O tédio talvez tenha sido um dos sentimentos mais predominantes no século passado. O capitalismo, até meados dos anos 1970, encontrava-se dentro dos limites fordistas de produção, unindo enormes linhas de montagem com grandes quantidades de trabalhadores concentrados e engajados na atividade industrial. A expansão massiva de mercados, aliada ao terror que o comunismo soviético proporcionava ao Ocidente, gerou uma atmosfera propícia para uma “festa de direitos”, isto é, havia espaço para a negociação dos trabalhadores com os representantes da burguesia e do Estado para o alcance de melhores condições de vida.
O clima à época era completamente diferente daquele que hoje estamos acostumados. Havia estabilidade, previsibilidade e segurança em boa parte do mundo, com destaque à Europa e suas sociais-democracias. Mas o que isso tem a ver com tédio?
Como se sabe, as linhas de produção fordistas não eram a coisa mais entusiasmante do mundo. O trabalho repetitivo e exaustivo foi um fator importantíssimo para uma política de gerenciamento desse tédio. As benesses do Welfare State eram compensadas pela existência de uma burocracia vertical, presente nas mais diversas esferas sociais. Engana-se quem afirma que a maldição burocrática ficava restrita à União Soviética – mais do que isso, era uma característica tipicamente fordista.
Essa época de evidente bonança foi capaz de balançar círculos marxistas em discussões intensas. A respeitada Escola de Frankfurt, cuja fama à época advinha principalmente das análises de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural, tornou-se incapaz de enxergar qualquer contradição existente no capitalismo. O Estado teria cumprido seu papel e, com isso, havia se livrado das contradições identificadas por Marx no capitalismo liberal. O que fazer então quando não há mais contradição no capitalismo? Habermas, atento a isso, deslocou o debate filosófico ao nível da ação comunicativa, das instituições e do direito. Não é de se espantar, portanto, a dificuldade trágica dessa geração do Welfare State em promover uma crítica contundente acerca da totalidade social.
Pois bem, retornando ao nosso assunto principal, o que restava fazer a uma oposição, seja ela de direita ou de esquerda, que desejasse obter o poder? Ora, contrapor-se a essa atmosfera do tédio e apresentar ideias que proporcionassem uma escapatória desse mundo tomado por linhas de montagem. A esquerda tradicional (e aqui se pode incluir tanto sociais-democratas, quanto socialistas), então apaixonada e completamente iludida com os potenciais do modelo fordista de expansão de direitos, assumiu uma postura conservadora. Para ela, parecia que o mundo iria se pautar em um aumento incessante e progressivo de benefícios à classe trabalhadora, bastava repetir a fórmula do tédio fordista com alguns ajustes. Seu horizonte, senão tomado pelo planejamento estatal ad eternum, consistia na crença infundada da chegada de melhorias que, por terem ocorrido momentaneamente no passado, seriam capazes de continuar sua marcha ao futuro rumo a uma sociedade mais justa.
Desse contexto, surge a direita neoliberal. Diferentemente da fracassada esquerda tradicional, a nova direita conseguiu apresentar um projeto político que oferecia a tão desejada saída do capitalismo do tédio. Foi capaz, portanto, de canalizar a rejeição a um velho mundo, o qual tardava a morrer, para a tomada efetiva do poder. Mais do que isso, conseguiu abarcar os desejos que pulsavam na população, exausta e desconfiada do modelo fordista, para oferecer uma resposta, um caminho para a realização desses impulsos desejantes.
Logo o sonho neoliberal, que nunca o foi, demonstrou sua face de pesadelo. A política do tédio morreu em meio às mudanças econômicas e políticas, as quais fizeram surgir o que atualmente entendemos como neoliberalismo (ou pós-fordismo).
Competitividade, risco e individualidade (“individualismo”, só para os críticos), estas são as palavras de ordem de um novo tempo. O indivíduo, tão maltratado no fordismo, finalmente teria o espaço para desenvolver suas múltiplas potencialidades, pois estaria livre das correntes da burocracia estatal totalitária, esta que promovia um verdadeiro pacto satânico ao fazer o sujeito trocar sua liberdade por estabilidade e segurança. Ou pelo menos assim dissertam os ideólogos neoliberais.
Com isso, não podemos nos surpreender com essa espécie de discurso, o qual sempre vem à tona quando alguns dogmas neoliberais são colocados em xeque. Bolsonaro, recentemente, ecoou essa ideologia ao tratar da possibilidade de realizar um lockdown nacional, afirmando que “quem abre mão de um milímetro de sua liberdade em troca de segurança está condenado no futuro a não ter segurança e liberdade”[1].
Não precisamos, aqui, destacar o aspecto narcísico da fala do Presidente da República, mas é interessante refletir sobre esse enaltecimento implacável do indivíduo frente à sociedade. Cria-se um verdadeiro antagonismo, que longe de ser somente um aspecto “ilusório” da ideologia, verifica-se concretamente no cotidiano. Nossas relações sociais são tomadas por uma constante hostilidade que, não satisfeita em ter como alvo somente os outros na esfera da competição, vira-se contra o próprio sujeito. Odiamos nossa própria aparência, a nossa estrutura física e qualquer característica psicológica ou mesmo biológica que impeça a implacável continuidade de produtividade, que no neoliberalismo aprendemos ser sinônimo de sucesso, sendo de responsabilidade exclusivamente individual (você é o responsável por seu próprio sucesso e nada mais).
Mark Fisher, filósofo e crítico cultural britânico, aponta em sua obra Realismo Capitalista que um aspecto da burocracia foi suprimido no modelo fordista, para assumir sua verdadeira potência com o neoliberalismo. Observamos, com a marcha neoliberal, uma dissolução da burocracia, não para desaparecer, mas para se espalhar de modo que todos são, simultaneamente, objetos e ferramentas dos aparelhos burocráticos. Tarefas que anteriormente eram cumpridas por autoridades constituídas são delegadas às demais pessoas sob o princípio ideológico da eficiência. Autoavaliações, relatórios intermináveis, a filosofia coach e as linhas de atendimento de marketing, todos constituem essa nova burocracia de mercado, ou como Fisher ironicamente chama: stalinismo de mercado.
Não é irônico? Em geral, filmes dos anos 1980, como Red Heat que é protagonizado por Schwarzenegger, apresentam os soviéticos como verdadeiras máquinas, imunes a qualquer emoção e cuja existência se deve somente aos objetivos a serem cumpridos no interior da burocracia. No filme, vemos o protagonista soviético nos EUA e, ao longo da película, sua crescente humanização em razão do contato com os estadunidenses. De início, o personagem de Schwarzenegger não demonstra empatia, nem solidariedade, suas ações são exclusivamente condicionadas pelo dever. Bem, atualmente, no mundo neoliberal, parece que cada vez mais nos aproximamos desse estereótipo, o qual foi utilizado anteriormente ao combate contra a velha burocracia fordista.
Aqui cabe um conceito do qual Byung-Chul Han se vale em suas análises. A autoexploração é um aspecto dominante em nossa sociedade atual, configurando-se de modo mais ameaçador que a forma clássica de exploração, pois acompanhada do conceito de liberdade. Somos livres para nos explorar. Com efeito, há uma efetiva mudança naquilo que Foucault chamava de sociedade disciplinar. A figura de autoridade se torna desnecessária, afinal, qual a razão de investirmos em um símbolo de autoritarismo se podemos interiorizá-lo para exercer o mesmo papel? Assim, abandona-se o sujeito da obediência para dar seu lugar ao sujeito do desempenho e da produção.
Todavia, vale a pena ressaltar uma crítica recorrente ao trabalho do sul-coreano. Seu modelo teórico parece ficar restrito à realidade de países desenvolvidos e das classes mais abastadas de países “em desenvolvimento”. A forma de exploração fordista, realizada mediante a autoridade e a imposição de uma vontade externa, permanece em algumas regiões, pois deslocadas das nações mais ricas junto às fábricas, as quais se realocaram em grande medida ao Sul Global. Isso, portanto, não significa que somos imunes à autoexploração, pois bebemos a todo momento do suco ideológico produzido no Norte devido à globalização.
Na hipótese que a autoexploração se transforma em um elemento dominante nas relações sociais, a ansiedade como sintoma neoliberal aparece. Engajamos constantemente no multitarefismo em busca do aumento de produtividade, tão caro a nós, chegando ao ponto de se tornar algo absolutamente natural. Byung-Chul Han, em tom provocativo, descreve um animal que, ao devorar seu delicioso alimento, deve se preocupar em não ser ele mesmo devorado por outra criatura, pois a vida selvagem obriga a se atentar às mais diferentes situações dentro de uma relação simultânea. O tédio então morre para dar lugar à ansiedade como efeito dominante. Mark Fisher, em relação a isso, afirma que agora as corporações capitalistas abandonaram qualquer espécie de espetáculo pacificador, pois somos chamados agora a criar nosso próprio conteúdo, a interagir e participar de debates, construir cada um seu próprio caminho. Só fica com tédio quem quer.
Com isso, perde-se o efeito construtivo proporcionado pelo tédio. Quando se reproduz e se intensifica inquietamente aquilo já existente, o resultado é a conservação do edifício ideológico predominante. O tédio, ao contrário, é capaz de proporcionar um repouso contemplativo e atento que conduz ao acesso para novas percepções, pois interrompe justamente a reprodução da mesmice. Por conseguinte, hiperatividade e ansiedade estão condenadas ao conservadorismo, pois constituem tanto sua forma quanto seu movimento intrínseco.
Por fim, não proponho, com esse texto, um retorno à política de gerenciamento do tédio nos moldes fordistas. Mas, em realidade, acredito que possamos aprender, como sujeito coletivo político, quais mecanismos devemos rejeitar e absorver para combater o efeito ideológico dominante do mundo atual, pautado pela ansiedade e pela competitividade incessantes. Devemos buscar outras formas de convivência que alcancem o tédio contemplativo, mas sem se restringir a ele — como no fordismo — ou exaltar o multitarefismo — como no neoliberalismo.
Bibliografia:
FISHER, Mark. Realismo Capitalista. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
HAN, Byung- Chul. Sociedade do cansaço. São Paulo: Editora Vorazes, 2015.
ŽIŽEK, Slavoj. Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo. São Paulo: Boitempo, 2020.
[1]https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/04/07/nao-podemos-ficar-em-casa-ad-eternum-diz-bolsonaro-apos-novo-recorde-de-mortes-por-covid-19.ghtml

