Não, não costumo procurar muitos simbolismos no meu dia a dia. Se existem? Não tenho dúvidas. E só esse pensamento já me basta. Vivo meus dias sem essa preocupação. Se eu os procuro? Aí talvez já seja demais. Quem vê simbolismos em alguma coisa tende a ver simbolismos em tudo. E é aí é que está o problema. Não tenho tempo para encaixar um pensamento crítico do porquê meu cachorro me traz um livro sobre neurose obsessiva quase todo dia (se bem que essa é fácil de resolver). Já fui chamado de cético (outra discussão), mas não acredito que o seja. Creio nessa história de simbologia e tudo mais. Só escolho renegá-la. Pode pensar que eu sou louco, mas você realmente acha que os sonhos são aleatórios? Não que a gente deva acreditar em tudo que um alemão pervertido prega, mas depois de ler várias coisas, a gente realmente começa a acreditar em algumas. 

O barulho do centro dança com a voz do professor. Não sabem os passos. Uma palavra, uma buzina, uma lei, um xingamento, e a chuva não ajuda. Bendita seja a ponderada. “Quinze horas nas arcadas” disseram. Era tudo o que eu pensava naquele fim de aula. Nisso e nas pessoas do grupo em que caí; não devia ter faltado sexta passada. Pensa em uma cerveja cara. 

Saí da sala como se estivesse entrando. Me sentia pesado. Tecnicamente falando, eu poderia ir para casa (existe essa história de livre arbítrio). Não sei. Saio da faculdade. A água que não me deixa abrir os olhos é a mesma que molha minhas meias. Não sei se foi o instinto primitivo dos humanos de estarmos sempre com as meias secas ou a culpa que já rasgava meu cérebro, mas voltei para o prédio. Se todas as decisões do mundo fossem tomadas debaixo da chuva, o mundo seria menos demorado (e um pouco mais caótico). 

Sim, cogitei ir para casa quando já tinha uma reunião marcada. E tenho certeza que você faria o mesmo. Começo dizendo que ninguém é perfeito; concluo falando que nenhum imperfeito deve ou merece suportar um bando de quase-advogados com egos estratosféricos. Deixo aqui muito bem esclarecido que se eu tivesse ido embora não estaria deixando aquelas pessoas na mão porque a vida me deixou na mão antes - sexta passada para ser preciso. 

Suava. A chuva falhava miseravelmente em atenuar o calor. Calor gostoso é calor de folga. Calor com gosto de cerveja e som de pagode. Calor de carnaval. E principalmente calor ensolarado. É verdade relativa (mas absoluta). Gosto do calor. Talvez até exista lugar para a palavra amor na nossa relação, mas meu flerte se resume exclusivamente ao calor acompanhado do sol. Se vem cinza escondo o rosto, finjo que não conheço. Um dia de calor sem sol talvez seja desperdício. 

Quinze horas nas arcadas. Ainda faltam duas. O mar de guarda-chuvas na entrada secava. Já substituia as conversas de fim de aula o repique do jogo de pingue pongue; a estática da chuva servia de cenário pros esforços da mariposa pousada no pátio. Andando pelas arcadas sentia em meu braço os pingos de chuva, e o que para mim era medíocre frescor para o inseto mais se assemelhava à resignação. Não tinha cores de mariposa. Era preta e verde, parecia mais com uma borboleta. Tentou voar uma última vez enquanto eu passava do lado da mesa de sinuca, e, para minha surpresa, conseguiu. Vi ela rebolando do outro lado do pátio até que suas asas estivessem secas. Quinze horas nas arcadas. Faltam duas. O chão nunca me pareceu tão confortável. Adormeci pensando em sol, mariposas e escutando os sons do pátio… 

(…) 

Hum. 

Acordo quente e sinto o peso dos meus olhos. Sol. Parece que me ouviu. Ninguém jogando sinuca. Que horas são? Olho para frente enquanto o pátio das arcadas amarela em sol recém aparecido. Silêncio descomunal. Pintura particular. Começo a me perguntar sobre os

desaparecidos barulhos de conversa e de pingue pongue, e até do barulho (quase) natural de carros do centro. Respiro. Me abraça o cheiro de chuva passada e prédio abafado. Sem ninguém, o pátio aumentou de tamanho. 

Eu e eu. 

Ou não. 

Sinto uma presença do meu lado direito. Veste verde. 

“Levante”, ouvi; 

Uma mão aparece na minha frente e em poucos instantes estou de pé. Meus olhos, sempre relaxados (de… ahm, sono) não escondiam minha surpresa, arregalaram-se. Era uma mulher, e me olhava fixamente. Trazia consigo um semblante calmo, acostumado ao sorriso. Na visão periférica um vestido verde. Lenço também verde. 

O pátio estava vazio. Completamente vazio. A situação toda estava estranha. Minha avó diria que a moça poderia ser uma psicopata. Só não me preocupei porque se realmente fosse, algo podia acontecer que me livrasse da reunião de empresarial. 

-Calma, só quero saber onde fica uma sala - disse ela esboçando um sorriso - quer dizer; você estuda aqui mesmo não é? 

Saiu da minha boca a afirmativa, esperando a próxima pergunta que já desenrolava de sua língua. 

-Sabe onde fica a Lygia Fagundes Telles? 

Sem sentir a intimidade para fazer uma piada, me presenteei com um sorriso de canto e fui lembrar da sala. 

(…) 

Ahm. Não lembro. 

Senti meu corpo esquentando. 

Como assim eu não lembro onde fica a sala? Devem existir duas salas com nomes de pessoas que não foram presidentes de província ou fascistas, e eu não lembrava a da Lygia? Soltei um som estranho de desapontamento. 

-Desculpe, não estou me lembrando agora - balancei a mão enquanto negava com a cabeça. 

Perguntou se eu não queria ajudá-la a procurar. 

Às vezes a vida se expressa sem muita delicadeza (mas com muita graciosidade). Sorri. 

Começamos a andar. 

Procurei o som de algum pássaro no fundo de minha orelha mas não ouço nada além do pisar no mármore. 

-É que eles mudaram o nome de muitas das salas - disse ela como se explicando o porquê da necessidade de indicação. 

-É, acho que sim - disse eu dando a ela razão e tentando lembrar da última vez que mudaram os nomes - então você estuda aqui? 

-Já estudei sim, amo esse lugar (Minha avó estava certa afinal). 

-E você veio visitar? 

-Acho que sim. 

Abri um sorriso que não passou despercebido. 

-Acho melhor não tentar encontrar lógica na minha presença aqui - disse rindo - eu mesma ainda não achei. Deu vontade. E só precisa disso. 

Ela tinha razão. E eu curiosidade. 

-Qual é sua flor preferida? A moça de verde perguntou cortando o ar.

Espremi os olhos (discretamente espero). É essa a conversa que eu quero ter com uma estranha? 

Não se engane leitor, era sim. É quando se encontra gota de mistério que se tem mais sede. 

O pátio ficou menor. Enquanto conversávamos me aconcheguei. Inventei para mim algo do porquê de ninguém estar por ali. Acho que tinha lido sobre adiantarem o happy hour na FEA ou algo assim; não me importei muito. A moça tinha algo que me deixava tranquilo. Contou histórias. Falou de inveja, de cachorros e do pôr do sol. Tinha um quê de poético em sua figura. Aquela conversa moldava vales. Falar de mundo com pessoas as quais você nem sabe o nome é injeção de vida. Pelo mesmo motivo que pedir fogo para alguém é uma das interações mais legais que existe. 

Conversa vai. 

“Quando na realidade o amor é uma coisa tão simples… É como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou”. Ouvi isso e no começo achei meio piegas, mas era como se eu nunca tivesse acreditado em qualquer outra coisa na vida. E ainda me parecia familiar. 

Fui me recordando das pedras da faculdade. Lembrando da amizade que tinha com as curvas do prédio. Ela, por outro lado, parecia já namorar os corredores. Não procurava indicação. Não faltava. Virava as esquinas com a confiança que um dia quero ter. Conhecia bem. Como não sabe onde fica a sala? Afundei-me na minha própria cabeça. Me senti preso. Diminuí o passo. O sentimento de estranheza voltou a me assombrar. O corredor estava escuro, via somente o sol beijando a porta de madeira no fim da galeria. 

-Acho que estamos chegando - disse ela quase cantando, como se algo nos esperasse quando chegássemos na sala, sempre muito simpática. 

As últimas passadas foram dadas em câmera lenta. Minha cara fechou. Chegando naquelas portas não desenhava expectativa. Um passo de cada vez.. 

-É aqui mesmo né? - Disse a moça mexendo os olhos em direção à placa. -É… - saiu de minha boca em sopro gutural enquanto fitava o nome da sala. Ouço ela abrindo a porta e entrando. Fui atrás. A sala estava vazia. Cadeiras e mesas. 

Me chamou a atenção uma das quatro paredes estar pintada de verde. Essa é nova. A parede da janela, de onde vi um pedacinho de verde voar para fora do enquadramento. Admito; alguns simbolismos são tão misteriosos quanto belos.

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