A evolução que partiu de Branca de Neve e chegou até Raya é marcada pelas exigências das expectadoras do mundo real e pela necessidade de adaptação das características das princesas para agradar um público que nunca quis ser visto como inocente, submisso e indefeso.
A concepção mitológica da “donzela”, que conhecemos desde as epopeias gregas, define a beleza e a autoestima como as principais características da mulher e sua maior fonte de poder.
Essa concepção dominou a cultura ocidental e, não coincidentemente, os primeiros filmes de princesas trazem personagens que refletem o padrão de beleza de sua época, atreladas às concepções entendidas como intrinsecamente femininas, dentre as quais o sonho do casamento.
Princesas como Branca de Neve (1937), Cinderela (1950), Aurora (Bela Adormecida, 1959) e Ariel (Pequena Sereia, 1989), têm no encontro com o príncipe encantado o principal objetivo de suas histórias.
Seja na floresta, num vilarejo ou no mar, suas sagas são construídas em torno dos obstáculos para que esse encontro amoroso aconteça, criados, no geral, pela vilã da história, que põe a princesa em uma situação de perigo da qual ela somente sairá a partir de algum ato heroico performado pelo príncipe encantado. As próprias relações entre a princesa e a vilã são imbuídas de rivalidade feminina e trazem a oposição entre uma menina-mulher que atende ao padrão de beleza e uma outra que é ou seu completo contraponto (Madrasta e Úrsula) ou plenamente consumida pela inveja (Rainha Má e Malévola).
Essas histórias, que se iniciam com a ocasião do amor à primeira vista e terminam com a esperada união matrimonial, deixam de fora quaisquer outras pretensões das princesas. Isso nos leva a perguntar se de fato elas serão felizes para sempre, ou se sua vida pós casamento será plenamente tediosa – como ocorre em Cinderela II (2002).
A isso, soma-se o fato de as princesas se casarem ainda adolescentes, no geral com 16 anos de idade, o que está associado à tradição do Sweet Sixteen norte-americano; equivalente às festas de 15 anos latino-americanas, quando a menina teoricamente deixaria de ser uma criança para se tornar mulher e é passada do pai para o futuro marido durante a valsa.
Apesar de se basearem em figuras do passado, essas personagens não deixaram de estar presentes no imaginário popular feminino e se tornaram uma das principais fontes de inspiração para várias pessoas, o que demonstra a importância de levarmos esse tema para além de mero entretenimento infantil. A exposição a esse tipo de história, desde muito cedo, inclusive levando em consideração que são contos voltados para crianças, pode induzir a um modo de pensar e agir dessas pessoas quando adolescentes/adultas muito relacionado às imagens que passamos de feminilidade e masculinidade.
Inclusive, em estudo aplicado a cerca de 200 crianças nos Estados Unidos (disponível aqui), foi constatado que as meninas que se identificam como princesas tendem a se dedicar na busca por uma beleza ideal inatingível, o que usualmente leva à frustração e à infelicidade.
A segunda onda feminista (~1960-80) trouxe concepções notadamente contrárias ao modelo perpetrado pela Disney, argumentando que o casamento e a vida familiar não precisam ser o foco da vida da mulher, questionando suas limitações ao âmbito doméstico. Atendendo a essas novas demandas sociais, surgem personagens que, apesar de terem no cerne de seus valores a proteção de suas famílias, pensam por si sós, impõem-se na negação ao casamento, afirmam seus objetivos pessoais para além dele e mostram-se corajosas o suficiente para enfrentar circunstâncias bastante adversas.
É nesse segundo ciclo que se inserem Bela (Bela e a Fera, 1991) e Jasmine (Aladim, 1992), que abdicam de sua liberdade, enfrentando seres com poderes sobrenaturais para proteger seus pais. Não sem a permanência de outros problemas, conseguimos identificar uma certa evolução nas atitudes e na ideologia por trás dessas duas histórias, que podem ser caracterizadas enquanto um período de transição.
No caso de Jasmine, é possível perceber uma busca, mesmo que superficial, pela criação de princesas que fujam do padrão branco-eurocêntrico, o que a põe também como uma posição inicial no processo que gera as próximas princesas etnicamente mais diversas.
São elas: Pocahontas (1995) e Mulan (1998), personagens que deixam o papel de donzela e se aproximam do estereótipo da amazona. São inicialmente desacreditadas pelo fato de serem mulheres, mas terminam seus respectivos filmes como guerreiras aclamadas pela diplomacia ou pelo comando de forças de guerra.
Esses filmes, todavia, ainda não deixam de lado a importância de formar um casal, o que fica explícito na posição da vó de Mulan, que só fica feliz quando descobre que a salvadora da China tem um pretendente.
Aqui, cabe uma ressalva à Esmeralda (O corcunda de Notre Dame, 1996), cigana que assume uma posição ativa contra as injustiças cometidas em Paris. Seu principal par na história não se enquadra no modelo físico de herói e o vilão da saga é um homem cuja função seria fazer a justiça, o que corrobora com a posição dessa história como um ponto fora da curva, em dissonância de quaisquer padrões idealizados.
Pocahontas, Esmeralda e Mulan aparecem como degraus na escalada de uma representação étnica mais diversa pela Disney, que obviamente somente se realiza a partir das demandas sociais por representatividade.
Essa representatividade, que não foi nenhum trabalho puramente social dos estúdios da franquia, foi responsável por gerar bilheterias com cerca de 100 milhões de dólares acima de parte dos filmes dos primeiros ciclos.
Já nos anos 2000, temos finalmente a primeira protagonista negra dos filmes de princesa. Em A Princesa e o Sapo (2009), conhecemos a história de uma menina que cresceu perto da realeza, mas à parte dela, com o sonho de abrir seu próprio restaurante. Tiana incorpora a figura da mulher moderna que abdica de diversões momentâneas em prol do trabalho pelo seu grande objetivo, inclusive estando disposta a deixar o príncipe da história de lado.
É uma personagem que aparece no âmbito da terceira onda feminista (final do século XX), que busca incorporar as interseccionalidades no movimento, dentre as quais a racial, com a valorização do feminismo negro. Isso também se dá com a popularidade do movimento negro nos Estados Unidos, em ampla ascensão desde os anos 60.
Todavia, talvez por conta dos elementos da cultura vodu ou da explicitação do contexto periférico da cidade de Nova Orleans, ainda imersos em preconceito, o filme não teve a aceitação que poderíamos esperar, com uma bilheteria que se equiparou aos primeiros filmes da franquia, como Cinderela e A Pequena Sereia.
Na toada da luta por um sonho maior, em 2010, conhecemos uma nova versão da história original de Rapunzel (Enrolados), que retoma o conflito baseado na rivalidade feminina e na busca pela beleza. Esse conflito, porém, é mais centrado na figura da vilã Mãe Goethel, ou seja, externo à protagonista, que desde o início mostra sua capacidade de autodefesa, com os icônicos golpes de frigideira, e sua força de convencimento, demonstrado ao aliciar uma série de amigos improváveis para ajudá-la em seu objetivo de ver as lâmpadas flutuantes.
Apesar de o objeto principal desse texto ser a evolução das jornadas das princesas, não podemos deixar de notar que mesmo as figuras masculinas passam por um processo paralelo similar. A imagem de príncipe encantado fica de lado para mostrarem faces mais imperfeitas e vulneráveis, como é o caso de Li Shang (especialmente em Mulan II, 2004), Naveen (A Princesa e o Sapo) e José Bezerra (Enrolados).
Por fim, chegamos ao ciclo mais recente de princesas, cujas histórias sequer têm um par romântico e suas jornadas pessoais assumem o total protagonismo. Esse ciclo se inicia com Merida (Valente, 2012), passa por Elsa (Frozen, 2013), Moana (2016) e termina com a mais nova Raya (Raya e o Último Dragão, 2021).
Todas essas princesas desenvolvem jornadas baseadas em autoconhecimento, em que os conflitos são intrinsecamente relacionados com a falta de identificação entre a expectativa que outras personagens têm sobre elas e a pessoa que de fato elas são ou almejam ser. Essa é a força que as leva ao crescimento pessoal e, ao final, à afirmação das visões de mundo que desenvolvem durante suas histórias.
Com a exceção de Elsa, essas novas princesas finalmente aparecem com uma real face de jovialidade, sem corpos hiperssexualizados, mas com anatomias condizentes com suas idades.
Em Frozen, todavia, reconhecemos um ponto importante de evolução, que é a construção de uma protagonista intrinsecamente forte, centrada nos seus problemas pessoais, em contraponto a uma irmã mais nova que incorpora o sonho do casamento e é inicialmente vista como boba e ingênua.
Além disso, Elsa deixa a posição de princesa para ser consagrada como rainha de Arendelle, sendo que a assunção desse cargo somente se dá no momento em que ela retoma sua força interior, deixando de identificá-la como um defeito que a faria ser menos aceita socialmente, mas reconhecendo-a como o meio para arcar com suas responsabilidades e desenvolver sua capacidade de governo.
Não sem razão, Frozen foi a maior bilheteria no ramo das princesas, com mais de 1 bilhão de dólares arrecadados, em contraposição com os demais filmes, que chegaram no máximo a cerca de 650 milhões.
Chegamos à última princesa da Disney, Raya, conseguindo ver uma clara evolução das personagens antigas completamente indefesas até as recentes de cuja força e inteligência sua família e seu povo dependem.
Ainda falta muito para alcançarmos os modelos ideais de representatividade, inclusão e diversidade nos nossos filmes favoritos. Por isso, é importante reconhecermos que o motor da mudança está nas nossas mãos, especialmente na pressão que os movimentos sociais fazem para atualizar os ideais nos quais nos espelhamos enquanto sociedade.
Se servir de consolo, pelo menos, até o momento, temos esses pequenos progressos que nos mostram que essa pressão está trazendo resultados e que estamos de fato caminhando – mesmo que devagarzinho – em direção a padrões que verdadeiramente nos representem.

