A História do vestibular na São Francisco

A chegada do fim do ano na São Francisco simboliza não somente a passagem de um semestre par para um semestre ímpar, ela também traz consigo o início do processo de entrada de uma nova turma. No ano de 2021 estão ingressando nas arcadas os alunos da turma 194 após o rigoroso, concorrido -e muitas vezes controverso- processo seletivo do vestibular, seja ele pelo ENEM, seja ele pela FUVEST. 

O vestibular é um momento de extrema importância na vida de qualquer universitário, é através dele que ingressamos na vida acadêmica e é o que nos permite poder desfrutar de toda a beleza das arcadas. Talvez esse seja o elo comum entre todos os alunos da São Francisco: todos passaram pela experiência (às vezes traumática) de prestar e passar em um processo seletivo de ingresso. Ao longo dos anos o modelo de seleção de futuros alunos mudou drasticamente e continua mudando; por isso, vale a pena fazer um breve recorte histórico de como era esse momento de iniciação franciscana desde o início do curso.

Em 1827, ano da fundação da São Francisco, o processo era bem distinto do atual. Apesar de ser a primeira faculdade do país, aqui já existiam colégios de ensino básico, dos quais alguns eram chamados de “colégios tradicionais”, por serem voltados para a educação das elites brasileiras que vinham de famílias “tradicionais”, cujos filhos até então eram mandados para Portugal para poderem estudar. Dessa forma, o meio de ingresso para a faculdade era exclusivo para os alunos de tais colégios, sendo que a entrada era praticamente certa, tendo em vista que haviam muitas vezes mais vagas do que candidatos. Vale ressaltar que nesse momento o país vivia o auge do seu número de escravos e, até o final do século XIX, a esmagadora maioria da população brasileira ainda não era alfabetizada e o ensino era vedado às mulheres. Portanto, durante o século XIX, aqueles que ingressavam na faculdade eram pertencentes a uma parcela muito restrita da sociedade, sendo assim, um ambiente socialmente excludente.

Figura emblemática desse período, que auxiliava os alunos antes de entrarem na faculdade em um Curso Anexo à São Francisco, é Julius Frank, alemão sepultado dentro do espaço da Universidade e fundador da “bucha”. Recomendo fortemente a leitura das matérias e artigos que contam a história desse eterno morador da faculdade (https://gazetaarcadas.com/2020/05/28/bucha-paulista/).

A aplicação de exames de admissão passaram a ser obrigatórios no país somente em 1911. A palavra vestibular passou a ser usada para designar esses exames admissionais, sendo que “vestibulum”, em latim, significa “entrada”. As provas abrangiam diversas áreas do conhecimento e tinham uma forma inusitada para os olhos de hoje; eram aplicadas aos alunos provas orais e escritas, tendo como matérias: língua portuguesa; língua estrangeira, sendo que essa, no início, englobava latim (sim, prova oral de latim, alô Direito Romano) e posteriormente francês e inglês; ciências, que incluía matemática, física e química; e conhecimentos gerais de história e geografia. Na primeira metade do século XX, também era obrigatório comprovar que o candidato era vacinado contra algumas doenças, como a vacina tríplice bacteriana, contra tétano, difteria e coqueluche, datada da década de 1930 e varíola (não seria exagero imaginar que em 2021 ou 2022 esse pré-requisito possa voltar a figurar nos editais de ingresso…). A exemplo disso, pode-se ver nesse recorte de jornal datado de 1934, no qual há um anuncio para a abertura de inscrições para o vestibular da São Francisco:

Apesar da USP ser de 1934, seu vestibular só foi unificado em todas as áreas em 1975, criando-se assim a Fundação Vestibular, a famosa FUVEST. O formato inicial não se diferenciava do que é feito hoje: aplicava-se primeiro uma prova objetiva comum a todos seguida de uma prova de aptidões e redação para aqueles que passassem da primeira prova, em uma relação de três candidatos por vaga. No primeiro ano de aplicação, 1977, a FUVEST teve mais de 92 mil inscritos (a título de comparação, hoje são quase 140 mil).

Nesse mesmo primeiro ano, no dia da prova da segunda fase do vestibular, houve uma tempestade na madrugada do dia anterior em São Paulo e o rio Tietê transbordou, impossibilitando o acesso à Zona Norte da capital, que ficou interditada. Como as provas seriam aplicadas na parte da manhã, a Fuvest então alugou um helicóptero e levou os testes para o Campo de Marte, onde mesmo assim ainda haviam hangares alagados. Os candidatos da Zona Norte foram transferidos das escolas em que prestariam a prova para o tal aeroporto, onde alguns hangares secos foram esvaziados para que a segunda fase fosse ali aplicada. Apesar do atraso do início, todos os candidatos tiveram as 4 horas corridas para realizar o exame e, a partir do ano seguinte, todas as provas foram realizadas no período da tarde para tentar contornar os imprevistos que viessem a suceder, como ocorre até hoje.

Em 2016 a USP passou a adotar o SISU como forma de ingresso conjuntamente com a FUVEST. A principal novidade foi o aumento de vagas destinadas aos estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escola pública. Outra mudança advinda dessa nova forma de ingresso foi o aumento na diversidade de alunos vindos de diversos estados do país. No ano de 2021 das mais de 11 mil vagas oferecidas pela USP, pouco mais de oito mil serão preenchidas pela FUVEST e quase três mil pelo SISU.

Outras mudanças que o vestibular adotou nos últimos anos foi a adoção de cotas raciais em suas provas. Tal histórica evolução ocorreu em 2017, quando determinou-se a reserva de vagas para alunos PPI; na época, a reserva era de 37,5%, em 2021 chegou a 50%. Tal política afirmativa, segundo o professor Ricardo Alexino Ferreira, membro da comissão de Direitos Humanos da USP, foi uma conquista dos estudantes após o Conselho ceder a uma pressão de décadas para adotar medidas que visavam aumentar a diversidade no campus da universidade. A política de cotas foi adotada pela primeira vez no Brasil em 2000, na UERJ, 17 anos antes da aprovação de tais políticas pela USP. 

A representatividade sempre foi a grande controvérsia dos vestibulares no Brasil e, principalmente, da São Francisco. A exemplo disso, tem-se a trajetória de Luiz Gama no Largo, que não podia ser aluno da faculdade, mas mesmo assim frequentava as aulas, se tornando rábula e, posteriormente, patrono da abolição no Brasil. Hoje, Luiz Gama é reconhecido como advogado e antigo aluno, tendo uma sala com seu nome inaugurada em 2017. Esse é apenas um nome que não pode adentrar formalmente nas arcadas naquele tempo, o que mostra quantos nomes a academia não deve ter perdido ao longo de anos excluindo grupos minoritários. Recomento a leitura de artigo escrito pela Gazeta Arcadas acerca do tema (https://gazetaarcadas.com/2020/06/16/salas-da-sf-ep-04-luiz-gama-rabula-da-liberdade/).

Da mesma forma as mulheres foram excluídas do ambiente acadêmico por cerca de um século na São Francisco. Na primeira metade do século XX, poucas conseguiram se tornar bacharéis. Atualmente, a situação melhorou, mas ainda não atingiu o ideal: mesmo com um corpo discente equilibrado, mais de 80% dos docentes ainda são homens. Recomendo a leitura de alguns artigos que retratam a trajetória de algumas franciscanas ilustres, como Lygia Fagundes Teles (https://gazetaarcadas.com/2020/04/15/a-sombra-de-lygia/); Ada Pellegrini (https://gazetaarcadas.com/2020/04/29/a-ilustre-trajetoria-de-ada-pellegrini/); e Ivette Senise Ferreira (https://gazetaarcadas.com/2020/06/11/ivette-senise/), que ilustram em certa medida essa temática na faculdade.

Com tal texto, a Gazeta deseja as boas vindas a todos os calouros e calouras da turma 194!

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