I.
A procurava em vão. A cama estava vazia. Deitado, nu, sozinho. Como isso viria a lhe
acontecer? Noites e noites e mais noites dormindo com ela, como viria ele estar sozinho
daquele modo? Não, era uma alucinação, ele não podia estar sozinho em seu apartamento.
Levantou-se e foi à procura de sua amada; para a sua surpresa, encontrou o apartamento tão vazio quanto quando se mudara. “Júlia?”, interrogou algumas vezes, em vão, a procura dessa que, aparentemente, lhe deixara.
Sim, estava sozinho, pode concluir facilmente, depois de alguns minutos de
indagação. Sentou-se no sofá e percebeu sua cabeça latejando em dor. Na noite anterior,
tomou um famigerado “porre homérico”, como bem descreveu o escritor Fernando Sabino.
Começou a ter reminiscências da memória, na medida que o efeito alcóolico se dissipava.
Ele, logo constatou, não esteve de todo sozinho. Esteve acompanhado, até poucas horas atrás, por uma estudante de Letras de intercâmbio, provavelmente norueguesa.
Ah sim, a conhecera em uma festa em um bar que frequentava com os amigos do
jornal ali na região de Pinheiros. Ele, recém-formado, conquistou a simpatia de uns
estudantes que lá estavam, que logo o apresentaram à sua amante nórdica. Qual era o nome dela mesmo? Se queixava, em vão. E Júlia? Outro pensamento presente em sua mente estilhaçada.
Conquistou a norueguesa, lembrou-se. Seu jeito de carioca já impressionava os e as
paulistas, então uma gringa não foi difícil. Chegaram a se deitar juntos? Sim, constatou o
detetive de si mesmo. Mas, ela logo teve de partir após finalizarem, afinal tinha aula no dia
seguinte, e nem todos podiam se dar o luxo de tomar todas em uma quarta-feira; nem mesmo ele! Insistiu, mesmo assim, no álcool. Terminou, sozinho, uma garrafa de scotch que ganhara de aniversário dos amigos algumas horas antes, ali no bar que estavam. Moça adorável a escandinava, simpática e ousada, como são os povos do norte da Europa, depois de certa intimidade. Ele estava frustrado, por não conseguir lembrar do nome dela, de forma alguma. Antes de deitar-se, foi escrever um pouco, era metido a romancista e estava tentando escrever um romance sobre a boêmia-intelectual (ou pseudo-intelectual) da capital paulista.
Sim, sim, um boêmio intelectual! Um descrição tão impressionante que ele detinha de
si mesmo, pois o remetia a tempos que ele ousou a viver mentalmente, por meio de seus
preciosos livros, como na França de Rimbaud, nos roaring twenties de Fitzgerald e
Hemingway, no Rio de Sabino e Lispector e até na São Paulo tropicalista, de Caetano e Gil.
Um boêmio intelectual, era o que ele era. Ou que almejava ser. Só precisava de seu livro, e
estaria feito! Seria a próxima estrela literária, tinha plena consciência disso. Por isso vivia
daquela maneira, para juntar as experiências necessárias e desvendar o ethos de sua geração.
Era isso! Em nome da literatura, bebia e conhecia as mais diversas mulheres, no meio
da noite paulistana, que o faziam lembrar de seu tempo como jovem na capital fluminense.
Uma forma de vida diferenciada, regada a uísque e bons papos! Com a participação de
ilustres figuras, de seus amigos e amantes. Mas, e Júlia? Pensamentos fixados nessa mulher que conhecera no ano anterior, colega de faculdade e de vida conjugal.
II.
Se conheceram, propriamente dizendo — uma vez que se viram pelos corredores da
faculdade durante algum tempo — no último ano do curso. O ano da ressaca. O ano em que
todos que aproveitaram os anos de graduação estavam cansados e queriam uma vida mais
tranquila, e os que não aproveitaram estavam correndo contra o tempo, a fim de aproveitar ao máximo o uso da alcunha de “universitário” ainda. Júlia era uma daquelas espécies raras que misturava esses dois tipos de pessoa em si, queria aproveitar as festas faraônicas do caos encarnado das odisseias universitárias, enquanto que também desejava o conforto e a segurança de uma vida a dois. Já ele, nas suas próprias experiências tinha uma tendência de farrista, contudo, estava caminhando para os seus 25 anos, a vida tranquila, de casal talvez o atraísse mais naquele momento.
De fato se conheceram, por meio de amigos em comum, disciplinas feitas nos mesmos horários, coincidências nos caminhos de volta para casa ou do trabalho, algumas festas. Por fim, encontros marcados apenas os dois. Cafés, bares, museus e bibliotecas. Intimidade. Eram como dois átomos, com uma probabilidade ínfima de colisão e encontro, porém, aí estavam provando empiricamente que se encontraram. Eram improváveis e desencontrados. Não tinham quase nada em comum, tirando o curso que compartilhavam e a forma como lidavam com sua empatia que detinham por seus mais queridos amigos. Não tinham quase nada em comum, mas se gostavam. Ali estavam, se encarando frente a frente, no apartamento dela, no bairro de Vila Mariana, totalmente despidos. Ela, nascida e criada em São Paulo. Ele, um carioca translocado por causa da graduação. Estavam juntos. Era isso que importava.
E assim seguiu, por quase um ano. Perpassando todo o último ano de graduação, a
formatura, os primeiros empregos. Ela foi morar com ele. Eram um casal, finalmente. Mas
eram tão diferentes. Ela era, como dizer isso de uma forma coerente… era como uma femme fatale. Ele, um boêmio incurável. Porém, algo havia mudado. Ele se tornara um romântico inveterado! Sim, além de um romancista que almejava ser, começou até a se arriscar nos versinhos poéticos!
A princípio essas diferenças não foram tão gritantes assim. Ela continuou
frequentando as festas e boates que queria, no começo com a presença de seu companheiro, mas logo ele não conseguia acompanhar seu ritmo. Suas energias e prioridades eram evidentemente diferentes. Ela queria que ele saísse mais com ela, queria que ele vivesse com ela. Viver? Para ele, a vida estava além dos bares, das músicas altas e comerciais e das conversas inaudíveis pela noite. Agora, a vida era “A Morte em Veneza”, de Thomas Mann, ou “Sagarana”, de Guimarães Rosa. Ela definitivamente não se importava. Enxergava um certo mérito na aspiração literária de seu parceiro, mas não conseguia compreender a profundidade dessa apelação. Na verdade, não apelava o suficiente para ela. Suas paixões eram outras.
Isso o fascinava. Muitos achariam de uma vaidade ou falta de profundidade, mas ele
via nesses características justamente o que o fazia gostar tanto e admirar sua companheira; além de sua exuberante beleza física e seu passado recheado de histórias interessantíssimas, com fugazes casos de amor, belos e charmosos, nas praças de Milão ou na riviera francesa. Era uma exploradora de mundos. Ele também, de outro modo. Ela despertava todo o tipo de fascinação nele, por tudo que ele não viveu mundo afora, apenas na imaginação literária. “A vaidade excita”, como escrevera certa vez o poeta-músico paulistano, Criolo.
Mas, esse comportamento permanentemente hedonista de Júlia afetava a insegurança
dele. Aquela mulher, com tantos dotes e com a aparência que a sociedade julga como,
evidentemente, atraente, estava junto com ele. Além de suas pretensões intelectuais, se sentia fraco. Se sentia apenas um fraco. Mesmo nos seus anos de farra adolescente e universitária, a grande parte de sua coragem era advento de uma boa dose álcool. Era um
fraco, junto a uma mulher dona de si. Com isso, uma profunda melancolia se apoderou de sua alma. Acreditava em alma? Para fins de expressão de sua subjetividade, acreditava.
Ela saia sozinha agora, sempre. Parou de insistir para que ele a acompanhasse; ele
ficava em casa, remoendo as possibilidades tenebrosas do que poderia acontecer. Achar
alguém melhor que ele, mais interessante que ele, mais parecido com as rotinas e pretensões dela. O que ela esperava de alguém? O fato dela estar com outrem não o incomodava em si, eles tinham um certo comportamento pós-moderno de sair com outras pessoas, validado pela anuência do companheiro. O que o incomodava era o quanto ela precisava disso. O quanto ela precisava dele, na verdade?
III.
Seu desejo profundo. A norueguesa. Não, Júlia. Júlia era seu norte. Assim como era
seu sul, leste e oeste. “My working week and my Sunday rest”, como nos versos de W.H.
Auden. Ela estava ali, e não estava. Sentia-a cada vez mais inalcançável. Sua melancolia
aumentava. Sentia um certo conforto em sua inércia, em sua inabilidade de comunicação e de efetivamente fazer algo, enquanto que se afundava em um poço de solidão e desilusão,
apostando em uma saída deus ex machina para esse relacionamento fadado ao fracasso.
Ela também sentia algo de diferente. Mas não falavam. Não se comunicavam sobre isso e,
fatalmente, se desentendiam. Ela saia mais e ele menos. Se diziam amantes apaixonados,
mesmo tomando rumos opostos em suas vidas. Um tom agridoce, passivo-agressivo, começou a se formar em suas interações cada vez mais escassas. Lhe enviava poemas a esmo, que diziam dos perigos de se apaixonar e das armadilhas do amor. Começou a sair novamente, mas não com ela. Saía com amigos, enchia a cara de álcool e recitava Pablo Neruda em saraus aleatórios espalhados por toda a cidade, especialmente para as frequentadoras deste tipo de evento. Ela o respondia contando as histórias amorosas que vivera nesses últimos tempos. Essa era a típica rotina de café da manhã dos dois, sutilmente se provocando, a fim de extrair algum sentimento, alguma palavra ou reação do outro. Mesmo que terrível.
E era terrível de fato. Desejava-a profundamente. De uma forma quase obsessiva.
Mesmo sabendo que faziam mal um para o outro. E ela? A verdade é que não se sabe se ela o desejava tanto assim, desde o começo. Talvez fosse só luxúria. Ou experimentação. Ou
qualquer outra coisa. Ele a amava, tinha certeza disso. Tinha certeza que a amava,
especialmente quando estava se deitando com outras pessoas. A buscava em qualquer outra pessoa. E todas elas eram Júlia. E Júlia, onde ela estava, na realidade? Sua majestade
luxuriosa.
Foi assim que conheceu Nora. Nora! A norueguesa, lembrou-se enfim o nome dela.
Não era Júlia, afinal. Seu aniversário! Se esquecera que era seu aniversário! Júlia o convidara para sair, e foram, depois do expediente, no bar que seus amigos frequentam, e lá estavam todos! Seus amigos, amigos dos amigos e outros conhecidos. Até uns estudantes de Letras. Júlia havia prometido que mudaria, se eles conversassem verdadeiramente e ele mudasse também. Atiçou a imaginação e todo o esplendor romântico na alma dele. Saíram mais cedo, da própria festa de aniversário dele, uma saída à francesa. Foram direto ao apartamento dele, em busca da salvação eterna ou qualquer intervenção divina. Em ato sagrado, ele afirmou a si mesmo que sim, estava vivo. A amava profundamente, e dizia isso com convicção.
Quando Júlia chegou no apartamento, se deparou com ele e Nora entrelaçados, como
um corpo único, uma fusão de mundos: a Baía de Guanabara e a Península Escandinava. Ele levantou-se, de súbito, e viu a expressão serena de Júlia, aquela expressão de quando se
percebe que o espetáculo acabou. Uma expressão que mistura satisfação com incredulidade. Não disse nada, apenas um singelo “adeus” e partiu, deixando as chaves em cima da mesa. Ele ficou atônito. Como deixou de perceber isso? Como deixou? Nora assistiu a cena em silêncio, como uma estátua de mármore bem branco, condizente com sua palidez. Ele tentou reconstruir suas memórias. Estava com a mente estilhaçada.
Era verdade, sim, Júlia nunca amou ele de fato, mas detinha uma terna afeição por ele,
sua companhia e amizade. Eram sim, bons amigos. Absolutamente diferentes, mas amigos. Como não percebera isso? Júlia havia o deixado há mais de um mês… Entretanto, era Júlia que via quando estava com Nora. Não, não a conhecera naquela noite. Já se conheciam há um tempo. Ela era convidada da festa. Ela era Nora, não era Júlia, seu mais obscuro e profundo desejo.
Deixou-se mergulhar em uma espiral, na órbita de Júlia, já não raciocinava direito
com suas emoções, muito menos com os abusos alcoólicos. Meu Deus, não era Júlia! E
acreditava em Deus? Para fins de salvação de sua própria alma, acreditava. Júlia acreditava. Nora acreditava? Ele chamava Nora de Júlia e ela gostava. Queria ser outrem queria ser objeto de desejo dele. Não, aquilo estava errado. Não era o que deveria ser. Júlia o deixara! Como não pôde perceber isso?! Nora o acompanhou até o sofá e viu toda a crise se desenrolar na mente dele. Olhou nos seus olhos claros e disse que não queria mais lhe ver, não queria ver ninguém que não fosse Júlia. Júlia se foi… Nora saiu abalada, mas firme, como uma verdadeira escandinava. E ele? Sozinho, bêbado chamando por Júlia, imperatriz de sua obsessão, em um apartamento soturnamente vazio.

