Cidade Invisível, a série brasileira produzida pela Netflix, que tem como personagens Saci-Pererê, Cuca, Boto e outros, gerou um hype na promessa, de dar aquele orgulho, em ver nossa cultura no streaming. Mas quando estreou muitas críticas ressaltaram a falta da presença indígena, no tema e na trama; o que não é pouca coisa.
Não é inédito, nem recente, filmes, séries e outras obras com a presença de lendas, mitos e divindades brasileiras. Logo nos vem à cabeça o canônico “Sítio do Pica Pau Amarelo”, com duas versões bem sucedidas e marco da infância de muitas gerações. Pesquisando, encontramos produções mais recentes, como antologia de curtas “Fábulas Negras”, que incluem ainda as lendas urbanas e tendo cada um de seus curtas dirigido por grandes do cinema nacional. Ainda mais recentemente, e nas produções internacionais, a Mulher Maravilha, da DC Comics, passou a ser Yara Flor, uma brasileira de ascendência indígena, concebida pela escritora Joëlle Jones com vasta pesquisa sobre mitologia brasileira e indígena.
Dentro desse tema, no começo deste ano, estreou na Netflix a série brasileira Cidade Invisível. A produção traz uma narrativa em torno dos protagonistas clássicos das lendas brasileiras, Saci, Boto, Mãe D’Água, Curupira, Cuca, entre outros, numa roupagem urbana na cidade do Rio de Janeiro, envoltos em uma trama de crime e investigação policial, com ar de noir brasileiro, quase em um tão sonhado crossover entre Supernatural e O Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Cidade Invisível gerou hype e altas expectativas já desde a sua divulgação. Toda essa euforia se efetivou no sucesso da série, que figurou no top 10 semanal no país em sua semana de estreia, e de outros 40 países, segundo informações do diretor Carlos Saldanha, passando a ser uma das séries ficcionais mais comentadas durante semanas. As críticas surgem como sempre e foram positivas e negativas, indo de sua forma (narrativa, atuação, direção, etc.), com algumas apontando clichês de gêneros narrativos de séries policiais, personagens que se arrastam, até as críticas que ressaltaram justamente o tratamento dado ao carro chefe da série, os seres lendários e povos indígenas, estas as que mais levantaram o debate e que vou dar atenção nesse texto.
As críticas acerca do tratamento negligente dado à presença indígena no elenco e na caracterização dos personagens lendários, vieram fortemente de representantes, como as de Fabrício Titiah, Pataxó HãHãHãe (leia mais aqui e aqui) e de Lai Munihin, indígena e socióloga (que publicou uma thread incrível e explicativa, disponível aqui), mas também de veículos tradicionais como a revista Veja (leia aqui). Todas ressaltavam como os povos indígenas, que tem imensa participação na formação e representatividades nos nossos mitos e lendas, e, portanto, na cultura brasileira, estão notadamente ausentes na série, como protagonistas ou coadjuvantes, ficando restritos à uma participação pontual, praticamente um token. Em nada se justifica o ambiente retratado ser urbano, pois não é tão difícil assim saber que existem e resistem indígenas nestes ambientes. As críticas ressaltaram ainda a transformação de divindades pilares de povos, em meros personagens fantásticos e sobrenaturais, resumindo tudo em um exotismo, péssimo até para uma proposta que queira ser só artística. Críticas que, por sinal, já existem faz tempo. Em muitos lugares do país, inclusive não indígenas, estes seres não são vistos como folclore, mas como entidades importantes denominadas Encantados, como o Curupira, a Mãe D’Água (doce e não salgada), Cuca e muitos outros, não correspondendo desse jeito à grandiosidade que eles. Sem falar, mas escrevendo, da recriação da origem, por exemplo, misturando Negrinho do Pastoreio com o Saci, que virou um antigo escravizado, e que faz com o traço da lenda, onde quem consegue roubar a carapuça vermelha dele possa exigir o que quiser, em algo no mínimo problemático e não tão divertido. Os personagens dão a impressão, em certos momentos, que serviram somente para trazer o ar de série brasileira à produção.
Mas é importante considerar que uma obra artística é fruto da expressão criativa, uma narrativa que busca trazer uma individualidade, a chamada “marca autoral”, mesmo que carregue em si todo o seu lugar no espaço e no tempo, passado e presente. Proposta diferente das lendas e mitologias de uma cultura, que não carregam em si a proposta de ser uma história ou versão única, elas existem exatamente por pertencer a um tecido coletivo. Uma ideia defendida por alguns folcloristas, atualmente, como Edison Carneiro e Renato Almeida, é a de compreender o mito, a lenda, como um representante mais de seu tempo, e de algo transformado, do que da sua origem. Assim, não importaria a origem da lenda do Saci quando a ouvirmos, ou lemos, pela primeira vez, mas como ele representa e é representante de uma cultura brasileira, também de miscigenação. A série, por se tratar de uma obra do gênero fantasia, tem a sua origem criativa no folclore brasileiro, mas é principalmente uma obra autoral.
Então, as críticas à série, quanto a utilização da cultura e do apagamento indígena, deixam de ser pertinentes, já que o que vale é a criatividade? Não.
Precisamos compreender um fator que está fortemente ligado à criação e discussão sobre a série: os reflexos da marginalidade cultural, tanto nas produções de áudio visual como nos povos originários e suas culturas. Os filmes e séries que consumimos ou que tomamos conhecimento, em sua maioria, são obras estadunidenses e europeias, fruto do domínio cultural que estes países tem nesse campo artístico e muitos outros. Uma das consequências desta hegemonia é que produções de outros países, habitam uma marginalidade econômica, cultural e produtiva, onde além de não conseguir ocupar os mesmos espaços que obras como Onde Vivem Os Monstros, Once Upon a Time, Xena, A Espada Era a Lei, e ainda outros mais famosos, não surgem na mesma quantidade. Esta escassez acaba por restringir a diversidade geral, o que leva algumas obras, que inovam, a carregarem a bandeira de serem únicas e tornarem-se representantes. Se pensarmos no Lobisomem, uma figura lendária, que compartilhamos com a cultura anglo-saxônica, qual filme ou série melhor representaria a sua lenda? Ou melhor representaria a sua importância cultural? Como pensar uma obra com o lobisomem, tendo que dar conta de toda a simbologia narrativa e social que ela abarca? As vastas produções com esta personagem dificultariam uma resposta direta à essas perguntas e ainda isenta quem cria os filmes, séries, e etc., de ser responsável por isto, inclusive nas obras brasileiras.
Podemos compreender, com isso, que Cidade Invisível carrega a responsabilidade de ser a representante da cultura nacional e de nossas lendas e mitologias, assim como da de povos indígenas, para milhões de espectadores que farão o primeiro contato com a nossa cultura. É nesse papel, mesmo que não escolhido, que se fazem as críticas cobrando responsabilidade. Ainda mais sendo o Brasil, país de origem colonial ainda violento para os povos indígenas.
Infelizmente, a obra acaba por pagar um preço que não é seu: a falta de muitas mais obras tratando e retratando nossa cultura. Mas uma série que traz conscientemente como atrativo principal a presença do Saci, da Cuca, do Boto, das lendas e cultura brasileiras, deveria ao menos dar mais peso, espaço e protagonismo para os povos indígenas e suas mitologias.

