Resenha por Josué Lacerda
Muitos dias depois, diante do pelotão dos pensamentos velozes, eu teria de concordar com a grandeza da obra de Gabo. Sinto que demorei cem anos para descobrir a América e cheguei muito mais atrasado que Colombo nesta terra de magias. Macondo é uma fábula perspicaz da natureza isolada e independente do nosso continente. O que aqui chega ou é fruto de uma obstinada inventividade e persistência ou é produto de um colonialismo mastigado em progresso, visto que os de fora trazem para nosso “mundinho tropical” o atraso em formato de Companhia e ainda culpam as bananas pelo retrocesso. Carmen
Miranda que o diga…
Entretanto, Gabriel García Márquez, autor e personagem, não se limita a uma crítica do panorama político latino-americano: ele alavanca a solidão ao cerne da alma humana gastando-a numa família simples, estirpe síntese do nosso caráter dos trópicos. Os Buendía são governados por matronas, repetem sua fortuna aos ventos do tempo e julgam a história com base numa profecia ou num jogo de baralhos na mesa de uma prostituta. Apesar de serem apresentados como núcleo familiar integrado, eles se perdem no vazio de casa e o destino se torna um ciclo taciturno de solidões.
O que me impressiona em primeiro lugar, é que sua solitude lembra o concreto gelado e as muitas almas soltas de São Paulo, que assusta quem chega “de outro sonho feliz de cidade” e desafia um mineiro como eu a reconstruir um lar no meio do mundo, guardando meu cantinho nos Largos e Avenidas. Parece-me que nessa metrópole todo dia a gente se pergunta quem é e de onde veio tal qual uma Eleanor Rigby ou um Travis Bickle; sempre procurando subterfúgios para calar o isolamento e achar razão para viver. Bem, é exatamente isso que procuram as várias gerações de Arcadios, Aurelianos, Úrsulas e Remedios: uma identidade e um propósito a fim de driblar a solidão, mesmo num vilarejo tão oposto a São Paulo como Macondo, até mesmo no correr frenético dos séculos.
Noutro plano, é bonito pensar que a vida, os anos, os dias carregam em si uma oportunidade única de favorecer os seres humanos, porquanto estamos condenados a viver por só uma vez, sem segundas chances e sem nada além do legado da nossa própria espécie, que é de misérias como diria Machado de Assis. É portanto isso que nos torna fadados a afugentar a nossa existência sozinha e auto-responsável (trecho por demais sartreano) em vontades e paixões simples como a sexualidade, tresloucadas como a guerra e complexas como as banalidades da vida doméstica. Porém, ainda mais indecifráveis são as nossas manifestações mágicas, a nossa liberdade para interpretar o mundo de modo fantástico, fazendo a realidade ficar mais palatável.
Mas por fim, Gabo nos mostra que todos os dias de nossos dias são um século de escolhas e reflexões produtoras de quem somos: filhos de Eva e Adão, herdeiros de uma Iguarán e um Buendía que pairam sobre a terra amando, matando, morrendo e sonhando como os mortos ou como cantaria Belchior: “como nossos pais”, repetindo os mesmos erros e destinos. Num livro mágico e atual, García Márquez mostra que vivemos, erramos e aprendemos sem precisar de profecias e oráculos, fazendo no amanhã o que ontem já se fez: tentando esquecer nossos anos de solidão!
Referência Bibliográfica: MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Editora Record, 2019.

