Ex-presidente do XI de Agosto detalha os acontecimentos que o levaram a pedir renúncia.
Marco Antônio Paranhos, conhecido popularmente como Kinho, concedeu no último domingo, 20, entrevista exclusiva para a Gazeta Arcadas acerca do escândalo que culminou em seu pedido de renúncia e sobre a crise que se abateu sobre o Centro Acadêmico.
Confira a seguir.
Gazeta Arcadas - Você menciona em sua nota de renúncia que o “coletivo Contraponto (…) vem passando por inúmeras problemáticas envolvendo denúncias de assédio sexual e violência por parte de algumas direções.” Em outro trecho, você afirma que “[a] situação tornou-se tão absurda que um grupo paralelo foi criado para remediar as possíveis perdas que o coletivo teria caso fossem ‘envenenados’ pela dura realidade.”
A nota dos segundanistas pertencentes ao Contraponto (turma 194) menciona “denúncias de casos de assédio e agressão envolvendo membros do movimento Disparada, e […] a inércia da diretoria interna do Coletivo Contraponto”. Afirmam ainda que “[n]osso posicionamento foi ignorado múltiplas vezes pela diretoria interna”
Contudo, a nota publicada pelo grupo intitulado “mulheres do coletivo Contraponto” parece buscar desmentir essas afirmações quando diz que “Ressaltamos, contudo, que essas denúncias sobre pessoas do Contraponto apresentadas anteontem não haviam sido trazidas para nenhuma instância do nosso Coletivo”.
Quando foram suscitados os primeiros questionamentos sobre os casos de assédio dentro do coletivo? Como explica a versão dos fatos suscitada pelo Contraponto, que parece afirmar ter tomado conhecimento das denúncias a partir da sua renúncia?
Kinho - Primeiramente, gostaria de agradecer ao espaço cedido à minha pessoa para elucidar alguns pontos para a comunidade franciscana. Ao longo dos últimos dias recebi um alto fluxo de mensagens; a maioria positiva, em sinal de apoio, com uma minoria não insignificante de ofensas com tom de ameaça e uma parcela considerável de questionamentos com relação ao ocorrido. Espero, portanto, conseguir sanar a maior parte das dúvidas nesse momento.
Tratar de questões relacionadas ao assédio que ocorria dentro do coletivo é um assunto sempre complexo. Tanto pela delicadeza do tema e como ele afeta negativamente o psicológico dos envolvidos quanto pelo fato de realmente haver inércia por parte das direções para esclarecer e solucionar essas questões, como foi muito bem pontuado na nota dos segundanistas da turma 194. Se eu fosse falar de todos os casos de assédio sexual que o Contraponto acumulou em seus quase 10 (dez) anos de existência na faculdade de direito na USP seria necessário uma coluna semanal que, sendo bem sincero, não daria prazer nenhum ao leitor. Estamos falando de uma violência brutal inserida num país igualmente brutal que perpetua um tratamento desumano às vítimas de agressões dessa natureza. Desse modo, irei me ater somente à denúncia mais recente que propiciou a minha saída do coletivo e da consequente renúncia ao cargo de presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto.
Os primeiros questionamentos sobre essa violência em particular surgiram após uma reunião da direção do Disparada, grupo nacional ao qual o Contraponto ainda faz parte. O fundador do Disparada (que também fundou o Contraponto, anos antes do Disparada existir) cuja participação no dia a dia do Contraponto é muito significativa mesmo já formado pelas arcadas – principalmente nos assuntos relacionados à gestão do Centro Acadêmico – veio acumulando ao longo dos últimos anos inúmeras denúncias de violência e abuso contra militantes, homens e mulheres. O estopim para desencadear todos esses processos recentes foi quando nesta reunião de segunda-feira o mesmo agrediu fisicamente uma pré-candidata a deputada estadual pelo PT, até então filiada ao movimento de juventude. Essa atitude repulsiva e injustificável teve como consequência a abertura de uma “caixa de pandora” dentro do coletivo, com diversos outros militantes não somente se solidarizando com a agressão sofrida pela pré-candidata como também compartilhando seus relatos pessoais de violência sofrida pelo mesmo agressor; alguns relatos amplamente conhecidos (mas normalizados dentro do coletivo) e outros completamente novos (mas igualmente detalhados e traumatizantes).
Sendo assim, a tentativa do coletivo de insinuar que as denúncias só chegaram à ciência do grupo a partir de minha renúncia é mentirosa na melhor das hipóteses, senão deliberadamente canalha na pior delas. Houve uma reunião na mesma semana em que os fatos ocorreram com os membros do Contraponto que compunham a gestão do centro acadêmico para delinear uma estratégia interna de “contenção de danos” que as denúncias poderiam eventualmente causar. Como que não sabiam? Como que não havia sido trazida para nenhuma instância do coletivo, sendo que boa parte das pessoas ligadas intrinsecamente ao cotidiano do coletivo já tinham conhecimento do ocorrido dias antes da minha renúncia? É no mínimo contraditório arquitetar um plano de remediação dos membros para um problema que supostamente ninguém possuía conhecimento…
GA - Você menciona em sua nota que “[a] situação piorou quando as vítimas começaram a ser perseguidas e removidas do grupo, sem qualquer direito de defesa; as direções, por outro lado, permaneceram intactas.”
Os segundanistas da turma 194, por sua vez, afirmam discordar das “decisões passivas da diretoria interna, como também de outras atitudes que foram tomadas de forma a mitigar os danos causados pelo Disparada em nosso grupo.”
Já a nota oficial publicada pelo coletivo Contraponto diz que “para que as justas medidas sejam tomadas, prezamos pelo transcorrer de um devido processo legal, garantindo os direitos fundamentais tais como o direito ao contraditório e à ampla defesa.”
Como você vê o argumento usado pelo Contraponto, de respeito ao devido processo legal e à ampla defesa, diante da alegada perseguição às vítimas denunciantes, as quais você afirma não terem tido direito de defesa?
Kinho - Gostaria de dizer que a postura de respeitar o devido processo legal e averiguação das denúncias é acertada, só gostaria que tivesse sido traduzida para a materialidade. Como estudante de direito que sou, seria impossível esperar de mim uma opinião diferente dessa com relação a respeitar o devido processo legal e direito ao contraditório. Entretanto o discurso, embora correto, não se sustentou devido à postura interna da direção do coletivo com relação ao ocorrido, em que removeram dos espaços as vítimas e pessoas que potencialmente poderiam, em termos do coletivo, “crisar” outras pessoas. Por outro lado, aqueles que perpetuavam a violência no grupo tiveram, para além da blindagem interna, o direito de defesa mais amplo que já vi na minha vida, mais amplo que as próprias pessoas agredidas. Foi oferecido suporte, diálogo e voz para o agressor, tornando aquele lugar insustentável para as vítimas. Encontra-se, inclusive, até hoje presente nos espaços do Contraponto.
Na materialidade, o que ocorreu é que, ao nível de Disparada, foi tirada uma comissão responsável por averiguar o caso. Essa comissão era composta por 3 (três) membros do Disparada de fora da cidade de São Paulo, a fim de garantir maior isonomia e celeridade na condução da investigação do ocorrido. Somente essa comissão possuía legitimidade para tratar deste assunto, caso contrário não haveria a necessidade da mesma existir. Contudo, na tarde do dia 14 deste mês, quando as denúncias já eram plenamente conhecidas, uma reunião interna do Contraponto foi realizada para relatar o ocorrido aos membros do coletivo, e simplesmente nenhuma das pessoas que compunham a comissão estava presente para tratar do caso. As pessoas que estiveram na posição de relator, muito pelo contrário do que se esperava, eram membros com fortes vínculos pessoais e afetivos com o agressor, sendo assim incapazes de fornecer qualquer ponto de vista que fugisse da simpatia para com o abusador.
Para além de alguns momentos risíveis (como a simulação de choro por parte de uma figura conhecida na São Francisco como principal referência do coletivo e a comparação das denúncias de violência física e sexual à prisão injusta do Lula) a reunião teve um caráter mais de confronto com a versão das vítimas do que de esclarecer o ocorrido para as pessoas que ainda não tinham plena noção do que estava acontecendo (em sua vasta maioria segundanistas, que talvez por isso, mesmo tendo saído do coletivo, tenham dito que nunca ouviram falar de nenhuma cena de violência). A situação foi de tamanha hipocrisia e complacência que não consegui ficar até o final, tendo saído do coletivo enquanto a mesma ainda estava ocorrendo. Simplesmente não fui capaz de suportar uma versão completamente enviesada da história a qual tinha plena noção de ser falaciosa, sendo contada pelas mesmas pessoas que marginalizaram as vítimas e outras pessoas que sabiam o que de fato tinha acontecido. O discurso de respeito ao devido processo legal estava sendo proferido por pessoas que não possuíam o mínimo interesse em ver essa garantia ser posta. Que mostraram desinteresse durante todo o processo na versão das vítimas e nem sequer mostraram apoio àqueles que sofreram violência. Todo o ônus ficou com aqueles que já estavam sofrendo por tudo isso, o que simplesmente não pude aceitar.
GA - Em sua nota, você afirma: “Quando percebi que os últimos três anos de minha graduação defendendo um projeto político servia só para legitimar um discurso para a faculdade de que esse coletivo com histórico de denúncias e violências tinha ‘aprendido a lição’ e ‘mudado’ eu pensei em desistir de tudo. Nunca aprenderam, nunca se dispuseram a aprender.”
Como vê as afirmações feitas pelo grupo de mulheres do Contraponto, de que os envolvidos já foram suspensos e que foi instaurada uma Comissão de Averiguação? O grupo também divulga um procedimento interno para lidar com denúncias desse tipo e informa que está sendo construído um Código de Ética e Conduta. Você acredita que essas medidas seriam capazes de evitar novos casos de abuso?
Kinho - Essa foi, dentre todas as posturas até então tomadas pelo coletivo, a mais previsível. É procedimento padrão dentro do Contraponto a correspondência das características dos militantes aos fatos ocorridos sempre que surge algum assunto sensível.
Vou dar um exemplo: se alguma denúncia de racismo surgisse contra o coletivo Contraponto, é óbvio que um militante negro que compõe o coletivo iria lançar uma nota em nome das pessoas negras defendendo o Contraponto. Por se tratar de um caso onde existe agressão física de um homem contra uma mulher, já era de se esperar uma nota não do coletivo, mas sim uma nota DAS MULHERES DO COLETIVO. O objetivo disso é muito simples: mostrar para a faculdade que a acusação é esdrúxula e quem denunciou está equivocado, afinal de contas, como pode haver racismo se é uma pessoa negra que está postando? Como pode haver misoginia e violência contra mulheres se as próprias mulheres do Contraponto estão se unindo para escrever uma nota? Pouco importa se a nota foi realmente escrita por essas pessoas, quem liga se foi um homem branco que não somente teve a ideia de lançar uma nota como também a escreveu e editou, ficando confortavelmente por trás das cortinas enquanto alguma menina ou pessoa negra se expõe para a faculdade? Uma pessoa que corresponde à identidade que o coletivo quer preservar está postando, e para eles só isso importa.
Falo isso com propriedade no assunto, como uma pessoa que já esteve inúmeras vezes nessa posição, chegando o ponto de algumas vezes me ligarem em momentos que não respondiam desesperados para que eu (e somente eu) fizesse a postagem de alguma nota, já que fui por quase dois anos a única pessoa de cor do coletivo. O tão criticado “discurso raso de identidade” é não somente difundido amplamente pelo coletivo como é o método utilizado em todas as situações semelhantes a esta por anos. A opressão sentida, portanto, deixa de ser uma razão a mais para lutar por uma sociedade mais justa e torna-se mero instrumento para viabilizar a manutenção do coletivo.
Os envolvidos (vítimas e agressores) foram todos afastados dos grupos, com as vítimas sendo permanentemente removidas dos espaços do coletivo e o agressor principal tendo sido removido do grupo geral após as denúncias terem chegado a público (contudo, ainda presente e ativo nos subgrupos mais nucleares do Contraponto, pelo menos estava presente até me removerem). Sendo assim, fico legitimamente preocupado com a condução por parte do coletivo de novas denúncias de abuso e violência sexual, já que não tiveram capacidade de lidar com nenhuma denúncia da maneira correta até o presente momento.
GA - Você menciona em sua nota que “assim como aconteceu comigo, algum calouro desavisado irá cometer o erro de priorizar essa política violenta acima de sua graduação, sua faculdade e seus amigos.”
Que conselho você poderia dar aos futuros calouros que se interessam por política universitária e tem pretensões de integrar o movimento estudantil?
Kinho - O conselho que posso dar não somente para os calouros da turma 195, mas para quaisquer pessoas que se interessarem pela política acadêmica é: calma. Recomendo fortemente que estude muito bem a história dos coletivos da faculdade, seus integrantes e linha política. Não se afobe em querer entrar instantaneamente em algum espaço, a faculdade leva cinco anos para ser concluída. Durante esse tempo muita coisa irá acontecer e você terá inúmeras oportunidades de se posicionar politicamente. Outro conselho interessante é que a luta não se resume ao movimento estudantil também. Existem inúmeras fundações, ONGs, organizações e projetos que podem ser muito mais a sua cara do que um coletivo propriamente dito. Só pensar na quantidade de cursinhos populares na periferia que fazem trabalho de base e educam a galera da quebrada; às vezes a luta pode ser ajudar a colocar o pessoal na universidade pública, historicamente ocupada pela elite, às vezes a luta pode ser fornecer alimento para quem não tem absolutamente nada pra comer. A luta pode ser ajudar aqueles que sofrem da violência policial, da violência por ser LGBTQIA+ e fornecer apoio. Militância não se resume ao que podemos fazer dentro das quatro paredes da universidade, mas em reconhecer que nossa atuação não tem limites pré estabelecidos.
Outro conselho que acredito ser de extrema importância é: muito, mas muito cuidado mesmo com o coleguismo. Você pode – e muito provavelmente será – ludibriado pela falsa presunção de amizade que um espaço como o movimento estudantil pode oferecer. Isso no médio-longo prazo tornará as coisas mais difíceis para você se desvencilhar. A falsa noção de amizade dentro de um coletivo, para além da criação de um sentimento de interdependência dentro da força pode trazer danos também para a sua saúde mental, e essa deve sempre ser a sua prioridade; não somente para a vida política, mas também para a acadêmica, pessoal e profissional. Se priorizar também faz bem.
Esses conselhos, embora generalistas, são os que vejo como mais importantes e os que gostaria de ter recebido de algum veterano no início da minha graduação. No início da faculdade, realmente, as coisas parecem ser mágicas. As festas, a integração, a liberdade recém-adquirida das amarras familiares podem parecer extremamente tentadoras – e são. Geralmente acompanhadas de uma mudança de cidade e relações sociais completamente novas. A política também entra nessa seara. E assim como temos paciência e cautela para escolher nosso curso e nossa faculdade, devemos ter esse cuidado também para decidir nossa força política e bandeiras a serem defendidas.
GA - Após a sua renúncia do cargo de Presidente do XI de Agosto e toda repercussão dessa crise institucional, como você acha que fica a continuidade do mandato da Chapa Enfrente? Há espaço para coesão ou o cenário de instabilidade não será algo passageiro?
Kinho - Queria destarte já comunicar meu irrestrito apoio a todos os companheiros do Levante/UJS nesse momento tão conturbado que a política franciscana se encontra. Imagino não ser nem um pouco fácil estar localizado no olho do furacão por algo que não tiveram culpa alguma e não possuírem outra opção senão conduzir esse processo com a lisura e celeridade necessárias para a comunidade acadêmica.
Até o presente momento, o coletivo Contraponto não sinalizou que irá se desligar da gestão do Centro Acadêmico, mesmo já tendo sido expulsos formalmente da chapa Enfrente e perdido toda a credibilidade para com o corpo estudantil. Essa postura irredutível de nada tem a contribuir com o avanço programático da entidade, tampouco se preocupa com aqueles que mais precisam do funcionamento saudável da gestão: os funcionários do XI, as entidades estudantis, os alunos que moram na Casa do Estudante, os calouros e, num sentido mais amplo, o corpo discente geral. Essa negação muito mais parece uma birra do que o suposto “golpe” que tentam imprimir, e é de um extremo mau-gosto e desrespeito para com a faculdade. Tenho certeza de que o coletivo, a essa altura, não representa mais os interesses de ninguém, senão seus próprios interesses particulares.
Para além dessa desmoralização do Centro Acadêmico perpetuado pelo Contraponto, surgiram uma série de novos questionamentos ao longo da semana com relação à manutenção da chapa Enfrente (agora Levante e UJS) na gestão do Centro Acadêmico. Foi levantada a indagação da possibilidade de continuação da gestão pelos cinco membros eleitos democraticamente na última eleição, já que consta em estatuto a necessidade de sete membros estatutários na gestão. As informações acerca da condução desse processo estão sendo levantadas pelos membros da Enfrente e espero, como estudante da Faculdade de Direito da USP, que a solução apareça o quanto antes.
No mais, vejo com muita dificuldade a manutenção da gestão com apenas cinco pessoas. Não sei se a melhor alternativa seria eleger em assembleia os novos membros que irão compor a gestão ou definir, também em assembleia, a realização de novas eleições para o centro acadêmico. Fato é que inexoravelmente devemos ter uma AGE para elucidar esses questionamentos e remover o Contraponto da gestão definitivamente. A entidade não pode continuar sendo refém dessa política violenta e ensimesmada do coletivo.
GA - Por fim, há algo que deseja comentar acerca das notas publicadas ou declarar algo além do já publicado?
Kinho - Deixo aqui, mais uma vez, meus agradecimentos a todo o pessoal da Gazeta Arcadas por cederem esse espaço para mim. Os últimos dias foram, sem sombra de dúvidas, repletos de emoções e revelações para todos nós. Com relação às inúmeras notas lançadas sucessivamente pelo Contraponto, não irei comentar, pois de nada tem a contribuir com a resolução dessa problemática; funcionam muito mais como uma apologética para o coletivo do que uma retratação para com a faculdade, como uma forma de lavar a alma do coletivo e “sabonetar” os pontos críticos que, até o presente momento, se mostraram omissos. Atuam como a lanterna de La Rochefoucauld, iluminando o então passado de lutas do coletivo que não se traduzem para a realidade atual, cheia de contradições.
Uma das frases que mais repeti durante os últimos dias para as pessoas com quem tive a oportunidade de conversar é que, para o Contraponto, todos são inimigos. A Travessia é inimiga, o Construção é inimigo. O Ombudsman é um inimigo mortal. Quando começamos a perceber que essa política baseada não nos valores da esquerda, mas sim no ódio ao diferente é danosa para o nosso psicológico e nossos relacionamentos pessoais, começamos a questionar (corretamente) esses valores compartilhados naquele espaço. E então, como num passe de mágica, nós nos tornamos os inimigos deles. Somos Judas, o traidor. Falo essas palavras, pois foram as designadas por membros do Contraponto à minha pessoa depois da minha saída.
Como posso ser o traidor se sempre me mantive fiel às mesmas lutas desde que me entendo por gente? Se sempre pude perceber que a sociedade brasileira na qual me insiro é extremamente violenta, desigual e racista? Como posso ser o Judas se nunca desfigurei as lutas e pautas mais importantes da nossa geração em troca de mero oportunismo político como muitos daquele lugar o fizeram? Eu continuo sendo a mesma pessoa de sempre, com meus erros e acertos. Com meus momentos de brilho e os momentos de escuridão, com as manias e medos inerentes de todo o ser humano. Não me torno o Judas, nem menos de esquerda por ver que uma organização que sobrevive de fazer mal ao próximo também me fez muito mal.
Haja posto isso, queria falar que nem todas as pessoas do Contraponto são ruins. Muitas delas, independentemente de terem saído ou não do coletivo, considero próximas a mim e desejo o bem. Contudo, não poderia afirmar que se trata da unanimidade – nem da maioria – dos que ainda permanecem ali. Muitas das pessoas, principalmente após a minha renúncia, deram as caras de quem realmente são. Lançaram-me xingamentos, me ofenderam, tentaram me desmoralizar. Como já disse em outra oportunidade, pois muito que bem. Fico no aguardo da justiça divina para que não somente o XI como a Faculdade como um todo supere esse momento de penumbra para que o Sol, mais uma vez, venha a raiar no Largo de São Francisco. Muito obrigado.

