Alcmena, sua sortuda!

Isabella Nobre

Alcmena
Ela, que naquela noite dormiu com um deus sem o saber -
Só o seu cheiro de macho e seu peito largo e peludo
Quase o mesmo do marido e, no entanto, tão diferente
Levou-a suspeitar de alguma coisa -
Ela agora tem de deitar com um simples homem?
E o que importava agora os presentes de Anfitrião,
Ou mesmo os 12 trabalhos que tornariam seu filho imortal
E a ela também por consequência?

Ela só relembra uma noite, aquela,
E espera por uma noite apenas,
De novo, na hora em que, lá fora no jardim,
A Grande Ursa brilha ao lado de Orion prateado
(Ó deus, que cheiro doce tinham aquelas rosas) -
Ela se arruma quando o marido sai,
Ela está sempre pronta
Depois do banho põe seus brincos de novo, suas pulseiras,
Deixa-se ficar nua na frente do espelho,
Escovando o cabelo longo ainda, espesso ainda,
Mas já pintado, seco e sem o antigo viço.
Yannis Ritsos

Pobre Alcmena, deitou-se com um deus e fora abandonada, depois da noite vultuosa, com
um mortal. Que dó da Alcmena, pôde experimentar os sabores libidinais do poderoso Zeus, pôde se entregar de corpo e alma a Ele, pôde gritar, pôde gemer, pôde gozar… E tudo isso para quê? Para carregar no ventre o fruto premeditado de um caso imoral? E, por tudo isso, ter como recompensa os amassos enfadonhos e repetitivos de Anfitrião?

Pobre Alcmena, sempre desejando, rememorando, tentado reconstruir a sensação daquela
noite, mas falha, falha, falta. Falta um marido que a possua, como Ele a possuiu. Falta nele o interesse e a admiração que existia no Outro. Falta em Anfitrião, o poder e a lasciva insaciável do falso Anfitrião. Falta no homem, um quê de deus; e falta no deus, sua antiga fantasia humana.

Alcmena deixou-se enganar por Hélio, Eos e Selene. Tudo ficou congelado, para que 3 dias
parecessem passar em uma única noite. Zeus pensava que a enganava, mas ela bem sabia que tudo aquilo não podia ser limitado a uma mísera noite, ela sabia que estava sendo enganada, ela sabia que devia fingir ingenuidade para continuar sua aventura com Ele, ela sentia que se deitava com um deus e não com o tedioso marido.

Passado os três dias em uma noite, Ele foi embora enquanto ela dormia ou, ao menos, foi
isso que ela fez parecer. Ela bem sentiu a presença calorosa Dele deixar o leito que fizeram de ninho naqueles três dias, sentiu o desejo de ser Dele mais uma vez, de se entregar mais uma vez, mas uma única vez… Era tudo que pedia. No entanto, contida – por saber de sua triste posição –, entreabriu os olhos discretamente e viu, pela derradeira vez, aquele que, no seu íntimo, desejava que se tornasse seu verdadeiro marido.

Não dormiu mais naquela noite, esperando. Esperando que Anfitrião – dessa vez o
verdadeiro – adentrasse por aquela porta e pensasse que fora o primeiro, tentasse dar prazer a ela e fracassasse. Ela esperava que conseguisse fingir prazer, fingir o gozo, fingir que se deitava com Ele, quem sabe assim, usando o corpo do marido, pudesse sentir o vigor – que já deixara saudade – do deus.

Anfitrião, coitado, não imaginava sua sina. Entrou empolgado dentro de casa, querendo
arrancar de Alcmena o prazer que eles esperaram tanto para ter. Contou suas conquistas, suas vitórias, sua vingança, mas Alcmena achava tudo aquilo um porre, queria saber era Dele. Anfitrião, logo percebeu o desinteresse da amada e pensou – ingênuo – que reverteria o tédio da mulher na cama… Para ele, foi bom, mas nela faltou a paixão avassaladora do desejo; para ela, foi puro tédio e repetição, sem interesse, sem paixão, sem tesão, só conseguia comparar o marido com o deus.

Anfitrião, passado o tempo e passado o surto de ciúmes após descobrir que Zeus dormira
na sua casa, continuou amando Alcmena. Tratava-a muito bem, a enchia de presentes, carinhos, cuidado e nunca deixou faltar nada que ele precisasse – ou quisesse – no lar, na verdade, tudo isso era uma maneira de compensar o que ele jamais poderia de fato dar e o que ela de fato queria. Mesmo assim, Anfitrião jamais pode tentar, novamente, dar prazer a Alcmena, tinha medo… Medo de Zeus, medo da comparação, mas sobretudo, medo dela. Medo dela se cansar de vez e o abandonar.

Ela viveu eternamente de saco cheio do marido, agradecia quando ele saia, pois podia se
arrumar e esperar – mesmo que soubesse que ninguém viria – Ele. Passou a vida todo relembrando uma noite, relembrando um amor, relembrando uma transa. Daria tudo, absolutamente tudo, para viver por uma mais um dia ao lado Dele. Se sentia mal, é claro, por não amar o marido, por não o admirar e por o achar enfadonho; ele era um bom homem, um bom marido e se sentia amada por ele, queria poder corresponder, mas quando se deita com um deus, o homem revela – completamente – sua banalidade.

Alcmena, como eu te invejo! Você ao menos pode se deitar com o deus. Eu, o tenho sobre
meu olhar, sobre minhas mãos, e dentro do meu desejo, mas não posso, pois meu Anfitrião é tão bom quanto o seu, é tão atencioso quanto o seu, tão querido quanto o seu; e ao mesmo tempo, tão enfadonho, tão repetitivo, tão tedioso quanto o seu. Alcmena, o que eu não daria para ser enganada e passar três dias em uma noite com ele, o que não daria para poder experimentar sua sensibilidade, sua inteligência, seu poder, sua libido, sua lasciva e o seu fogo. Mas ele sabe que tenho um Anfitrião, que sou presa, que não tenho coragem de usar as chaves – que só eu tenho – para desatar minhas amarras. Ele parte, parte para longe e me deixa sem uma única noite, sem um único beijo, sem uma única transa, aprisionada, eternamente, a meu Anfitrião.

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