STAGE FRIGHT

Quem está aí? Gisele, já vai. Quinze minutos pra começar! Merda. O trabalho, como
os homens, ou nos dá tesão ou nos faz feliz. Nunca os dois. O orgasmo, pensava Gisele, era
da ordem da angústia, do pavor e do desespero. Era da ordem do medo. Poderosa esquizofrenia. Poderosa e perigosa esquizofrenia. Em seus trinta anos de profissão, algumas coisas não mudavam. Não era comum entre seus colegas, imagina, atores experientes perdem o medo de palco. Perdem mesmo? Gisele não perdera. E diziam que o famoso stage fright era a paralisação diante da perda de razão: por que atuar? Na verdade, ela não sabia mais por que não atuar. E todas as coisas se confundiam. E se, de contar tantas histórias, ela tivesse se perdido no personagem? As luzes a apavoravam, o público cruel a apavorava. Mas Gisele não era mais uma menina. Era inegável o seu sucesso, tanto diante do grande público quanto das rodas intelectuais. Só que certas coisas permaneciam iguais. Suas angústias se misturavam com falas e histórias inventadas, resultado de ter agendado, de forma crônica, suas crises para o palco. Deixa para sofrer no palco. Deixa para amar no palco. Deixa pra viver no palco. E o palco desaparecia em um imenso circo invisível sem fronteiras. Será que estou delirando? Seus dentes tremiam, suava frio. Hoje é a última vez - só que era o que ela sempre dizia em todas as estreias, desde a primeira ocasião em que subira no palco, há trinta anos atrás. Como acontece com os vícios. É aquela velha frase, encontre aquilo que você ama e deixe que isso te destrua. Como os homens, como com o trabalho. Dez minutos! Merda. A história que era sempre a mesma e o sonho repetido diversas vezes, noite após noite: pular do palco para provar que sou sublime. Talvez tivesse sido mais feliz se ficasse na faculdade de medicina, trinta anos antes… Mas é óbvio que sim, Gisele. As saudades que ela sentia não eram mais do que uma ideia fora do lugar. Uma porção de ideias fora do lugar. Era mentirosa desde criança. Inventava histórias como quem fantasia a vida ao vivo. E aqueles que a amaram muito não se importavam com a verdade. Ela era terrível. Manipuladora. Uma menina. E sempre gostou dessas aventuras de meninas dissimuladas: Carmem, Eva, Capitu. E, se um mágico faz muitas vezes o mesmo truque, inevitavelmente, uma hora a verdade começa a aparecer. A verdade poderia ser destruidora. Trinta anos, quatro casamentos trágicos e um filho lindo, de olhos tristes, que tocava violino magicamente. Desequilibrada. Confusa. Encantadora. A verdade é que era extremamente tímida, mas só para algumas coisas. Gritava nua no palco e, em meio a uma multidão de pessoas, fazia todos rirem contando histórias pouco verossímeis. Ela era boa com palavras e dizia coisas bonitas. Só que a realidade se perdera em algum ponto, num cansaço de si e do mundo. Ela parecia maravilhada. Maravilhada sim, mas com o mundo dela. Entediada com esse mundo, o das coisas reais. Suas coisas verdadeiras pareciam tão ancestrais que Gisele não sabia de onde vieram, ou como expressá-las. Ela se expressava muito mal. Ela se expressava muito bem, afinal, era atriz. As pessoas nunca dizem o que de fato querem dizer e a gente nunca ouve o que de fato as pessoas dizem e a gente nunca lembra de fato o que ouviu no outro dia. Freud estava certo: não há comunicação. Cinco minutos! Gisele quis pedir desculpas, pelo seu monólogo íntimo e tantas vezes incompreensível. Quis pedir desculpas aos que acreditaram no teatro e pensaram que ela fosse invencível e lhe contaram seus segredos com olhos de quem espera ser salvo de alguma coisa. Quem me salva de mim? E escolhera o trabalho que lhe dava tesão e por isso nunca seria feliz. Seria desesperada, louca, apaixonada. Seu único casamento duradouro era com o palco, não menos trágico que os outros quatro. Violento. Atordoante. Maravilhoso. Era esse o incômodo de sempre. A frase tatuada no seu antebraço esquerdo: que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto duro. O que lhe parecia: que seu sempre eterno medo de palco era o quen semeava esse desejo incessante de estar sempre lá, de inventar histórias, e ser aplaudida de pé no último ato. A sensação permanente de estar fugindo de alguma coisa, só não se lembrava do quê. E já fazia tanto tempo. E amores interrompidos que ela esperava encontrar de novo. Coisas adiadas para o palco e, do palco, adiadas para nunca mais. Momentos como esse. Momentos cruciais de uma vida tantas vezes medíocre. Olhava para a plateia, da penumbra da coxia e pensava, com alguma dor no peito, é tudo isso? Ou, é só isso? A culpa era pelo crime perfeito. Despistei todo mundo. E agora? Agora a máscara haveria de cair, sua fantasia secreta e também seu maior pesadelo. Me desculpem, sou boa com palavras e não com pessoas. E, de precisar desesperadamente da atenção dos meninos, precisou desesperadamente da atenção dos homens, da imprensa e do
mundo todo. Era um talento para o escândalo. A agonia última era o cansaço de si. O outro
nos escapa. O outro podia ser uma pessoa, um lugar, talvez um tempo? Três minutos. A
angústia a mantinha fazendo aquilo, até porque Gisele atuava, não apesar, mas por causa do medo de palco. O stage fright era seu estilo de vida. Só que não havia roteiro para a vida, portanto, seguir em passos incertos. Dormindo pouco, sonhando acordada. O outro que lhe escapava era algo dentro de si, tudo, ao que parece. Seria preciso se reinventar. A paralisação não era diante da perda de razão, a perda da razão era o que a movia a cometer essa loucura autorizada chamada teatro. Meu amor, me escolhe, me leva. Abrem-se as cortinas, o show deve continuar. Três, dois, um. Quem está aí ?

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LUIZ FERNANDO MELLO RAPOSO
LUIZ FERNANDO MELLO RAPOSO
17 horas atrás

Olá, Estela! Nem sempre quem se atira ao fogo está a sofrer com o frio. Há os que se aproximam do fogo para roubá-lo e dá-lo de presente à humanidade, como Prometeu. A Gisela está confusa, mas quem sabe ela não é da linhagem prometeica? Pode ser que só exista para trazer algo ao público, ainda que uma chama efêmera. De qualquer modo, gostei do conto de um parágrafo só.

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