Franciscanos notáveis na literatura

Sejamos sinceros: nem toda(o) estudante do Largo São Francisco formar-se-á no caminho do mundo jurídico. Poucas(os), inclusive, são as que ingressam por vontade própria e não por estímulo familiar… e isso é ótimo! A SanFran foi responsável por formar grandes filósofas, inúmeros membros do corpo político, apresentadores de televisão, atrizes e até comentaristas esportivos. Tudo isso graças às oportunidades multidisciplinares fornecidas pelas Arcadas. Trataremos aqui, então, sobre uma já bicentenária tradição entre alguns franciscanos que não se afeiçoam pelas leis: a entrada no mundo das letras.

São já incontáveis as(os) franciscanas(os) notáveis no mundo da literatura, começando pela recepção da SanFran. Caso você seja um(a) estudante com pouco tempo de Largo, talvez não conheça os patronos do ingresso franciscano, mas os “portais das arcadas” (as três entradas em forma de arco) foram rebatizadas no século passado e recebem atualmente os nomes de Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varella. Estes que foram ilustres estudantes da Velha e Sempre Nova Academia de Direito que optaram por seguir o mundo literário.

Franciscanos também são parte do conteúdo literário e (acredito não ser presunção dizer) da cultura popular brasileira: Bento Santiago, o já crossmidiático Dom Casmurro, foi na literatura um estudante da SanFran ainda em suas primeiras décadas. Mauro Beting, escritor e cronista esportivo formado nas Arcadas, é responsável por escrever alguns dos principais relatos conhecidos do mundo do futebol. Olavo Bilac, Oswald de Andrade e Hilda Hilst, tão presentes em saraus por todo o Brasil, também iniciaram sua trajetória como escritores no Largo São Francisco.

Contudo, para não tratarmos dos indivíduos somente na superficialidade, que tal nos aprofundarmos a respeito de três integrantes do mundo literário que passaram pelas Arcadas? Faremos assim, um escritor da metade do século XIX, um do início do século XX e uma escritora que realizou sua última publicação ainda em 2012: José de Alencar (turma 20), Monteiro Lobato (turma 74) e Lygia Fagundes Telles (turma 115).

Cearense de Fortaleza e filho de importante político, José de Alencar ingressou na Ainda Nova Academia de Direito (risos) em 1846, poucos anos após o início do governo de Dom Pedro II (com quem viria a ter desavenças poucos anos depois devido à postura anti abolicionista por parte do escritor). Nos anos como franciscano fundou, em parceria com outros colegas de classe, a revista “Ensaios Literários” (uma das primeiras revistas da SanFran), em que publicou alguns de seus primeiros escritos como os ensaios “A carnaúba” (1848), “Sobre a vida de D. Antônio Felipe Camarão” (1849) e “O estilo na literatura brasileira”; ainda havendo em 1848 um ensaio denominado “Charada”, publicado no anonimato e que os estudos do Prof. Dr. José Quintão de Oliveira de 2016 demonstram ter muita semelhança a outros escritos de Alencar. Foi também durante seus anos de Arcadas que iniciou seu primeiro romance “Os Contrabandistas”, que acabou por nunca publicar.

Monteiro Lobato, internacionalmente conhecido e reconhecido pelas obras do universo “Sítio do Picapau Amarelo”, é outro representante do mundo literário formado em berço franciscano. Formado no antigo Instituto de Ciências e Letras (atualmente integrado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ingressou na SanFran por imposição do avô que era contra seus desejos de ingressar da Escola das Belas-Artes (atualmente faculdade da UFRJ). Durante seus anos de Arcadas, Lobato era participante ativo dos saraus que aconteciam na República do Minarete, o que foi o pontapé necessário para que seus contos começassem a ficar conhecidos por toda a grande São Paulo. Sendo orador da turma de 1904 por votação unânime, passou as honras do discurso de sua formatura ao colega Edgard Jordão e, juntos, escreveram um discurso tão ácido a respeito da instituição e à Igreja que - durante sua fala - padres, bispos e professores se retiraram do local. O discurso, escrito por ele, Edgard e mais um colega em uma mesinha do Café Guarani, também trazia um “prenúncio” de uma Sociedade Socialista como sendo um futuro inevitável para o Brasil.

Lygia Fagundes Telles, filha do casamento de um promotor público com uma pianista, conseguiu unir o melhor entre o mundo do direito e das artes. Porém, não colocou suas dúvidas profissionais somente entre as leis e as letras: durante sua estadia enquanto estudante de Direito também se aventurou como universitária da graduação de Educação Física, também da USP. A paulistana foi militante em movimentos universitários franciscanos que lutavam contra a ditadura varguista; ao ser questionada a respeito das Jornadas de Junho de 2013 durante o 14° Simpósio Qualidade de Vida no Serviço Público, demonstrou apoio às manifestações lembrando de sua atuação militante nos tempos de Sanfran: “Eu participei de várias passeatas contra a ditadura de Getúlio Vargas. Usávamos um lenço preto poroso no rosto, desses que cobrem os mortos, durante nossos protestos”.

Foi também durante a ditadura varguista que Lygia foi ao encontro de um ex-franciscano que fora preso após se manifestar contra a política de Vargas: Monteiro Lobato. Os dois escritores acabaram tornando-se amigos, com - segunda Lygia - Lobato auxiliando em sua trajetória romancista com conselhos e dicas literárias. Amiga próxima do também franciscano Oswald de Andrade, escreveu e editou com o colega para os jornais acadêmicos da SanFran “A Balança” e o “Arcádia” (para o qual continuou escrevendo mesmo após sua formatura). Formou-se na já Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1945,  mesmo ano em que ocupou o cargo de primeira secretária da Academia de Letras. Hoje temos também, para conhecimento dos calouros, Lygia Fagundes Telles como a primeira mulher a nomear uma sala da Faculdade.

Porém, diferente do que eu lhes introduzi, não vamos parar em Lygia. Temos mais um escritor literário que gostaria de colocar neste texto; um de obra literária única, mas, que escreveu mais que ficção, escreveu história: Luiz Gama.

Sendo não um franciscano ingresso nas Arcadas, mas sim um ilustríssimo frequentador da SanFran, Luiz Gama foi proibido por padres, professores e alunos de matricular-se no curso, em decorrência da sua cor de pele. Contudo, isso não o conteve. Ex-escravizado e recém alfabetizado, Luiz passou (a partir de 1850) frequentar como expectador todas as aulas da turma 24; conseguiu após alguns anos uma licença para atuar juridicamente, e passou o restante de sua vida ajudando na alforria de escravizados (ao todo foram mais de 200 pessoas). Hoje Luiz Gama é agraciado pela OAB como sendo advogado, mesmo sem nunca ter se matriculado no curso das Leis.

Mas, esse não é  ponto chave do nosso texto (para saber mais da biografia de Luiz, veja nosso artigo a respeito de sua pessoa). Aqui tratamos de, ao contrário dos outros franciscanos que estiveram nas Arcadas com a mente em outro lugar, um jurista que passou anos se esforçando e e lutando contra o racismo e a opressão de franciscanos para frequentar as arcadas. E isso também está refletido em sua literatura. Sendo o fundador do primeiro jornal ilustrado da cidade de São Paulo, em 1964, as crônicas e charges de Luiz eram símbolo de coragem e de luta contra o império e o sistema escravista, sendo mais um (talvez o mais revolucionário) franciscano notável à chacoalhar as estruturas do sistema com suas palavras. Infelizmente, o republicano Luiz Gama faleceu 6 anos antes da proclamação da Lei Áurea e 7 antes do Brasil tornar-se uma república. Sua luta e mensagem, a partir desse ponto, foram estrategicamente apagadas por quem detinha o poder. Contudo, nos últimos anos, cada vez mais franciscanos tomaram conhecimento de sua luta, inspiram-se e homenageiam a figura (como a extensão Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama), trazendo-o definitivamente para a estante dos franciscanos notáveis na Literatura.

Referências:

“Personalidades que estudaram na USP“. Portal da Universidade de São Paulo: Especial, Institucional e Sociedade. 2011. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1826/alcantara-machado>. Acesso em 27 mar. 2021.

Bibliografia online de Lygia Fagundes Telles. Portal da Academia Brasileira de Letras: Acadêmicos. 2016. Disponível em: <https://www.academia.org.br/academicos/lygia-fagundes-telles/biografia>. Acesso em 30 mar. 2021.

“USP homenageia Luiz Gama 167 anos após impedi-lo de frequentar aulas de direito”. GONÇALVES, Juliana. Brasil de Fato: Direitos Humanos. 2017. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2017/11/28/usp-homenageia-luiz-gama-167-anos-apos-impedi-lo-de-frequentar-aulas-de-direito>. Acesso em 30 mar. 2021.

“Biografia de Monteiro Lobato”. FRAZÃO, Dilva. Portal eBiografia. 2021. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/>. Acesso em 01 abr. 2021.

Biografia online de José de Alencar. OLIVEIRA, Catarina. Portal InfoEscola. Sem ano. Disponível em: <https://www.infoescola.com/escritores/jose-de-alencar/amp/>. Acesso em 01 abr. 2021.

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