Lançada por Kanye West - hoje, conhecido somente como Ye - a composição e seu videoclipe, os quais alcançaram o público em 20
Todo mundo já ouviu falar, alguma vez na vida, da icônica briga travada entre o rapper Kanye West e a cantora Taylor Swift. Seu alcance foi tão grande que a cantora desapareceu, por quase três anos, de todas as redes sociais - até lançar seu álbum de retorno, Reputation (sobre o qual, infelizmente, não vamos falar sobre neste artigo). Abordaremos, hoje, a música que começou essa confusão - também conhecida, por mim, como a composição mais superestimada dos últimos anos: Famous.
Lançada por Kanye West - hoje, conhecido somente como Ye - a composição e seu videoclipe, os quais alcançaram o público em 2016, geraram uma enorme comoção diante da indústria musical. O rapper se propôs, ao longo da música, a discutir as implicações, principalmente negativas, da fama na vida das pessoas - inclusive sua própria. Assim, ele recebeu diversas críticas positivas por abordar tal assunto e jogar luz sobre essa faceta da vida pública.
“Famous” tinha tudo para dar certo, pelo menos do ponto de vista técnico. Foi muito bem produzida: as sobreposições musicais, a melodia e a batida soam cativantes - de forma que a trilha sonora não fica muito poluída. A participação de Rihanna, incorporando a própria fama, é, além de inteligente, sonoramente agradável. A interpolação da canção antiga “Do what you gotta do”, de Nina Simone, traz uma peculiaridade atrativa para a composição.
Se a música cumprisse a tarefa de abordar aquilo que ela se propunha a discutir, de forma eficiente e pertinente, ela teria o potencial de alcançar unanimemente o patamar de uma das melhores e mais premiadas músicas daquele ano. Além disso, como rapper e produtor musical, West era considerado um gênio musical e lírico por muitos de seus fãs, havia uma enorme expectativa no que dizia respeito ao que ele optaria por escrever na letra musical.
Por que, então, “Famous” não é um sucesso uníssono e é, na minha concepção, considerada tão superestimada?
Para começo de conversa, Kanye West decidiu trazer pontos altamente controversos à letra - além de um dos mais ousados e incômodos vídeos musicais já realizados. A partir do momento em que a música ocupou-se em taxar a figura feminina e seu sucesso individual como decorrentes da atuação masculina, seu potencial de grandiosidade foi, em muito, desperdiçado.
Logo nos primeiros versos, por exemplo, o cantor refere-se a Taylor Swift por um nome pejorativo, alegando que eles ainda teriam algum tipo de relacionamento íntimo no futuro, dado que ele “teria feito ela ficar famosa” (“I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous”). Esse tipo de fala retira da música grande parte de sua integridade - visto que se dizer responsável pelo sucesso feminino alheio decididamente traz para a composição (e para o próprio cantor) um caráter misógino que destoa do aceitável.
Muitas pessoas tentam justificar partes machistas da música alegando que esse tipo de composição e xingamento faz parte do rap, a fim de continuar a defender a obra de genial. No entanto, esse tipo de estrutura musical não se harmoniza aos moldes do século XXI, caminhando em sentido contrário dos diversos movimentos em prol da valorização e reconhecimento da mulher no mercado de trabalho - o qual envolve a indústria musical, ainda muito masculina.
Além disso, precisamos falar do vídeo musical de “Famous”.
A produção, que muitos dos fãs do artista tentaram chamar obra-prima inovadora, não pode ser ignorada em sua dimensão profundamente perturbadora: uma filmagem de dez minutos e trinta e seis segundos que se preocupa em retratar uma série de celebridades deitadas em uma cama, enfileiradas e despidas. O clipe, inclusive, assemelha-se a uma gravação caseira da década da década de 80, capturando de forma quase macabra as pessoas representadas.
Em uma paródia de mau gosto da pintura “Sleep”, do artista Vincent Desidério, combinada com elementos de “A última ceia”, de Leonardo da Vinci, Kanye West almejou realizar um vídeo criativo e inovador à sua maneira. No entanto, a imagem causa um desconforto visível - além de violar, de certa forma, a imagem dos artistas representados, apesar de o cantor ter usado bonecos de cera em seu vídeo.
Claro que não podemos ignorar que existe, de certo modo, a intenção de causar estranhamento (e altos enjoos) nos espectadores - visto que a intimidade dos artistas é violada em razão de sua fama. No entanto, é impossível não se atentar à faceta perversa da escolha do cantor que, ao retratar de forma tão explícita, detalhista e realista a intimidade de outras personalidades famosas é, além de desnecessário, desconcertante para os espectadores - ainda mais quando o vídeo parece uma gravação de um serial killer. Ademais, considerando a facilidade com que esse tipo de conteúdo se alastra na era da internet, principalmente entre crianças e adolescentes, a divulgação desse conteúdo de forma acessível a todos os públicos é, no mínimo, alarmante.
Mesmo diante desse cenário, não demorou muito para que fãs de rap ou do próprio artista, já muito renomado na época, passassem a idolatrar a obra - defendendo o que havia sido escrito e representado e criando uma enorme atmosfera de sacralização em torno da produção. No entanto, ignorar suas muitas características inadequadas não podem ser uma opção - precisamos analisá-la em seus muitos defeitos antes de colocá-la em qualquer categoria de pedestal.
Portanto, apesar de famosa, “Famous” certamente não deveria receber o reconhecimento que ela de fato leva - configurando uma das músicas (e videoclipes) mais superestimadas do século XXI.
Música: Famous
Artista: Kanye West
Álbum - Famous
16, geraram uma enorme comoção diante da indústria musical.
Todo mundo já ouviu falar, alguma vez na vida, da icônica briga travada entre o rapper Kanye West e a cantora Taylor Swift. Seu alcance foi tão grande que a cantora desapareceu, por quase três anos, de todas as redes sociais - até lançar seu álbum de retorno, Reputation (sobre o qual, infelizmente, não vamos falar sobre neste artigo). Abordaremos, hoje, a música que começou essa confusão - também conhecida, por mim, como a composição mais superestimada dos últimos anos: Famous.
Lançada por Kanye West - hoje, conhecido somente como Ye - a composição e seu videoclipe, os quais alcançaram o público em 2016, geraram uma enorme comoção diante da indústria musical. O rapper se propôs, ao longo da música, a discutir as implicações, principalmente negativas, da fama na vida das pessoas - inclusive sua própria. Assim, ele recebeu diversas críticas positivas por abordar tal assunto e jogar luz sobre essa faceta da vida pública.
“Famous” tinha tudo para dar certo, pelo menos do ponto de vista técnico. Foi muito bem produzida: as sobreposições musicais, a melodia e a batida soam cativantes - de forma que a trilha sonora não fica muito poluída. A participação de Rihanna, incorporando a própria fama, é, além de inteligente, sonoramente agradável. A interpolação da canção antiga “Do what you gotta do”, de Nina Simone, traz uma peculiaridade atrativa para a composição.
Se a música cumprisse a tarefa de abordar aquilo que ela se propunha a discutir, de forma eficiente e pertinente, ela teria o potencial de alcançar unanimemente o patamar de uma das melhores e mais premiadas músicas daquele ano. Além disso, como rapper e produtor musical, West era considerado um gênio musical e lírico por muitos de seus fãs, havia uma enorme expectativa no que dizia respeito ao que ele optaria por escrever na letra musical.
Por que, então, “Famous” não é um sucesso uníssono e é, na minha concepção, considerada tão superestimada?
Para começo de conversa, Kanye West decidiu trazer pontos altamente controversos à letra - além de um dos mais ousados e incômodos vídeos musicais já realizados. A partir do momento em que a música ocupou-se em taxar a figura feminina e seu sucesso individual como decorrentes da atuação masculina, seu potencial de grandiosidade foi, em muito, desperdiçado.
Logo nos primeiros versos, por exemplo, o cantor refere-se a Taylor Swift por um nome pejorativo, alegando que eles ainda teriam algum tipo de relacionamento íntimo no futuro, dado que ele “teria feito ela ficar famosa” (“I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous”). Esse tipo de fala retira da música grande parte de sua integridade - visto que se dizer responsável pelo sucesso feminino alheio decididamente traz para a composição (e para o próprio cantor) um caráter misógino que destoa do aceitável.
Muitas pessoas tentam justificar partes machistas da música alegando que esse tipo de composição e xingamento faz parte do rap, a fim de continuar a defender a obra de genial. No entanto, esse tipo de estrutura musical não se harmoniza aos moldes do século XXI, caminhando em sentido contrário dos diversos movimentos em prol da valorização e reconhecimento da mulher no mercado de trabalho - o qual envolve a indústria musical, ainda muito masculina.
Além disso, precisamos falar do vídeo musical de “Famous”.
A produção, que muitos dos fãs do artista tentaram chamar obra-prima inovadora, não pode ser ignorada em sua dimensão profundamente perturbadora: uma filmagem de dez minutos e trinta e seis segundos que se preocupa em retratar uma série de celebridades deitadas em uma cama, enfileiradas e despidas. O clipe, inclusive, assemelha-se a uma gravação caseira da década da década de 80, capturando de forma quase macabra as pessoas representadas.
Em uma paródia de mau gosto da pintura “Sleep”, do artista Vincent Desidério, combinada com elementos de “A última ceia”, de Leonardo da Vinci, Kanye West almejou realizar um vídeo criativo e inovador à sua maneira. No entanto, a imagem causa um desconforto visível - além de violar, de certa forma, a imagem dos artistas representados, apesar de o cantor ter usado bonecos de cera em seu vídeo.
Claro que não podemos ignorar que existe, de certo modo, a intenção de causar estranhamento (e altos enjoos) nos espectadores - visto que a intimidade dos artistas é violada em razão de sua fama. No entanto, é impossível não se atentar à faceta perversa da escolha do cantor que, ao retratar de forma tão explícita, detalhista e realista a intimidade de outras personalidades famosas é, além de desnecessário, desconcertante para os espectadores - ainda mais quando o vídeo parece uma gravação de um serial killer. Ademais, considerando a facilidade com que esse tipo de conteúdo se alastra na era da internet, principalmente entre crianças e adolescentes, a divulgação desse conteúdo de forma acessível a todos os públicos é, no mínimo, alarmante.
Mesmo diante desse cenário, não demorou muito para que fãs de rap ou do próprio artista, já muito renomado na época, passassem a idolatrar a obra - defendendo o que havia sido escrito e representado e criando uma enorme atmosfera de sacralização em torno da produção. No entanto, ignorar suas muitas características inadequadas não podem ser uma opção - precisamos analisá-la em seus muitos defeitos antes de colocá-la em qualquer categoria de pedestal.
Portanto, apesar de famosa, “Famous” certamente não deveria receber o reconhecimento que ela de fato leva - configurando uma das músicas (e videoclipes) mais superestimadas do século XXI.

