Há 71 anos o jornalista e escritor britânico George Orwell publicou “1984”, uma verdadeira metonímia do gênero das distopias. Nos é apresentado um futuro em que o mundo segue as rédeas de três grandes Estados Totalitários em guerra. O Estado da “Oceania”, no que antes era a Inglaterra, é palco de um governo que vigia cada ação de seus cidadãos, baniu a liberdade de expressão, reescreve a história a seu sabor, tornou crime relações sexuais sem fins reprodutivos e persegue e tortura a todos os opositores do regime do “Grande Irmão”, o líder do partido a qual todos devem venerar publicamente como um Deus em determinada hora do dia. Não o bastante, o governo caminha para a imposição de uma nova linguagem que, declaradamente, cerceie o pensamento de tal modo que seja impossível criticar o regime.
Orwell, que foi um autodeclarado socialista durante toda a vida, ironicamente, escreveu o livro enquanto estava sob vigilância do governo britânico, que suspeitava de suas supostas ligações a Partidos Comunistas da época. Mais tarde, ficou revelado que uma das grandes inspirações de Orwell foi o próprio período Stalinista da URSS, bem como seu temor de que as democracias ocidentais estariam caminhando, não tão lentamente, para sistemas políticos parecidos.
A grande distinção de Orwell parece ser a maneira como captou e transmitiu a ideia de que a opressão de um Estado tirânico não se dá simplesmente pela força bruta, mas quase sempre inclui maneiras de controle do próprio pensamento e livre-arbítrio1. Como Theodore Dalrymple bem coloca, a manipulação da informação é vital para sustentar a mitologia dos benefícios do autoritarismo, dado que quase sempre são falsos, o que torna esses regimes injustificáveis. É no mínimo irônico que O Grande irmão, Czares Russos, Stalin ou qualquer autocrata sejam tão capazes de trazer o paraíso para a terra e, ao mesmo tempo, se incomodem e movimentem forças ao menor sinal de qualquer “mosca” que os questione. Que Deuses são esses tão sensíveis a seus inferiores?2.
1984 é um livro notável, porém, incompleto, melhor dizendo, com um foco míope. Orwell constrói uma narrativa típica de um mito. Os personagens são representações de ideias/virtudes/figuras notáveis, onde a única “pessoa” parece ser o próprio protagonista, que se desgraça ou triunfa pela relação que têm com suas próprias ideias e alma. Nesse sentido, o mundo do Grande irmão representa o colapso do humano diante daquilo que naturalmente o desgosta: o medo, o falso e a violência. Contudo, as tiranias modernas se baseiam muito mais naquilo que o livro de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo” retrata. Não é aquilo que odiamos que tem mais chances de nos destruir, mas o excesso daquilo que intuitivamente amamos: a informação, que nos deixa imobilizados por sua quantidade e discrepância; o prazer, que quando ao julgo de outros, nos torna servos; a segurança, o mais forte impulso para abrirmos mão da liberdade.
No final das contas, 1984 não precisou ser censurado para que governos democráticos, frise-se, do mundo inteiro invadissem a privacidade de milhares de cidadãos, como relevou Edward Snowden. Não é preciso um “Ministério da Verdade” para que notícias falsas sejam mais relevantes do que nunca no destino político das sociedades, ainda que, especialmente o governo brasileiro, também se aposte na não divulgação de dados3. Tampouco parece ser prioritariamente o medo que leva a escalada populista-autoritária desse início de século, pelo menos não mais do que o desejo de imposição e pertencimento coletivo de grupos e ideologias autoritárias, algo próximo, mas distorcido, do que Nietzsche chamaria de “vontade de poder”, ou Savigny de “espirito do povo”. Tocqueville, já no século XIX, previu que o autoritarismo, em um ritmo mais acelerado do que as democracias, aprende e se adapta, sendo que o maior risco do futuro seria uma forma de “servidão voluntária”.
Livros como os de Orwell não são apenas um aviso de uma possível escuridão, mas, como explica Karl Popper4, uma das melhores maneiras de evita-la: as perspectivas de um futuro sombrio, quanto mais “realistas” forem, mais podem nos direcionar para ações e pensamentos que podem evitar esse mesmo futuro. Felizmente, isso ainda parece possível, apesar dos apesares.
Referências
1LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. eBooksBrasil. 2006.
2 DALRYMPLE, Theodore. Nossa cultura… ou o que restou dela. “Como ler uma sociedade”. São Paulo: É realizações. pp. 205-219.
3“Brasil é destaque no mundo por não divulgar dados de mortes por covid-19”, BBC Brasil, 8 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52967730>
4 POPPER, Karl. A Miséria do Historicismo. EDUSP, 1980.

