A arte independente em São Paulo - parte 1

No enorme caldeirão cultural que é São Paulo, muitas cenas artísticas escapam dos olhos do grande público, ficando (às vezes, literalmente) abaixo do chão. Esse tipo de arte, muitas vezes, não recebe o devido reconhecimento. Por isso, a Gazeta Arcadas introduz sua nova série, dividida em três partes, sobre a cena underground de arte em São Paulo! A parte 1 aborda a cena musical da cidade, dialogando com uma entrevista realizada (disponível na íntegra no fim da matéria) com dois artistas independentes paulistanos: Verderame (@_verderame) e Witchbleed (@witchbleed).

Todas as citações contidas no corpo dessa matéria são retiradas de entrevista realizada com os artistas independentes paulistanos Verderame (@_verderame) e Witchbleed (@witchbleed). O casal conversou conosco sobre a cena underground e seus desafios, bem como sobre o álbum Killed This!, lançado em maio de 2020, feito de maneira completamente independente. A entrevista pode ser conferida na íntegra no fim desta matéria. A obra é um retrato fidedigno da juventude paulistana, bem como de sua vida noturna, seu ritmo psicodélico e seu local num mundo em constante mudança, numa cidade em constante mudança.

Repaginando os anos 80, Killed This! é mais uma experiência do que um álbum: sua produção, suas letras e seus visuais formam um trio harmonioso, que dançam rumo ao objetivo final de auto-expressão e de construção de um mundo onírico, jovial e iluminado por luzes neon. Com certeza vale a pena conferir os 24 minutos e 45 segundos dessa obra musical, disponível nas plataformas digitais, incluindo Spotify, Apple Music e Youtube (confira abaixo). A Gazeta também já fez uma matéria sobre a volta das estéticas do cocaine chic e do vaporwave, que você pode conferir aqui.

Foto do casal de artistas Verderame e Witchbleed.

A cidade de São Paulo possui cerca de 12 milhões de habitantes e a cultura transborda em cada um de seus poros imigrantes, com as mais variadas influências: não é de se espantar que uma cidade formada por imigrantes não tenha uma cultura homogênea. Nossa capital tem de tudo, senão homogeneidade em seu ritmo frenético: exposições, exibições cinematográficas, shows (nacionais e internacionais), peças. Tudo isso colabora para que São Paulo definitivamente seja um polo artístico e cultural reconhecido mundialmente.

No entanto, quem faz arte na cidade? Ao andar pelas ruas, ao pegar o metrô, é mais do que normal nos depararmos com artistas vendendo suas peças ou cantando em troca de algumas moedas. Infelizmente, muito dessa vida doméstica é ofuscada pelos grandes artistas, parte do que chamamos de mainstream. O mainstream é a cena artística que está nos holofotes, contando com grandes investimentos e um público infinitamente maior, o que é conhecido, também, como “arte comercial”. Não é surpresa que muitos desses artistas estão presos às amarras de contratos que limitam seu potencial artístico, sua mensagem e sua produção como um todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, essas limitações comerciais já foram abordadas por artistas como Kanye West, Taylor Swift e, no caso mais famoso, Ke$ha, que denunciaram as condições desleais de contratos com gravadoras.

Essa dinâmica é fruto de um sistema produtivo que visa não a expressão artística e qualidade, mas sim o lucro. O que importa não é a originalidade, mas sim seguir a moda vigente, lançando aquilo que os analistas de mercado fonográficos acreditam ser a próxima “tendência”. É assim que a música se transforma no mercado fonográfico, que movimenta bilhões de dólares mundialmente.

A cena underground é o completo oposto. Composta por pessoas sem grandes investimentos, apenas com a vontade de se expressar e a dedicação e talento para executar, é na arte independente que nós encontramos as figuras mais originais. Sobre isso, Witchbleed comenta: “Acho que [a arte underground] passa mais uma sensação de verdade, quando a arte está feita só por ser arte. Todo artista independente quer ter uma vida confortável, ter como financiar sua arte, mas eu tenho certeza que a maioria dos artistas independentes não fazem música (ou outros tipos de arte) com a intenção de acertar um público e vender o máximo possível.”. O resultado disso são obras como o Killed This!, repletas de autenticidade e de diálogo pessoal e íntimo.

Ao contrário do que muitos pensam, a cena independente não tem um rosto definido. Não é necessário soar ou ser de uma certa forma para ser artista independente, por isso é uma cena tão variada: produz-se de tudo, desde música até literatura, e de todas as formas, desde techno até fotografia de rua. Essa liberdade vem exatamente da falta de amarras e contratos, da ausência da necessidade de lucrar milhões de reais com sua arte.

Nos últimos anos, o número de pessoas fazendo arte independente cresceu exponencialmente. Isso ocorre porque, com a internet, as ferramentas de produção tornaram-se muito mais acessíveis. Programas como o FL Studio, Photoshop, VSCO e muitos outros permitem que o usuário produza músicas e artes visuais (desenhos digitais, modelagem 3D, animação, quadrinhos, vídeos, filmes), o que antes demandava uma aparelhagem muito mais sofisticada — e cara. Além disso, a divulgação também ficou muito mais fácil, o que também favoreceu aqueles cuja forma de arte ainda é manual, como os artistas da moda: plataformas como SoundCloud e Behance e redes sociais como Instagram, Twitter e Tumblr permitiram que essas peças artísticas fossem divulgadas para toda a comunidade.

Isso significa que a internet e a tecnologia tornaram-se elementos essenciais na produção dos artistas independentes. Pode ser um bom começo, com a “fama na internet” transcendendo para a vida real. Como conta Verderame, ao falar sobre a apresentação que fizeram, no fim de 2019, na extinta casa de shows Morfeus, no centro de São Paulo: “Colou um pessoal que a gente costumava ver só na internet. Nesse evento do coletivo da Witchbleed (coletivo Witchcreep), foi onde a gente conseguiu dar palco para o pessoal aparecer e cantar. Foi nossa primeira apresentação.

No entanto, engana-se quem pensa que tudo são rosas. Apesar de toda a liberdade e autenticidade, os artistas independentes enfrentam muitos problemas relacionados à falta de investimento. Sem recursos para contratarem diversos profissionais ou equipamentos sofisticados, esses artistas fazem o trabalho de 10 pessoas sozinhos com um celular ou um computador. Witchbleed, sobre o assunto, comenta: “A primeira coisa é aprender tudo sozinho, ser todos os profissionais da produção, tem que saber sua criação, sua mensagem, a divulgação, é muito difícil.

Afinal, qual é a importância da cena independente? Por que estudar, se esforçar, planejar e executar?

A arte independente é um estandarte contra a industrialização do pensamento humano. Ao permanecer fiel a seus ideais, o artista tem a capacidade de tocar e instigar por meio de uma arte autêntica e pessoal. Além disso, socialmente, a produção de arte independente num país como o Brasil, onde os ataques governamentais e conservadores à produção artística não-convencional são constantes, é um sinal de que o espírito criativo do nosso povo, por mais diferente que sejam os indivíduos, permanece vivo e resiste ao blasé. Como forma de antropofagia,  a cena independente apresenta as mais diferentes reproduções e perspectivas do que é a arte e para o que ela serve. Nas palavras de Verderame, “Isso [se inspirar em artistas estrangeiros] não está errado, mas é a realidade deles, nossa realidade é totalmente diferente, ainda mais naquilo que precisamos para desenvolver aquele trabalho. Se a gente, que produz, não incentivar isso, ninguém vai.

Todas as citações contidas no corpo dessa matéria são retiradas de entrevista realizada com os artistas independentes paulistanos Verderame (@_verderame) e Witchbleed (@witchbleed). O casal conversou conosco sobre a cena underground e seus desafios, bem como sobre o álbum Killed This!, lançado em maio de 2020, feito de maneira completamente independente. A entrevista pode ser conferida na íntegra no fim desta matéria. A obra é um retrato fidedigno da juventude paulistana, bem como de sua vida noturna, seu ritmo psicodélico e seu local num mundo em constante mudança, numa cidade em constante mudança.

Repaginando os anos 80, Killed This! é mais uma experiência do que um álbum: sua produção, suas letras e seus visuais formam um trio harmonioso, que dançam rumo ao objetivo final de auto-expressão e de construção de um mundo onírico, jovial e iluminado por luzes neon. Com certeza vale a pena conferir os 24 minutos e 45 segundos dessa obra musical, disponível nas plataformas digitais, incluindo Spotify, Apple Music e Youtube (confira abaixo).

Sem mais delongas, confira a entrevista com o casal, abordando desde os aspectos de Killed This! até questões próprias da cena independente.

Foto do casal de artistas Verderame e Witchbleed.

E: Verderame, como artista independente, sua arte é muito autêntica. Quais você considera serem as maiores referências? Pode ser de tudo, até entes abstratos e ideias confusas.

V: Primeiramente, muito obrigado. Fico muito feliz que o que eu faço esteja sendo transmitido dessa forma, de forma tão autêntica. Em questão de referência, atualmente e, na época, o que eu consegui passar com a Killed This! foi tudo o que vivi dentro de casa, o que vivi no bairro onde eu moro. A referência está mais no lugar, na cidade de São Paulo, esse ambiente urbano, tanto no bairro quanto na cidade inteira. Também coisas que não precisei viver, mas a vivência de amigos nossos, tudo isso passado nas letras e na estética do álbum.

E: Witchbleed, você também trabalha com música, como DJ, e tem participação no álbum. Para você, o que é essencial quando falamos do mundo musical independente? O que dá a personalidade própria da cena em relação ao que chamam de mainstream?

W: Acho que passa mais uma sensação de verdade, quando a arte está feita só por ser arte. Todo artista independente quer ter uma vida confortável, ter como financiar sua arte, mas eu tenho certeza que a maioria dos artistas independentes não fazem música (ou outros tipos de arte) com a intenção de acertar um público e vender o máximo possível. As cenas undergrounds que crescem na cidade são muito particulares, especialmente em São Paulo, que é uma cidade enorme. Falando do estado, têm as cidades do interior que são próximas, cada lugar tem sua cena que são muito diferentes, cada um tenta passar sua própria vivência. O mais importante é que, mesmo que consiga mais reconhecimento, você tem que se manter fiel ao que você acredita e ao que te motivou a começar, porque as pessoas se identificam de uma forma muito mais especial com o underground do que com as músicas mainstream.

E: E o que te motivou a começar?

W: Muitas coisas. Ser DJ é mais um hobby para mim, eu gosto da vivência da noite de SP, das festas, das pessoas, da arte drag. O que mais me motivou a entrar nisso foi a auto-expressão, tanto a das outras pessoas quanto a minha. Eu sou muito apegada à parte visual, desde pequena; a parte de DJ foi quando uma amiga me chamou para tocar numa festa uma vez, e fui continuando.

E: Killed This! é um álbum com uma aura muito específica, quase onírica e transcendental, como uma versão urbana do experimentalismo psicodélico. A produção foi toda de vocês? Alguma história curiosa sobre isso?

V: A parte sonora eu fiz inteira; só a masterização que o Fat Kid, meu amigo, fez, o que ajudou demais a chegar no resultado final das faixas. A composição, os instrumentais, efeitos, gravações, fiz no quarto onde estamos aqui, assim como a parte estética. Em novembro de 2019, eu estava acabando o ensino médio, eu senti a vontade de lançar algo meu; até então, eu só tinha duas músicas. Eu queria aparecer, eu sabia que poderia fazer algo concreto e forte para as pessoas se identificarem. Nessa época, eu comecei a produzir o álbum e em fevereiro de 2020 eu já tinha algumas faixas prontas. A partir daí, pensamos na parte estética, que andou lado a lado com o álbum. A gente já sabia a vibe e fomos dialogando a parte sonora com a estética. A captação foi aqui em casa, com celular; os recursos eram muito baixos, tive até que trocar meu celular num notebook para conseguir produzir. Foi esse corre, mas deu certo.

W: Todas as demos que ele gravava, ele me mandava. Eu sou uma pessoa muito visual, eu ouço e já começo a imaginar todos os elementos de divulgação. Conversamos bastante sobre isso. Todo o photoshooting foi feito aqui no quarto: colocamos um fundo, montamos um cenário. Depois, eu editei e fiz toda a identidade visual do álbum. A parte visual inteira foi executada da forma que pensamos. É muito bom quando vemos as pessoas reconhecendo isso.

V: Outra coisa que eu queria falar é que eu acho muito gratificante quando somos chamados para falar sobre nossa arte. Ver o feedback que as pessoas dão para o álbum é incrível. A gente produziu do nada, tudo feito dentro do quarto. Isso significa que não necessariamente você precisa investir muito caro nos equipamentos para começar. Independente do que a gente tem no momento, precisamos nos expressar com o que temos. É difícil para nós, que não temos acesso ou dinheiro para investir. Se a gente espera alguém investir, a gente não sai do lugar.

E: Ainda falando sobre o álbum, é muito claro que é uma obra multifacetada, especialmente no quesito estético. Como foi o processo do trabalho visual?

V: Eu pensei bastante em coisas dos anos 80, as músicas são mais ou menos ambientadas ali. Claro que não é o único foco, a ideia é transformar em algo novo, usar a estética dos globos de festa e os cenários urbanos. São Paulo tem muitas festas no centro, então o ambiente da noite foi algo que eu quis retratar de alguma forma. Nas letras, isso está explícito quando eu falo das luzes, do tempo, por exemplo. Eu pensei bastante, tenho até os cadernos de brainstorming aqui.

W: A gente pensou muito em como seria traduzir os anos 80 em 2019, não utilizando o copiar e colar, mas sim fazendo uma releitura. Acho que a gente conseguiu com todo o visual, com as músicas nem se fala. O processo foi feito muito por nós, isso tornou o material muito pessoal e próprio.

V: Para complementar, em 2020 tiveram esses álbuns mais mainstream com essa temática  [Future Nostalgia, da Dua Lipa, e After Hours, do The Weeknd]. Isso acabou combinando bastante, porque quando comecei a produzir eu não fazia ideia que esses álbuns iam ser lançados.

W: Eu fiquei até meio surpresa quando vi esses álbuns. Eu pensei: “Olha o que a cena mainstream estrangeira tá trazendo!”, algo que a gente pensou em São Paulo, Vila Ema [risos]. Foi muito legal como o tempo de lançamento foi muito certo.

E: Qual é seu lugar favorito na cidade de São Paulo?

W: Eu não sei! Quando ainda tinha rolê em SP [pré-pandemia], a ideia era conhecer o máximo de lugares possíveis. Eu amo centros culturais, então todos os gratuitos eu já fui. Exposições também, conhecer o máximo de arte possível. Além disso, acho que conhecer as cenas diferentes, tipo techno e eletrônica, era algo que a gente fazia muito. Acho que meu lugar favorito da cidade é aquele onde as pessoas estão indo, onde estiver ativo [risos].

V: Eu também não tenho um lugar específico. Eu gostava muito de andar pelo centro, porque São Paulo é um labirinto: a cada lugar que a gente, a gente descobre novas coisas, lugares que nunca vimos, pessoas que nunca conhecemos. Até as regiões da cidade são muito diferentes. Não posso deixar de falar do bairro onde eu moro [Vila Rica, zona leste de São Paulo], que é o lugar ao qual me conecto. Não dá para ficar só buscando coisas do centro, nós não nos identificamos com muita coisa de lá, não é nossa realidade. É importante saber onde é nossa raiz, as vivências do pessoal do bairro, até as gírias; isso muda bastante.

E: Se pudessem explicar, em 3 sensações, como é ser artista independente em São Paulo, quais seriam? Por quê?

V: É difícil, porque não sei nomear uma sensação específica. Não sei como classificar isso, mas ser conhecido pelo o que você tá fazendo, ainda mais em São Paulo, é incrível. A quantidade de pessoas fazendo arte aqui é gigante, é frenético. É muito gratificante ser reconhecido, conseguir inspirar outras pessoas. Não se precisa investir muito, esperar ter o microfone, esse tipo de coisa: inspirar outras pessoas a fazerem arte com o que elas têm é muito gratificante. Tem também a parte ruim, que é o estresse. A gente faz a correria sozinho. Por exemplo, pensando no álbum, a gente assume a posição, sozinhos, de um trabalho que deveria ser de vários profissionais. Pensar nisso tudo com só duas cabeças é desgastante, te deixa pilhado. É necessário estudar de tudo um pouco, então a gente, além de produzir, aprende um pouco de fotografia, styling, maquiagem, e por aí vai. Depois do processo de execução, ainda temos que pensar de uma forma mais comercial sobre como traduzir a obra de uma forma melhor para o público. Ter que se explicar também é complicado; quando a gente cria, é porque essa é a nossa forma de se expressar, é natural. Para fazer o release [release é o resumo da obra, definindo aspectos do álbum], por exemplo, a gente não consegue expressar em palavras exatamente o que fizemos ali.

W: Para mim, as sensações de ser um artista independente em São Paulo, ainda mais sendo mulher, é complicado. A primeira coisa é aprender tudo sozinho, ser todos os profissionais da produção, tem que saber sua criação, sua mensagem, a divulgação, é muito difícil. A segunda coisa é “frenético”, tem que acompanhar seu trabalho, o trabalho de outras pessoas, é uma sensação de informação constante, ainda mais nessa era de produção de conteúdo. A cidade em si é muito frenética, te deixa ansiosa. A terceira coisa é gostar de estar em São Paulo. Não me vejo morando num lugar pequeno, é importante a comunidade construída em volta do que você criou e do que as pessoas interpretam daquilo. Você se sente acolhido. O tipo de música que eu gosto de tocar quando estou sendo DJ, por exemplo, são as músicas daquela comunidade de pessoas; isso faz eu me sentir acolhida.

E: Sua arte conversa com alguma questão social mais específica?

W: Na minha interpretação, tendo acompanhado todo o processo da Killed This!, eu acho que o álbum conversa muito com a geração. Não no sentido de problemáticas sociais, mas sim internamente, na questão psicológica, com o que a geração passa nesse momento. Conversa muito com os tempos atuais, os próprios pensamentos, a própria cabeça e a cidade em si. Aqui é frenético, nossa cabeça fica agitada.

V: Na Killed This!, a gente dialoga bastante não só com o que eu to vivendo, porque eu não consigo expressar só o que eu to passando. É uma coisa que eu sei que as pessoas da nossa faixa etária conseguem se identificar, o país tá passando por um momento foda. Acho que a mensagem é externalizar o que está dentro de você e lidar com isso, o que pode ser bom ou ruim. Você pode mostrar essa guerra interna. É sobre querer crescer e ser comprimido, sufocado, pelo ambiente que te cerca. Na época, foi muito sobre isso; hoje, menos, porque acho que consegui colocar muita coisa para fora. O que eu faço é mais voltado para o pessoal baixa renda, porque a gente não tem muito recurso para fazer, mas fazemos mesmo assim. É sobre incentivar a produção, se é algo que tem alma, se é uma ideia boa, tem que fazer, independente de recurso. Se não for a gente que valoriza a gente, ninguém vai. Quem tá lá em cima não para pra olhar quem tá aqui embaixo, então, é foda.

W: Exatamente! Cultivar a cena local é muito importante. Teve gente que viu nossa performance na Morfeus [no final de 2019, a dupla se apresentou na casa de shows Morfeus, no centro de São Paulo, junto com outros artistas independentes] e começou a fazer música. Dar vida à cena local é muito importante socialmente, porque os bairros onde a gente mora não tem financiamento à cultura. Teve até nosso bloco de carnaval, que foi mó B.O. com a prefeitura; a gente tentou trazer alguma coisa para onde a gente mora. Nem só de coisas básicas vivem as pessoas, as pessoas precisam de entretenimento, de arte.

V: Até na escola mesmo. Quando a gente estava no ensino médio, por exemplo, tinha gente muito talentosa, desenhando, fazendo música, fazendo várias coisas, mas que não tem incentivo e nem identificação com o lugar, que fala “Ah, eu me inspiro naquele cara lá da Europa”. Isso não está errado, mas é a realidade deles, nossa realidade é totalmente diferente, ainda mais naquilo que precisamos para desenvolver aquele trabalho. Se a gente, que produz, não incentivar isso, ninguém vai. A raiz do que eu faço é essa, inspirar o pessoal da minha área, crescer todo mundo junto, abrir portas para valorizar quem tá aqui.

E: Quais são seus próximos planos no mundo artístico?

V: A gente tá trabalhando num clipe. Vamos ver como vai ser, como ainda é só nós dois, fica complicado. Além disso, eu queria muito lançar um EP futuramente. Tenho a minha banda (Revel), também estamos pensando em lançar um EP futuramente. Esse ano é bastante planejamento, para que o próximo tenha lançamento, a gente já vai estar saindo da pandemia, eu espero né! [risos]. É um momento de idealizar os planos futuros.

W: Para mim, eu quero continuar na parte visual, trabalhar bastante no clipe, o conceito, o desenvolvimento, quero trabalhar com outros tipos de design. Também tocar em outros lugares! Eu toquei num festival virtual (Tropicaos), mas sinto muita falta das pessoas, da comunidade em si né. Então, eu espero que a pandemia acabe logo para podermos voltar com eventos, trazer a cena de volta, que tá meio parada. Para todo mundo tá parado, todo tipo de pessoas que trabalha com arte está meio estagnado agora. Os planos futuros são sobre criar coisas novas o máximo possível, executar o que a gente tem em mente.

V: Realmente, nossa vontade é trabalhar com todo o tipo de arte, como o audiovisual. Tenho planos para lançar uma coleção de roupas, porque concluí meu curso técnico em moda. São coisas que têm que ser muito elaboradas, quem sabe futuramente.

E: Para finalizar, três indicações de artistas independentes para quem se interessa pela sua arte.

V: De música, meu parceiro de banda: o Almeida (@_resnan_), a gente produz muita coisa juntos, mas ele também tem os trabalhos individuais no Spotify. O Yannick Hara (@yannickhara), a Dy Fuchs (@dy.fuchs) e o Andróide (@vndroid) também, temos uma conexão estética e musical muito boa; quem gosta da minha música com certeza vai curtir a deles.

W: Eu queria falar da minha amiga Júlia (@wast3lands), ela trabalha com fotografia e os registros dela são muito pessoais, eu gosto muito da arte dela. Todo lugar que ela vai, ela consegue captar a cidade de São Paulo de uma forma que só ela consegue. O João (@amortrash), que faz customização e upcycling de peças; o trabalho dele é tudo, acho que ele até já trabalhou com a Linn da Quebrada. A última indicação é a Caos Studio (@caosestudio_), que também trabalha com upcycling e tem uma pegada mais de moda agênero.

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