O que dizer de Eros?

O que dizer de Eros, o deus do amor? Ou melhor, o deus do desejo, o filho querido e
preciso de Afrodite… Ah Eros, quanto mal não podia lhe dizer, afinal, o próprio Zeus me encomendara esse texto e deixou claro que queria um conteúdo difamatório…
Mas quem sou eu, temo mais a Eros do que a Zeus. É sempre bom os sensatos terem
em mente que o único que subjugou até mesmo o poderoso Zeus foi Eros. Foi Eros, que com sua flecha maldita, o fizera trair tantas vezes a pobre Hera. Sem Eros, é mister que se lembre, não haveria Europa, Alcmena, Dânae, Leda, Sêmele, Io, Ganímedes e tantos outros. Se houvesse, não passariam de pessoas e jamais teriam seus nomes cantados pelas musas. É
Eros, então, que povoou o Olimpo com os frutos divinos desses amores. Sem Eros não há nada, não há história.
Ai meu caro Eros, veja na encrenca em que eu me meto por ti… Contrariar o próprio
Zeus, só para ter o anjinho de asas e flechas afiadas do meu lado. Faço isso com orgulho e sem medo. Sou grato a ti, meu deus predileto. Tu me deste um bom presente, um ótimo presente. Me deste um amor daqueles carnais, daqueles que não esmorecem nem esfriam, apenas esquentam frente as adversidades das Moiras. Eu bem sei que não era digno dessa graça, mas, mesmo assim, sem ordem de Afrodite, tu flechaste meu coração e o dela. Sei que tua mãe há de ter ficado irado contigo, mas nada pode fazer, a não consentir e dar à união que tu selaste o amor correspondido.
Sem ti, meu deus, não seria nada. Sem ti, não a teria. Sem ti, o mundo é sem graça.
Falo a verdade quando digo que, em minha singela opinião, todos os deuses do Olimpo
deviam ser gratos a ti. Afinal de contas, sem você muitos deles não existiriam e os que existissem não veriam graça no mundo, já que toda história que agrada um deus tem como motor: o amor, o desejo, tu.
Sei que muitas vezes te chamam de moleque, teimoso, mimado e que só descansa quando tem o que quer. É bem verdade que muitas vezes se comporta dessa forma, meu deus… Mas se assim o faz é porque bem sabes as recompensas deliciosas que só tu podes proporcionar aos corações humanos. O senhor sabe de tudo que um coração precisa e, só por
isso, causa imensa dor quando não tem o que quer, não por mimo, mas como estimulo, para que a vítima de tua flechada corra atrás do prazer que é entregar-se nos seus braços e viver o
desejo, o prazer, o amor.
Ai meu bom deus… Sou seu fiel escravo e Zeus pode bem me fulminar com um raio
se assim quiser, mas não podia me furtar de narrar a tua glória, de maldizer a tudo e a todos para te bendizer, pois tu me deste a tua glória, a tua benção. Onde quer que eu vá me sinto abençoado pelo deus mais poderoso, por ninguém menos do que Eros.
O senhor bem sabe a que benção estou me referindo, pois o senhor também já sofreu
com tua própria flechada. Você (e aqui mudo o pronome… Para que formalidades se já estamos íntimos?) e minha querida Psiquê hoje vivem felizes no esplendor do Olimpo, mas nem sempre fora assim, não é mesmo? Tua mãe não queria Psiquê, pelo contrário, tinha inveja pela beleza dela e fez com que você a castigasse, tarefa que prontamente aceitou, já que não tinha ideia da moça que iria enfrentar.
Foi até a jovem Psiquê, que estava dormindo, e quando a olhou ali tão perto se assustou, num encantamento, com tamanha beleza… Todo atrapalhado pelo susto e fascinado pela moça, não conseguiu castigá-la e decidiu partir, mas, atordoando-se sem querer tirar os olhos de Psiquê, deixou-se penetrar pela própria flecha… Estava feito, o deus do amor, que
subjuga até o poderoso Zeus, subjugou a si mesmo.
Você bem sabe do resto da história, afinal, é a história da sua vida. Só o senhor pode
dizer o quanto sofreu com a resistência de tua mãe, com veneno que as irmãs de Psiquê destilaram na jovem moça, e com os desafios que Afrodite a fizera sofrer. Tenho certeza, meu deus, de que tudo valeu a pena. Tenho certeza de que só com essa tortuosa história Psiquê conseguiria deixar a mortalidade e passar a repousar no Olimpo. Tenho certeza de que valeu a pena, meu deus, pois o senhor também me deu minha Psiquê, também me deu a
história tortuosa e a dor do amor. Aquela dor que o senhor investe nos corações para que eles tenham coragem – ou melhor, necessidade – de lutar pelo que desejam, pelo que querem,
pelo que amam.
Graças a ti, Eros, eu lutei pela minha Psiquê, mas sei que todo meu esforço seria em vão se o senhor não consentisse e com um simples gesto não flechasse o coração dela.

Não sou capaz de dizer mal de ti. Que Zeus me perdoe, mas é melhor ser amigo de
Eros e inimigo de Zeus, do que ter a graça do trovão e o ódio do amor…

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