No mês em que o mundo lembra os 20 anos dos atentados do 11 de setembro, o longa do diretor americano Adam Mckay, VICE, nos mostra combinando ironia, crítica mordaz e sarcasmo na medida certa, como Dick Cheney, o vice-presidente norte-americano à época dos ataques terroristas, encabeçou a política externa dos EUA como grande arquiteto da chamada “Guerra ao Terror” - projetando-se como o homem mais poderoso do mundo. Suas ações, incluindo a questionável invasão ao Iraque em 2003, mudariam os rumos da história e da geopolítica mundial, sobretudo para o Oriente Médio.
A filmografia do cineasta norte-americano Adam McKay é repleta de comédias de valor duvidoso. Fica difícil colocá-lo ao lado de grandes diretores ou roteiristas como Quentin Tarantino ou Spike Lee, que apesar de poucos filmes produzidos, têm uma carreira de impacto. McKay talvez só precisasse de uma oportunidade para mostrar serviço e, quando ela finalmente chegou, o diretor a agarrou com todas as forças.
A atenção da crítica especializada de Hollywood veio finalmente com o excepcional A Grande Aposta (2015). O filme se propunha a explicar, do modo menos complexo possível, o que foi a crise de 2008, desde a quebra dos bancos com toda a sujeira financeira envolvendo os subprimes até seus efeitos sobre a população americana e também no mundo. Isso não foi uma tarefa fácil. Como “o cabeça” de um elenco mais que estelar que envolveu nomes como Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling e Steve Carell, o longa ainda apresentava alguns problemas ao tentar calibrar termos muito técnicos com longas explicações para um público que talvez estivesse esperando por um blockbuster e sem o aparato necessário para entender os meandros do mercado financeiro.


Mas McKay não desistiu. Ouviu as críticas, voltou para casa com sua sacolinha de panos sujos, seu caderninho de ideias e fez a lição de casa. O resultado, agora mais equilibrado, mas não menos mordaz, foi brilhantemente sintetizado em seu longa VICE (2018), filme que tem todos os méritos possíveis, cutuca a política americana de maneira original, muitas vezes recorrendo às cenas repletas de um didatismo irônico ou apenas engraçadas. A direção e o roteiro usam e abusam das formas caricatas para mostrar a trajetória de ascensão emblemática de Cheney: de vagabundo profissional, sem perspectivas de futuro, que envergonhava a esposa e os filhos, mal falava em público (quanto mais fazer um discurso), que perdeu uma bolsa de estudos para Stanford para tornar-se o número 2 da Casa Branca e com poderes quase ilimitados.
A história que o longa conta é basicamente a de como Dick se tornou o “rei da cocada” na Casa Branca. Para isso o filme retoma seu início com a esposa Lynne Cheney (a excelente Amy Adams), mostrando brigas e discussões entre o casal e como ela foi peça fundamental para a mudança de postura de seu marido. A cinebiografia perpassa seus primeiros anos de fracasso na política, o apadrinhamento do Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld (o sempre ótimo Steve Carell) até a proposta vinda do Partido Republicano em meados dos anos 2000 para compor a chapa de ninguém menos que George W. Bush Filho (Sam Rockwell) para o cargo de vice-presidente dos EUA. E assim, o roteiro caminha pelos obscuros bastidores da Casa Branca e suas disputas internas entre membros do próprio partido, as políticas de alianças, os acordos mais que questionáveis envolvendo grandes empresas, sobretudo as de petróleo.
Outro acerto é a mistura entre ficção e documentário, incluindo alguns enquadramentos que parecem estar alheios ao que acontece ou é ao que foi falado pelos personagens, e que confere um ar jocoso à película. As explicações e o didatismo que tornaram A Grande Aposto tão bom - ou enfadonho para alguns - continuam presentes. Mas McKay, como já foi dito, resolve não espremer muito os tomates para não perder a atenção do público dessa vez, fazendo escolhas mais equilibradas deixando de lado alguns termos extremamente técnicos ou de alta complexidade, optando por um didatismo mais orgânico para o filme. Em Vice, a linguagem acessível e a comédia da situação vão fazer o trabalho de deixar o espectador atento e informado, tudo de uma só vez. Entretanto, nada disso seria tão bom sem um elenco mais que estelar. Aliás, é neste aspecto que reside o grande mérito do filme. McKay retoma a parceria com os talentosos Christian Bale e Steve Carrell, adiciona ainda Amy e dá uma bela salpicada de irreverência com Sam Rockwell. Voilà! Temos um dos melhores filmes do ano.


Christian Bale está, sem sombra de dúvidas, em um dos seus melhores momentos. Sua atuação beira ao magistral. O astro de Batman: o Cavaleiro das Trevas (2008) entrega uma atuação digna do Carequinha de Ouro. O Cheney de Bale é uma personagem que beira ao patético no início, o famoso “mané” do qual Bezerra da Silva já tinha nos alertado há tempos. Mas Dick é da categoria de mané mais azarado que existe, do tipo que escorrega na casca da banana. Repare como o astro encarna bem o estilo “perdedor” no início do filme. Seu casamento está por um fio, e ele não sabe nem por onde começar a ajeitar a situação. Um homem tão medíocre que andava até mesmo de modo curvado, envergonhado de quem era. Seu personagem é o mais profundo em relação às questões psicológicas.
Quanto mais confiante, mais segura a postura do protagonista fica ao longo do filme, até que em uma tomada incrível, Dick caminha de cabeça totalmente erguida, de costas eretas assumindo a figura do “chefe mandachuva da festa”. O trabalho de Christian Bale é notável, pois consegue mudar totalmente a personalidade de sua personagem: onde antes víamos um homem medíocre, passamos a enxergar o homem frio e calculista, que assumiria a posição de vice-presidente. A virada do “mané” para o “malandro” é progressiva, de modo que o espectador possa acompanhá-lo através dessas mudanças e se surpreender ao perceber que tipo de pessoa Dick Cheney se tornou.
Uma das cenas mais assustadoras é quando ele negocia, literalmente, áreas de influência no Iraque com grandes empresas petroleiras, após a invasão. Era o destino de uma parte do mundo que estava sendo decidido no Salão Oval, regado à um número infinito de rosquinhas com muito creme e chantilly. Portanto, não seria exagero uma correspondência com o imperialismo do século XIX, promovido pelas nações da Europa em disputa por áreas na África e na Ásia.


Outros momentos assustadores podem ser observados quando Cheney toma as rédeas da situação nos minutos após os atendados de 11 de setembro. No abrigo subterrâneo, parecendo quase clamo, ele ordena de modo que beira ao inescrupuloso (uma ordem que poderia vir apenas do próprio presidente Bush, pela hierarquia de comando) que os aviões que forem um risco à segurança do espaço aéreo dos Estado Unidos, devam ser abatidos, não importa a situação. Outro ponto do filme chocante é a cena do jantar na qual, em meio a pratos gourmet, é discutida a questão da autoridade irrestrita do Poder Executivo sobre a Constituição, em que o presidente teria autoridade absoluta.
Não podemos nos esquecer ainda da propaganda neoliberal financiada por empresas privadas com o apoio político de Dick e respaldado pela FOX – uma das empresas de mídia mais conservadoras do país. As mentiras e tramóias que são o prato principal na coalizão de governo encabeçada por Dick não afetariam somente os EUA, mas também o mundo inteiro, sobretudo o Oriente Médio - que nunca mais seria o mesmo, com o projeto chamado “Guerra ao Terror”, conduzida de maneira arbitrária. Após as intervenções sucessivas dos norte-americanos e toda a categoria de abuso de poder, sem falar nas claras violações de direitos humanos constatadas mais tarde, a geopolítica mundial mudaria para sempre.
Bale engordou quase 20 quilos para o papel, raspou o cabelo e a maquiagem fez o restante para que o astro desaparecesse por completo e só pudéssemos ver o vice-presidente Dick Cheney. Obviamente, esse elemento-todo-poderoso não seria nada sem a sua fiel companheira e maior suporte, Lynne Cheney, tão conservadora quanto o marido, responsável pelo pontapé inicial na carreira política do companheiro, no intuito de vencer a qualquer custo, forjando o homem dos seus sonhos. Poderíamos traçar um paralelo entre a personagem de Amy e a personagem de Robin Wright, Claire, de “House of Cards” uma vez que ambas desejam que seus respectivos maridos alcancem o topo da política, mostrando disposição para lutar por esse objetivo.
Sam Rockwell dá vida a Bush Filho de forma tão caricata quanto seus colegas de elenco, interpretando um Bush jovem, privilegiado, bêbado e quase incompetente, que é tratado por Dick mais como um boneco marionete do que um companheiro de partido. Evidentemente, Cheney só aceita ser vice na chapa de Bush caso ele tenha poderes totais. Não posso deixar de mencionar ao meu sagaz leitor um certo incômodo com a ideia de que G. W. Bush é tão alheio ao que acontece com seu governo, que talvez o roteiro tenha carecido de um cuidado mais fidedigno sobre esse aspecto.
Alguns personagens têm pouco tempo em tela, ainda que impactantes, como Steve Carell, que interpreta o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, que já nasce inescrupuloso e ardiloso. Tyler Perry tem uma das tomadas mais emblemáticas do filme ao dar vida ao Secretário de Estado Colin Powell em dos momentos mais vergonhosos da história em seu discurso para o Conselho de Segurança da ONU, ao afirmar que existem armas de destruição em massa no Iraque e ao defender a necessidade de uma intervenção militar no país. Anos mais tarde, o mundo ficaria chocado ao descobrir que essas armas não existiam.
Longe de ser uma homenagem ao seu protagonista, com um roteiro dinâmico e com uma montagem ágil que mescla documentário com ficção, aliada à uma equipe de maquiagem mais que excepcional e deixando seus atores brilharem em atuações caricatas e não menos poderosas, Vice é resultado de um trabalho minucioso e em meio às lembranças do 11 setembro e suas consequências para o mundo, com direito ao FBI liberando o primeiro documento sobre as investigações somente no ano de 2021, o longa surge como uma provocação para resgatarmos a história e relembrarmos que os caminhos tortuosos da política ainda são um tema inesgotável e atual.


Título : Vice
Ano de Lançamento: 2018 (Brasil, janeiro de 2019)
Duração: 134 minutos;
Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Sam Rockwell, Steve Carell e Tyler Perry,

