Após anos de estudo e expectativa, consegui, finalmente, entrar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Foram anos lendo sobre as histórias daquelas Arcadas e imaginando como seria conseguir estudar ali. Pouco depois da minha aprovação, li um texto, escrito por um aluno, que aumentou ainda mais minhas expectativas: “Aqui farás amizades que perdurarão por toda tua vida. Aqui terás amores que poderão, um dia, talvez, serem superados, mas nunca esquecidos (…)”.
Com isso em mente, logo nos primeiros dias, tive a sorte de encontrar pessoas incríveis, calouros tão perdidos quanto eu na gigantesca cidade de São Paulo, com quem tive o prazer de construir minhas primeiras lembranças nessa nova vida. Um dia, em especial, consegue resumir um pouco de todos os perrengues e alegrias desse início.
Decidimos marcar um passeio pelo Centro, já que a grande maioria de nós apenas sabia o caminho da Estação do Anhangabaú até a San Fran. Começamos pela Rua São Bento, passando pelos comércios e nos deixando levar pelo vai e vem da multidão até a Praça do Patriarca. Passamos pelo Viaduto do Chá e, em pouco tempo, já estávamos na frente do Municipal. Que lugar lindo! Andamos mais um pouco pela região.
Como era de se esperar, nos perdemos e, não bastasse, começou a chover. Foi assim que aprendi uma das minhas primeiras lições em São Paulo: SEMPRE LEVE UM GUARDA-CHUVA! Aqui, o céu pode estar lindo, mas, em segundos, pode começar um dilúvio! Para a nossa sorte, só não ficamos mais molhados e perdidos, pois, no caminho, encontramos uma amiga que nos abrigou em seu guarda-chuva e nos trouxe de volta para a faculdade.
De volta às Arcadas, encharcados e famintos, fomos bandejar. Pela fila que encontramos, até o início da passarela, já sabíamos que era dia de strogotop, a maior iguaria do Bandejão. Enquanto esperávamos, fomos nos conhecendo melhor, contando nossas trajetórias até ali e expectativas para o nosso primeiro ano.
Após o almoço, nos juntamos a outros calouros da nossa sala no Pátio das Arcadas e começamos a traçar estratégias para completar as provas das Olimpíadas dos Calouros. A concorrência estava muito forte! Dias antes, uma das salas conseguiu “pegar emprestado” uma lixeira da faculdade rival e ganharam muitos pontos por isso, fazendo com que as demais precisassem se organizar para completar as provas o quanto antes.
Enquanto eles conversavam, fiquei olhando o Pátio, certamente um dos meus lugares preferidos da San Fran, imaginando quantas histórias já passaram por ali nessas muitas décadas. Compartilhei esse pensamento com um veterano ao meu lado. Para minha alegria, esse moço de sorriso largo começou a me contar várias histórias de pessoas admiráveis que passaram por ali e organizaram muitas mobilizações importantes para nossa história. Infelizmente, o tempo passou muito rápido e nossa conversa foi interrompida.
Principalmente para mim, estudante do noturno (o melhor turno, verdade seja dita), a noite estava apenas começando e eu precisava ir para a aula. Foi na sala João Mendes em que passei a maior parte das minhas noites. As aulas eram um grande desafio, algumas me faziam questionar se eu realmente havia sido alfabetizada, mas me apresentaram alguns professores muito queridos nesse meu primeiro ano.
Lembro que estava muito animada nessa noite, pois soube que fariam uma festa no Largo, o FICA, na sexta-feira às 23h59. Essa foi a melhor, e única, festa em que eu tive o prazer de estar na São Francisco. Nem imaginava o quanto tudo mudaria uma semana depois.
Tão bom poder revisitar essas boas memórias, mas insuficientes, em dias tão difíceis como os que vivemos ultimamente. Principalmente, pois sabemos que a situação ainda irá demorar a se estabilizar. Apenas desejo que, tão logo quanto possível, estejamos de volta às Arcadas.
Dedico esse texto, uma pequena homenagem, a todos os amigos que estiveram comigo nesses primeiros dias e, mais importante, continuaram comigo ao longo desse ano.

