Fundada em 1830, a chamada Burschenschaft Paulista, mais conhecida como Bucha Paulista e Sociedade Franciscana reuniu diversos estudantes do Largo São Francisco, espalhou ideais progressistas e perigosos à época e lançou ao país nomes influentes na literatura, justiça e política.
No ano de 1828, o alemão Julius Frank migrou para o Brasil. Em 1834 tornou-se professor do Curso Anexo da Academia de São Paulo, espécie de curso pré-vestibular da época. A função de Julius era ajudar os jovens que desejavam ingressar na Gloriosa. O Presidente da Província, Tobias Aguiar, convidou-o para que lecionasse História e Geografia.
Influenciado pela cultura universitária da Alemanha, fundou, em 4 de julho de 1930, a Burschenschaft Paulista. Essa sociedade secreta, que ficou vulgar e popularmente conhecida como, Bucha só admitia membros que fossem alunos da Faculdade.
Burschenschaft é uma forma tradicional de corporação estudantil, presente ainda em países como Alemanha, Chile e Áustria. A primeira dessa corporação foi fundada em 1815 e era formada por antigos combatentes das tropas napoleônicas. Elas seguiam, na sua maioria, ideais liberais e nacionalistas.
Assim, através dela, eram difundidas ideias liberais, abolicionistas e republicanas. Não somente isso, também atuava na área da filantropia, ajudando alunos de Direito que não tinham recursos financeiros.
Rapidamente, a Bucha foi tomando grandes proporções, de modo que suas influências extrapolaram as Arcadas. Foi fortemente ativa na política até a queda do Presidente Washington Luís, em 1930. Nomes nacionalmente conhecidos saíram dessa sociedade, como Castro Alves, Álvares de Azevedo e inúmeros políticos. Todos os presidentes civis da Primeira República foram “bucheiros”, exceto Epitácio Pessoa.
A organização hierárquica e os rituais da Bucha
Havia dois braços, um dentro e outro fora da Faculdade. Internamente os graus eram de Catecúmenos, Crentes e Doze Apóstolos. Fora do Largo a atuação dava-se por conta dos Chefes Supremos e eles construíam o Conselho dos Divinos (veja a reportagem da BBC sobre o assunto aqui).
Segundo o historiador Paulo Rezzutti, enquanto o Brasil vivia no sistema da República Velha, as indicações para juiz, ministros e candidatos à Presidência passavam por liberação do Conselho dos Divinos.
Apenas aqueles que fossem indicados poderiam ser membros e a escolha era feita através da firmeza de caráter, espírito filantrópico, amor à liberdade e aos estudos.
Todos os iniciados deveriam fazer o singelo juramento:
Juro pela minha honra jamais revelar a quem quer que seja
o que me vai ser confiado hoje.
Serei o mais infame dos homens se faltar a esse meu juramento
O líder era chamado de “chaveiro”, encarregado da posse da Chave, sempre passada de um quintanista passava a um estudante do quarto ano, quando ocorria, então, uma solenidade chamada de Festa da Chave.
Esse evento anual, coincidia com a formatura era de extrema pompa, contava com a presença de diversas personalidades da política, inclusive o próprio Presidente da República.
Rezzutti narra um causo envolvendo essa cerimônia. Na segunda metade da década de 1910, durante a Primeira Guerra Mundial, ocorria uma das reuniões. Um delegado que estava pelos arredores começa a desconfiar de uma estranha movimentação no subsolo do prédio onde hoje se localiza a Pinacoteca do Estado. Receoso de ser um encontro secreto entre espiões alemães, ele invade a reunião e se depara com homens vestidos com capas e fantasiados, além disso, avista Altino Arantes – na época, governador de São Paulo – e Washington Luís, prefeito da cidade. A solução para que o delegado mantivesse em segredo o que presenciava era iniciá-lo na sociedade, e assim ocorreu.
A decadência
A Bucha parou de influenciar a política nacional com o fim do governo de Washington Luís. A sociedade ainda estava viva em 1944. Nesse ano, uma das notórias alunas do Largo São Francisco, Lygia Fagundes recebeu de um aluno a chave. O problema é que o formando acabou por não explicar o que significava o objeto.
“O fato aconteceu em certo dia de 1944. A então estudante de Direito Lygia Fagundes (que ainda não era Telles) estava no pátio da escola, quando um rapaz lhe colocou algo nas mãos e disse: “Guarda essa chave. Depois eu explico”. Ela conta que o moço sumiu em seguida. “Guardei a estranha chave na bolsa e a levei para casa. Minha mãe comentou que parecia chave de portão de cemitério, mas meu pai, que estudou na Faculdade e provavelmente foi da Bucha, se assustou: ‘Essa chave?! Quem te deu? Guarda’”. (Relato obtido por Afonso Schimdt, em seu livro “A Sombra de Júlio Frank”)
Em 2007, Lygia Fagundes acabou devolvendo a chave e hoje ela está exposta no segundo andar do Prédio Histórico da Faculdade. (veja a reportagem completa sobre a Lygia aqui)
