Com toda certeza, a Tomada da São Francisco pelos estudantes, em 1968, foi um dos momentos mais tensos de sua história, tendo recebido ampla cobertura da imprensa da época, mesmo que essa fosse marcada por boatos e ataques aos estudantes.
Na noite do dia 23 de junho de 1968, alguns alunos foram convocados para uma assembleia, realizada na sede do XI de Agosto, na qual ficou decidido pela ocupação do prédio da Faculdade como forma de resistência à intensificação da violência da ditadura militar. Assim, para ter acesso ao prédio da Faculdade, foi usada uma passagem que ligava o Porão da San Fran aos banheiros do andar térreo do prédio.
A princípio, após a entrada definitiva dos estudantes na Faculdade, tornou-se necessário pensar em estratégias para proteger o prédio contra futuros ataques da polícia e do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Dentre elas, a mais famosa foi a construção de barreiras de tijolos na entrada principal da Faculdade e na entrada pela Rua Riachuelo. Para isso, os alunos utilizaram a carga de um caminhão que, por engano, realizou sua entrega na Faculdade, assinando a nota fiscal em nome de Alfredo Buzaid, diretor da Faculdade à época e aliado do governo militar. Já para proteger o interior da faculdade, as escadas e o ramal do prédio foram completamente encharcados de óleo diesel, que, de tão eficaz, acabou deixando feridos dois alunos envolvidos na Tomada
durante uma tentativa de retomada do prédio pela polícia.
Durante os 26 dias de Tomada da San Fran, os estudantes realizaram inúmeras reuniões e palestras com alguns professores que apoiavam sua mobilização. Além disso, muitos alunos também relataram a possibilidade de acessar todo acervo da Biblioteca da Faculdade, sem qualquer tipo de restrição.
Vale ressaltar que, além de reação à repressão da ditadura, outro fato extremamente importante da Tomada da Faculdade foi a realização de inúmeras discussões quanto à necessidade de modernização do ensino jurídico, para além do estudo mecanizado de leis. Dessa época, é famosa a frase “queremos ciências políticas e sociais e não leituras de código”, escrita pelo estudante Percival Maricato em uma das paredes da São Francisco durante a Tomada, demonstrando a insatisfação de parte majoritária dos
estudantes quanto a pouca ênfase no estudo do direito como ferramenta para transformações políticas e sociais.
Outro fato marcante da época, que merece ser destacado, foi a realização do velório do professor de Direito Administrativo Fernando Henrique Mendes de Almeida, falecido em julho daquele ano, durante a Tomada da Faculdade. Na San Fran, é comum que os professores e ex-professores sejam velados no Salão Nobre, o que, no caso do professor Mendes de Almeida, sofreu grande oposição por parte dos professores em razão da ocupação do prédio pelos alunos. No entanto, a família do falecido professor escolheu que a cerimônia fosse mantida na Faculdade, mesmo estando essa ocupada pelos estudantes. Para tanto, houve a abertura da entrada pela Rua Riachuelo, com a derrubada da parede de tijolos ali construída. Em razão do velório do professor, foi adiada a operação policial para retomada do prédio, prevista para aquela data.
Dias depois, o prédio foi retomado pela polícia e os estudantes responsáveis pelo movimento foram levados ao DOPS, localizado à época na Rua General Osório. Não houve grandes danos às estruturas do prédio, o que levou à diretoria da Faculdade a desistir de processar os alunos envolvidos na Tomada. Em contrapartida, durante a invasão policial, foram confiscados inúmeros documentos de importância histórica da sede do XI, comprometendo parte de seu acervo histórico-documental.
Bibliografia: BUZZONI, Henrique D’Aragona (org.). Arcadas no tempo da ditadura. São Paulo: Saraiva, 2007.

