Eu sabia que você existia

No auge dos meus 8 anos de idade, era inimaginável uma relação social que não passasse pelo lúdico da brincadeira. Nos encontrávamos para brincar, e todas as amizades giravam em torno disso: quem brinca comigo no recreio, depois da aula, no feriado; e quem não brinca. Já a amizade entre adultos era uma grande incógnita — se eles não brincam, afinal, o que fazem para querer estarem juntos? Como são felizes esses seres de pouca imaginação? Curiosa, desocupada, e prematuramente crente na tese do homem social, pude constatar em pouco tempo de observação: eles conversam.

Digamos que uma pessoa solitária — a primeira pessoa da humanidade — desenvolve a linguagem sozinha e passa a falar com objetos inanimados (porque, enfim, é o que resta). Em determinado momento ela discute com as pedras, discorda das pedras, argumenta com as pedras, se irritar com as pedras, perdoar as pedras…e enquanto nos perguntamos se a solidão a enlouqueceu, a primeira pessoa da humanidade começa a perceber que conversar com as pedras é o mesmo que pensar (e, portanto, ela existe).

Essa anedota ilustra exageradamente a ânsia pelo diálogo, tão grande quanto a ânsia de estar no mundo e pensar sobre ele. Crescer, para mim, foi o grande exercício de trocar o lúdico pelo outro, pela conversa, pela troca despreocupada de informações de pouca relevância que, de certa forma, dão um sentido mais agradável à vida adulta.

Hoje, conversar tem sido um grande esforço, porque antes a conversa simplesmente brotava no meio da aula, no caminho para casa, no silêncio desconfortável de uma festa ruim. Agora ela tem data certa, hora marcada, link no Meet, e nenhum charme. Somos só eu e você, sem o imprevisível — talvez a obra do vizinho, ou o cachorro latindo do outro lado da rua, ou a moto que passa inconvenientemente na melhor parte da história…zero charme. E ainda assim, se assim não fosse, eu enlouqueceria de tanto falar com pedras.

“Eu sabia que você existia” parece o despertar da esquizofrenia. Em letras garrafais, no centro da maior pedra do país, um alívio: estamos todos aqui, invisíveis, conversando.

Digamos que pessoas solitárias — as primeiras pessoas de um novo mundo — desenvolveram uma nova forma de existir, e de saber que o outro também existe (porque, enfim, é o que resta). Através dos diálogos precários, somos testemunhas das vidas uns dos outros — e quando tudo virar História, e as futuras gerações se perguntarem o que fazíamos para continuarmos juntos, poderão constatar: eles conversavam (e, portanto, existiam).

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