Uma coisa é certa: se você vasculhar por aí por listas com os piores filmes que já ganharam o careca de ouro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, você certamente encontrará a produção “O Paciente Inglês“. Mas não se apresse no apedrejamento daquela que voz escreve, meu caro leitor. Antes de mais nada, quero deixar claro, em minha defesa, que o filme protagonizado pelo excelente Ralph Fiennes tem lugar cativo em meu coração. Sim, confesso que é um de meus longas favoritos. Entretanto, não posso deixar de analisar como a obra máxima do diretor inglês Anthony Minghella é, em sua essência, uma história de amor absolutamente simples e muito menos épica do que a crítica e o burburinho das premiações a fez parecer à época de seu lançamento, em 1996.
Antes que se inicie a esculhambação, vamos nos deter à análise do filme. Um olhar mais aguçado para a produção talvez nos dê algumas respostas do motivo de sua não-genialidade.
Comecemos então pelo simples: é uma história de amor. Não me diga! Mas não uma história de amor qualquer, é vendido com uma história de amor épica. E é aí que começam os primeiros problemas. Ao passo que o filme vai avançando fica cada vez mais claro que a ideia do épico, do grandioso ou mesmo de um filme que trate de sentimentos profundos se perde por completo.
No período imediatamente seguinte à Segunda Guerra Mundial, encontramos o personagem do Conde László de Almásy, interpretado pelo melancólico Ralph Fiennes, com o corpo totalmente queimado recebendo os cuidados da dedicada enfermeira Hana, interpretada por Juliette Binoche. O contato entre enfermeira e paciente gera um respeito mútuo que leva Hana a assumir a responsabilidade de cuidar de László. Sentindo que suas esforças estão se esgotando, o Conde resolve colocar suas lembranças em dia e é aí que somos apresentados ao outro tempo do filme, o período durante a guerra, quando Almásy conheceu Katharine Clifton, mulher que teria vital importância em seu destino.
Estamos falando de um filme dramático, portanto não espere risos ou situações engraçadas. Aliás, não espere também cenas muito profundas, personagens complexos ou algum trauma do passado que vem à tona e gera uma verdadeira avalanche. Não espere nada! Aqui é preciso ter coragem para aguentar a lentidão com a qual o filme vai se arrastando e levando o espectador junto. Mas não se apavore: vá com fé e saiba que, se vencer às quase três horas de filme você é um vencedor, um ser humano resiliente.
Voltando à trama, é no tempo da Guerra que a história se desenrola. Almásy é um homem introvertido, podre de rico, viajante e conhecedor de inúmeras culturas (fala muitas línguas). Aqui me perco no profissionalismo de Ralph Fiennes, ou em sua versão moderna de Sr. Darcy. Que o astro britânico está acostumado a fazer personagens caladões, isso a gente já sabe. Entretanto, existem momentos em que o ator parece até mesmo desconfortável com o andamento da coisa, mesmo assim ele consegue imprimir um ar de mistério, princialmente na primeira meia hora de filme: quem é essa cara? Por que ficou assim? O que ele carrega? E o que é aquele livro que ele não larga?
Certamente a nossa empatia para com o Conde se deve aos esforços de Fiennes. A caracterização do seu personagem também não ajuda muito. Almásy está com o corpo todo queimado e em alguns momentos isso gera curiosidade -talvez a maior de todas, como ele ficou assim? Mas em alguns closes de câmera sobre suas mãos percebemos que as queimaduras não são uma maquiagem e sim luvas, as dobras são tão visíveis que chegam a ser risíveis.
A sempre competente Kristin Scott Thomas (será que você lembra dela explodindo dentro carro no primeiro filme da franquia Missão Impossível?) é a que mais tem oportunidade de fazer algo com seu personagem em um roteiro que deu poucas oportunidades aos seus astros. Sua Katherine é carismática, alegre e séria nos momentos certos. Não posso deixar de pensar que a sensação de um romance crível seja mais por ela do que pelo Conde. Estamos falando de uma amor proibido que envolve Katherine, casada com o Discurso do Rei, e Almásy, homem que prefere se manter distante de todos, mas que sem resistir aos encantos da moça (eu não resistiria àquele sorriso) acaba sucumbindo à paixão.
Quanto a Juliette e sua Hana não existe muito o que dizer, além do fato de que ela está sempre ótima e competente. Hana é responsável por alguns belos momentos do filme como a cena da catedral ou a pequena festa na chuva encabeçada por ela. Sua personagem guarda marcas da guerra, tendo perdido pessoas queridas o que lhe confere uma certa profundidade e o temor constante da perda.
Para um roteiro tão simples que envolve uma paixão ardente com final trágico, outros aspectos da produção cinematográfica podem fazer o espectador encher os olhos e aguentar com mais firmeza as mais de duas horas de filme. Temos ainda o ex-ladrão Caravaggio (Willem Dafoe), que tem contas a acertar com o Conde. Infelizmente um papel pequeno para um ator tão monstruosamente bom como Dafoe. E se a maquiagem de Almásy erra em determinados pontos, ela está ótima durante todo restante do filme. Nem menciono a fotografia e a direção de arte, espetaculares, onde os enquadramentos (planos e ângulos) nas cenas do deserto dão o tom épico tão almejado pelo diretor.
“O Paciente Inglês” não é decepção total, mas é muito menos do que se esperava. Erra com uma premissa amorosa frouxa, mas acerta em termos técnicos. Certamente a qualidade do elenco e o olhar apurado de Minghuella fizeram a diferença aqui, no entanto, não justificam como esse filme chegou tão longe com a crítica (e os prêmios) ou mesmo com o público. Parece certo que o ano de 1996 estava carente de romances tórridos proibidos, com ares de épico, e não sobrou muita escolha - ou critério - para eleger o melhor daquela temporada, e superestimou o que tinha disponível.

