Muitos podem achar que só os políticos por profissão exercem a política e que nós, cidadãos, só temos contato com ela no voto ou nos debates e campanhas eleitorais. Entretanto, não é isso que ocorre, muitos atos do nosso cotidiano se enquadram como atos políticos (às vezes até corruptos…)
Aristóteles, na obra Ética a Nicômaco, sustentou a ideia que originou a famosa frase “o homem é um animal político”, mas o que ele quis dizer com isso? Por meio deste conceito, o filósofo desejava mostrar que todos os seres humanos precisam uns dos outros para sobreviver na pólis, ou seja, na comunidade onde vivem.Além disso, é da natureza do homem viver em sociedade e buscar o bem comum através do compartilhamento da vida pública fazendo política.
Seguindo esse raciocínio, podemos compreender que a política está relacionada com o bem público, com a vida em conjunto, às regras, leis e normas. Este é, ou pelo menos deveria ser, seu fim último em todos os casos. Assim, para atingir o bem comum, as pessoas deveriam chegar a um consenso e tomar as melhores decisões para a vida coletiva. O ser humano, através da sua capacidade de raciocinar, entendeu a importância da vida comunitária de forma harmônica, mas para que essa harmonia exista, os conflitos precisam ser resolvidos de alguma forma e a política é o instrumento que nos permite resolvê-los.
Toda pessoa tem o direito e o dever de participar da política e de usá-la para o seu bem pessoal e para o bem da comunidade como um todo. Fazer política é entender e atuar para resolver os problemas que nos afetam em todos os âmbitos da nossa vida, seja individual, coletivo ou institucional. É o modo para transformar a sociedade, reflete nas nossas oportunidades de educação, saúde e muito mais. Dessa forma, todas as nossas ações são políticas.
Como assim, todas as nossas ações são políticas? É isso mesmo!.Ainda há quem considere que política é apenas aquilo que ocorre de quatro em quatro anos nas eleições,porém, é tudo que nos envolve no dia a dia, todas as decisões, as conversas e opiniões. A política é muito maior do que se pode imaginar.
Um exemplo cotidiano são as reuniões de condomínio, situações onde pessoas que dividem um espaço comum e precisam decidir juntas diversas questões.Primeiramente, é preciso escolher uma pessoa que as represente (o síndico), precisam deliberar sobre gastos, reformas, normas e diversas outras questões do condomínio, tudo isso por meio do debate e da escolha da maioria. Além desse, vários outros exemplos podem ser trazidos à tona. Desde organizar um abaixo assinado no bairro para deliberar sobre um pedido a ser feito na prefeitura, para uma melhoria no bairro; até uma simples conversa de um filho com mãe tentando convencê-la a deixar que ele vá à uma festa com os amigos. Tudo isso e muitos outros atos do nosso cotidiano são atos políticos.
O conceito de corrupção, infelizmente muito intrincado com a política atual, também está muito presente no dia a dia de todos nós, a qualquer momento que se ligue a televisão, aparecerá algum político corrupto e seus crimes. Provavelmente, a grande maioria das pessoas sente raiva e reprova suas ações, e com razão. Entretanto, se a política está em tudo no nosso cotidiano, será que qualquer um de nós também não comete, ou, pelo menos, já cometeu alguma vez, ações corruptas?
Várias ações do dia a dia são pequenas corrupções que passam despercebidas aos olhos de todos, ou no mínimo, da maior parte das pessoas. Subornar um policial, furar fila e claro, dentro do nosso universo franciscano, eu não poderia deixar de fora o bom e velho ato (das épocas presenciais),de assinar a lista de presença para o amigo. Logicamente, essas corrupções são “menores” do que as praticadas pelos grandes nomes políticos, mas apesar disso, não deixam de ser atos corruptos.
Assim, fica claro que a política não é um mecanismo exclusivo dos governantes, mas, sim, de todos nós, além disso, ela não está presente só nos discursos eleitorais, nos debates, nas promessas e no voto. Ela não está, nem um pouco distante de nós, está intrincada com todas as ações e decisões que tomamos no nosso cotidiano.
Tudo isso não se mostra como um fato ruim, porque a política é essencial, ela nos permite buscar o bem comum de forma harmônica, sem o uso da violência. A política nos ajuda a exercer o nosso direito de buscar nossos interesses individuais e coletivos da comunidade. Além disso, é necessário que tenhamos consciência que é muito difícil cobrar que os políticos sejam extremamente honestos e incorruptíveis se nós mesmo, como sociedade, não conseguimos, se quer, eliminar atos tão pequenos de corrupção.
Dessa forma, entendendo que todos esses atos se configuram como atos políticos, fica claro que não há como se abster da política, não podemos deixar as decisões nas mãos de outrem, pelo contrário, é muito importante nos posicionarmos, cabe a todos nós participar desse processo e contribuir para que ela tenha mais qualidade, para que gere melhores resultados para todos.
De certa forma, na verdade, não há como se abster porque até quando escolhemos não tomar partido sobre algo, estamos fazendo uma escolha. Ademais, geralmente, não fazer nada é escolher estar do lado do opressor, escolhendo não se posicionar a favor do oprimido. Por isso, o melhor é se informar e não hesitar em fazer suas escolhas políticas da melhor forma possível, sem deixar margens para que os outros decidam por nós ou que acabemos “defendendo oprimidos”.

