Puro Suco - Rataria Popular Brasileira

Em um mundo em que o ‘trap’ ascende no cenário internacional e nacional, popularizando-se e atingindo ambientes que, até então, não eram atingidos pelo hip-hop (lato sensu), o álbum “Rataria Popular Brasileira”, que aqui será chamado de “RPB”, propõe uma volta às origens do hip-hop a partir de elementos nacionais: o rap (aqui no sentido do ‘boom-bap’) tropicalista. Lançado em 25 de novembro de 2019, o álbum “Rataria Popular Brasileira” do grupo Puro Suco, cujos integrantes são os músicos Murica e Prs, representa uma nova tendência, um retorno às velhas origens.

A popularização do hip-hop trazida pelo ‘trap’, segundo a proposta do RPB, não é benéfica. Tal afirmação não é uma recusa ao que o povo consome, uma espécie de ‘elitização da cultura’, pelo contrário, o próprio nome do álbum já traz como certo o apreço do grupo pelo “popular”, mas, não bastando ser popular, há de ser, também, “brasileira”. Ademais, na música que encerra o álbum, “malabares” , adverte-se “não confunda popular com pop”, bem como em “Xote” em que dizem “Eu agradeço ao povo brasileiro: norte, centro, sul inteiro, onde reinou o baião”, ou seja, o problema não é com quem consome, apenas , mas com o objeto de consumo.

A crítica que se faz ao gênero do trap é quanto ao que ele representa, conforme se pode inferir pelo que se traz no início da ‘intro’, chamada de “RPB”: “o barato não é Estados Unidos, nós tá no Brasil, não somos a nata da música, nós somos o submundo, o rap é o submundo, tem que agir como o submundo”. Isto é, a proposta do álbum é de, justamente, voltar às raízes da brasilidade. O trap, nessa abordagem, é mais uma ferramenta de dominação cultural norte-americana sobre as culturas locais, que afasta os elementos localmente produzidos.

Essa intervenção do gênero norte-americano nas culturas locais, que acaba por propagar símbolos de um estilo de vida (uma nova forma de propagar um novo “american way of life”) é duramente criticado durante todo o álbum, não só por referências diretas, mas pela adoção de uma simbologia completamente contrária à propagada pelo gênero trap.

Dentre esse plexo de símbolos e premissas que contrariam a exaltação do estilo de vida do “trap”, de forma implícita, isto é, pela adoção de princípios opostos, ou, ao menos, não compatíveis, com o gênero norte-americano. Nesse sentido, destacam-se os seguintes trechos: “porque a felicidade sei que nunca custou nada, chapa, e sei que nunca vai custar”, “não quero teus métodos meritocratas”, “somos o que temos? […] somos o que somos, eu to ligado, quanto menos [eu] tiver, mais eu sou dono de mim” e “parece que tem um rato dentro da minha carteira”. Todos esses trechos contrariam veemente a ostentação, a ideia de que a aquisição material representa a “vitória”, um objetivo da vida per se.

Ademais, também há a exaltação da cultura local, como supracitado, a volta da brasilidade: “Sobre a cabeça os aviões, sobre meus pés os caminhões, que derrubei com meus refrões, aos mc’s, tenham culhões” (em plena referência à “Tropicália”, de Caetano); “Eu peço a benção sagrada, a benção Cazuza, Mato Grosso, Tim Maia e Gonzaga, a benção Jorge Ben. Licença Racionais […] a benção papai Caetano e mamãe Cássia, saravá Carolina de Jesus, saravá Sérgio Vaz e Clarice, saravá Marighella, saravá Pedro Bala” e “eu sigo, sem imitar gringo […] mostra pro mundo que o Migos precisa aprender com a Tribo da Periferia” (referência ao grupo Migos, um dos, senão o, grupo de trap mais famoso do mundo, obviamente, norte-americano, e ao grupo Tribo da Periferia, grupo formado na Planaltina, no Distrito Federal).

Quando se acompanha o cenário nacional do hip-hop, em todas suas vertentes, faz-se interessante o fato de que é no distrito federal, tanto nas músicas (vide o próprio grupo puro suco, cujos membros são oriundos de lá), quanto nas batalhas de rima (principalmente, com a “Batalha do Museu”), que há um forte apego à brasilidade e ao boom-bap do início do século, diferente de lugares como a própria cidade de São Paulo, que está em plena sintonia com os trabalhos realizados internacionalmente.

A influência estrangeira do trap não é apenas prejudicial. Em verdade, ela prega elementos positivos, como a ascensão econômica de negros norte-americanos por meio do gênero, todavia, a importação do gênero para um contexto totalmente diferente, serve mais como um instrumento de dominação cultural do que à arte. Todavia, fenômenos recentes, como o “Brime” e o “trapfunk” têm conseguido sobreviver às interferências inserindo elementos locais em gêneros estrangeiros, porém, esse fenômeno é extremamente recente, e o que se destaca ainda é o trap importado. Por fim, cabe dizer que a cultura global é um fenômeno irrefreável, todavia, a produção cultural de um país é um dos mais ricos elementos de integração social.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap