Cor de Rosa

Qual a cor da culpa para você? Eu responderia que, para uma mulher, a culpa tem todas as cores do mundo, mas, para mim, a culpa é completamente rosa. Se eu fechar bem os olhos vou lembrar dessas exatas palavras: “você estragou minha vida!”, inclusive, acho que escreverei isso na minha lápide. Mas, e aí? Quantas expectativas de terceiros uma pessoa consegue carregar? Quantas feridas abertas em outros podem sangrar em você?

Eu tinha 14 anos quando as perguntas chegaram para mim por causa de uma rapidinha escrota que me fez virar a maior mula dos traumas alheio, afinal, ser mãe é isso. Só contei aos meus pais quando não tinha mais jeito e não conseguia mais esconder a barriga. Só contei ao cavalo reprodutor (vulgo pai da criança), quando eu não sabia o que fazer. Os três, como se tivessem feito um pacto de crueldade, me responderam que eu era muito irresponsável e que eu não poderia ter deixado aquilo acontecer. Com qual idade a mula vira adulta mesmo?

O primeiro pré-natal ocorreu tardiamente. Eu não queria ver, sentir ou examinar o meu banco de culpa, já que a cada consulta, era um crédito novo que era depositado, fosse no olhar da enfermeira, fosse na palavra do médico. E foram 4 meses disso até que nascesse e, depois que nasceu, passou a ser a vida inteira. Acho que não espanta se eu contar que depois de 21 anos há quem ainda me aponte dedos pelo resultado da pior transa sem camisinha de todos os tempos. O parto? Foi doloroso, mas nada que eu não estivesse acostumada.

O enxoval rosa me dava nojo. Qual a alegria de trazer mais uma mula para esta existência? Nós estávamos sozinhas, não tinha um cavalo para cuidar da gente, pois, aparentemente, eu matei minhas chances de ter meu alazão quando me obrigaram a ser mãe e, para minhas tias, esse seria meu maior problema por ser uma mãe adolescente. O pior de tudo, eu não a amei na minha barriga, eu não a amei quando nasceu, eu não a amei quando dei de mamar e aquilo me consumia infinitamente. Não houve bônus. Cadê a alegria de ser mãe? Cadê o amor incondicional? Bom, minha filha tinha que tomar leite salgado pois nem as lágrimas eu era capaz de afastar do leite da minha mulinha.

Foi o pior ano da minha vida: eu estava cercada de brinquedos, músicas, descobertas, culpa e choro. Na época, eu vivia com meus pais e eram eles que mandavam nos cuidados da minha bebê. A ordem vinha regada de rancor e desprezo e eu obedecia. A marca da mãe deprimida, uma marca invisível para o mundo, latejava cotidianamente. Eu não era mãe e não era filha, eu só era triste.

Um dia, assistindo desenho com a minha mulinha, eu comecei a chorar desesperadamente. Ela não sabia falar na época, ela apenas me abraçou bem apertado com as mãozinhas no meu pescoço. Eu me permiti desabar e me permiti amar a criatura com a qual eu convivi intensamente pelos últimos quase dois anos. Foi ali que entendi que mãe é apenas uma função (de mula) e que essa função nos afasta completamente dos nossos filhos.

Hoje, com 35 anos e grávida da segunda filha eu me permito olhar para o quarto pintado de rosa e deixar a culpa entrar e sair pelos meus poros, mas nunca ficar, pois entendi que internamente posso ser mãe quando sentir que estou preparada para amar.

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