar contra injustiças, mas a sua abordagem parece ter saído de algum tipo de um manual infantil de como salvar o mundo em sete dias. Afinal, veicula-se a ideia de que, sendo prefeito, o pai da protagonista estaria resolvendo todos os problemas de sua comunidade, embora isso não baste para modificar um sistema preconceituoso e classista. É uma visão fofa? É, mas é sobretudo uma perspectiva rasa sobre a obtenção de mudanças sociais.

Contudo, ressalto que o filme A Família Bélier não merece ser linchado por isso, visto que ele não se apresenta como um palco para uma discussão séria. Cá entre nós, ele só se propunha a seguir a receita de alguns filmes da Disney dos anos 2000 e 2010, cujo objetivo era lançar a carreira de uma cantora pop, apoiando-se em uma história fofa, com vaquinhas, com musiquinhas, mas que não saíam dos moldes da indústria do entretenimento. Afinal, em 2014, quando o filme original foi lançado, a atriz principal, a Louane, que está no papel de Paula Bélier, ganhara o The Voice França, em 2013, e, bom, ela precisava de um empurrãozinho para cimentar seu lugar na indústria musical. Leia-se que ela precisava protagonizar um filme “coming-of-age” para conquistar o público jovem feminino. O filme realmente foi um sucesso na França, aliás, pode-se dizer que ele até criou mais interesse de pessoas ouvintes sobre o mundo das pessoas surdas.

De volta ao universo pesqueiro de No Ritmo do Coração, apesar de todas de toda essa contextualização e busca por representação que o filme teve, a meu ver, ele falhou, em parte, devido aos personagens que compunham o casal principal serem incrivelmente (e até musicalmente) xoxos. A Ruby não é envolvente como a Paula Bélier, a qual mostra a sua coragem através dos seus comentários espertos, sobretudo quando seus colegas tentam caçoar da sua família. Ao contrário da Bélier, a Rossi nunca consegue se expressar, muito menos se afirmar, e olha que ela tem mais tempo do que a francesa para desenvolver a sua personalidade. Honestamente, a representação da Ruby até chega a ser irritante, sobretudo porque parece ser uma cópia de muitos “coming-of-age” estadunidenses ruins, nos quais somos forçados a engolir o arquétipo de protagonista que faz cara de cachorro abatido quando vem uma menina malvada “zoar” dela e sonha em um garoto qualquer salvá-la. No entanto, não era necessário forçar situações humilhantes no meio escolar, porque a rotina da protagonista já era suficientemente brutal (até flertava com o trabalho infantil). Logo, aqui, já começamos com o grande problema de CODA: ele não se decide no que ele quer ser. Por exemplo, por não reconhecer a cafonice em que ele está metido, a adaptação estadunidense não identifica os estereótipos que ele reproduz, nem consegue subvertê-los, nem de fazer referências astutas a eles, em vez disso, como um filme mais complexo o faria, ele os leva a sério, ele quer dramatizar sem material. Assim, evidencia-se a dúvida desse filme sobre si mesmo: ele é um drama trágico sobre o sofrimento dessa garota em achar seu lugar no mundo? Ele é um “coming of age” brega, mas gostoso de domingo? Nenhum dos dois, porque ele quer ser ambos, e, para mim, não o consegue. 

Fora Ruby, quem também precisa de mais tempero é o seu interesse romântico. Embora eu deva admitir que o par romântico da Bélier também é xoxo, eu ainda tenho menos ranço dele porque ele aparece menos que o estadunidense, o que foi uma sábia escolha, mas que o remake não fez. O par romântico da Rossi precisa de uma cachoeira de sal, porque não passa de um “filhinho de papai” chato, que não só contribui para o bullying da Ruby e tenta se desculpar flertando com ela, mas também romantiza a situação financeira e familiar dela. Afinal, por estarem quase falidos, eles realmente sabem o que é uma boa família, claro. 

A história também derrapou ao insistir em sexualizar algumas cenas bobas do original, ou até em vulgarizar a família, como se isso demonstrasse um lado mais “rústico” dela. Vai entender! Estou tentando achar explicações. Embora possa-se argumentar que em A Família Bélier também há cenas com um humor bobo (e até sem graça), ao contrário de No Ritmo do Coração, ele não me deixou desconfortável com o jeito que algumas interações eram caricaturais. Nesse sentido, a obra da terra da águia peca de novo por dar uma investida repentina no lado cafona da Sessão da Tarde (mas sem divertir). Consequentemente, ele perde a oportunidade de explorar melhor as dificuldades da rotina da Ruby, caindo em recursos bobos de comédia. 

Por fim, devo destacar que a escolha musical de A Família Bélier também superou a de No Ritmo do Coração, não porque as músicas francesas sejam de uma qualidade lírica superior às estadunidenses, mas elas eram fáceis de gostar e fáceis de ficarem na cabeça. A versão original optou por uma espécie de Roberto Carlos francês, o Michel Sardou, que é tudo de bom porque é brega e ele sabe disso. Já a versão de 2021 optou por músicas lindas, mas das quais eu não me lembro, porque elas não têm o apelo do brega. Novamente, o remake falhou por fazer uma mudança brusca de gênero, tentando alcançar ares sofisticados, os quais não correspondem à proposta da história. Enfim, por mais batido que seja alguém dizer que preferiu a versão original ao remake, eu aceito ser essa pessoa antiquada. Eu me decepcionei com No Ritmo do Coração, porque, apesar das boas intenções, ele acabou ficando em um limbo constrangedor, cheio de estereótipos. Ele não abraçava seu lado brega, ou seja, o seu lado “coming of age”, estilo da Sessão da Tarde, que dá uma sensação de nostalgia. Por isso, ele pecou por insistir em enfiar na história original um dramalhão grandioso, com uma história metida a besta, típica dos filmes indicados à estatueta dourada. No entanto, por causa dessa indecisão, ele não brilhou em nenhum dos dois mundos, ao contrário da Hannah Montana (bons cinéfilos entenderão a referência cult).

Share via
Copy link
Powered by Social Snap